Vox

Christina Dalcher · Capítulo 14 de 80

Páginas do PDF

Vox

Catorze

 

Finalmente eles vão embora.

O reverendo Carl entra em seu Range Rover; os homens do serviço secreto e Thomas vão nos outros carros. Patrick e eu somos deixados na sala com oito copos vazios marcando os descansos embaixo deles.

Nada foi decidido por enquanto.

Ele está andando de um lado para outro na sala, o suor fazendo seu cabelo geralmente arrumado com gel se grudar em tufos louros em volta do rosto. Nesse momento, parece menos meu marido e mais um felino enjaulado. Ou talvez um cão-selvagem seja a melhor escolha; cães são animais de matilha.

— Eles não vão tirar o contador de Sonia – digo.

— Vão. Em algum momento. Pense em como seria se ela aparecesse na escola sem a…

— Não ouse chamar de pulseira.

— Certo. Contador.

Coloco os copos na bandeja usando só o polegar e o indicador, porque não quero tocá-los mais do que o necessário. Apertar a mão do reverendo Carl me deixou com vontade de me esfregar com água sanitária.

— Você não pode mexer uns pauzinhos? Foi você que disse que era uma troca, então vamos fazer uma troca: eu trabalho para os filhos da puta, eles deixam minha filha falar.

— Verei o que posso fazer.

— Patrick, você é a porra do conselheiro de ciências do presidente. É melhor ser capaz de fazer alguma coisa.

— Jean…

— Não me venha com “Jean”!

Bato o copo que estou segurando na bancada e ele se despedaça.

Patrick salta feito uma bala de revólver, tentando estancar o sangue que pinga da minha mão.

— Não toque em mim.

Há um único caco de vidro cravado na carne macia embaixo do polegar. E sangue. Um bocado de sangue.

Enquanto a água escorre em cima do ferimento, recuo trinta minutos, de volta a quando o reverendo Carl estava dominando minha sala, me informando sobre os planos para o futuro.

Algo estava errado. Talvez fossem os olhos, que não sorriam junto com a boca, ou o padrão das frases. Eram ensaiadas demais, quase treinadas demais na cadência e na entonação equilibradas. Mesmo assim, a hesitação era audível – uma quantidade um pouco exagerada de ah e ééé atulhavam seu recital das mudanças, alterações e concessões pretendidas pelo presidente.

Não consegui identificar exatamente o momento em que percebi que não confiava nele.

— E se eles estiverem planejando alguma coisa pior, Patrick?! – gritei por cima da água corrente enquanto ele catava os cacos de vidro e os jogava na lixeira.

Não me virei para olhar; aqueles cacos se pareciam demais com nosso casamento.

Mas nem sempre tinha sido assim. Não se tem quatro filhos por acaso.

Ele se junta a mim perto da pia, lava as mãos como só um médico consegue, até os cotovelos, e me olha com ar interrogativo antes de segurar meu pulso. Ainda tem aquele toque gentil.

— Você quer primeiro a boa ou a má notícia?

— A boa.

— Certo. A boa é que você não vai morrer.

— E a má?

— Vou pegar meu material de sutura.

Pontos. Merda.

— Quantos?

— Dois ou três. Não se preocupe, parece pior do que é. – Quando ele volta com sua maleta preta, me serve uma dose de uísque. – Aqui. Beba. Vai diminuir a dor.

Então me senta na bancada da cozinha e pega o equipamento, pronto para brincar de médico com o talho na minha mão.

Tomo um gole longo da bebida forte, e a agulha penetra na minha pele desinfetada sem muita dor. Mesmo assim, não olho, apenas entrego a pinça quando ele pede.

— Ainda bem que você não estudou enfermagem, amor – diz ele, e há ternura de novo entre nós.

Por um instante.

Ele dá um nó hábil, corta o excesso de fio e dá um tapinha na minha mão.

— Aí está, Dra. Frankenstein. Nova em folha.

— O Dr. Frankenstein não era a criatura com zíper no pescoço. De qualquer modo, o que você acha? Eles estão planejando alguma coisa ou falaram sério?

— Não sei, Jean.

“Jean” de novo. Ele está irritado.

— Olha, se eu pegar esse trabalho, como saberei se eles não vão… não sei… usar minha pesquisa para promover o mal em todo o mundo?

— Com um soro antiafasia? Como?!

A perda de sangue e o uísque me deixaram tonta.

— Não confio neles.

— Certo, então. – Ele se serve de uma dose, depois bate com a garrafa na bancada com força suficiente para meus ouvidos doerem. – Não pegue o trabalho. A gente cuida do ar-condicionado quando o dinheiro entrar na semana que vem, você pode colocar de novo a porcaria da pulseira e todos voltamos exatamente ao ponto em que estávamos hoje de manhã.

— Vai se foder.

Ele está com raiva, magoado e frustrado. Mas nada disso justifica as palavras que saem de sua boca em seguida, as que ele jamais poderá retirar, as que cortam mais fundo do que qualquer caco de vidro e me fazem sangrar por inteiro.

— Quer saber, amor? Acho que era melhor quando você não falava.