Vox
Cinquenta e Seis
São quase sete horas quando estaciono meu Honda na entrada de veículos. O céu ainda está suficientemente claro para eu não conseguir imaginar o inverno ou a escuridão que ele traz. Nesta época do ano sempre me iludo pensando que o inverno não virá.
Mas virá. Sempre vem.
Patrick contou uma mentirinha a Sonia e aos gêmeos – mas não sei bem até que ponto é uma mentira pequena –, explicando por que eles estão no meio de três jogos de tabuleiro simultâneos em vez de se preocupar com a ausência de Steve. Sonia se afasta dos irmãos para me abraçar.
— Estou ganhando! – exclama ela. – De novo.
Levanto uma sobrancelha para Patrick.
— Eu disse que ele foi passar uns dias com um amigo – explica ele, depois olha para as crianças e sua floresta de peças de plástico. – Sam, Leo, vigiem sua irmã. Sua mãe e eu vamos lá fora um minutinho.
— Vamos? – pergunto.
— Vamos. Aqui, Jean. – Ele me entrega a garrafa de cerveja que acabou de destampar.
Jean. Não “amor” ou “querida”, mas “Jean”. Patrick está em modo profissional. Ou está puto, o que faz sentido. Nas últimas 24 horas eu cometi dois crimes. Talvez mais, se contar com a mexida na correspondência.
— Venha. – Ele abre a porta dos fundos e me leva o mais longe da casa possível. – Tem alguma coisa para me contar?
Engulo em seco, sem ter certeza do que é pior – roupar o envelope do projeto e lê-lo ou passar metade da tarde com Lorenzo. Ou estar grávida de dois meses e meio, penso. Não esqueça isso, Jean.
Ele afasta uma mecha de cabelo de cima da testa.
— Olha, sei que você esteve no meu escritório.
— Eu queria falar com meu pai pelo FaceTime – minto.
— Bela tentativa, amor, mas sei que não foi isso. Verifiquei a lista de chamadas no telefone da cozinha.
Bom, pelo menos voltamos ao “amor”.
Ele se senta numa ponta do banco, me puxando para me juntar a ele. Recuo.
— Não vou engolir, você sabe – diz ele.
Automaticamente minha mão direita vai até a gola da blusa e eu aperto o tecido em volta do pescoço. Só para o caso de eu ter trazido alguma lembrança da Cabana do Caranguejo.
— Certo – falo, e me sento ao lado dele.
— Eu vi um homem ser executado uma vez – continua Patrick, olhando direto para as azaleias que agora já passaram da explosão de cor do fim de primavera. – Foi no último mês de setembro. Na verdade foi em primeiro de setembro. Às 14h23.
Não sei o que dizer, por isso faço a primeira pergunta que me vem à mente: – Você se lembra da hora? Da hora exata?
— Lembro. Antes disso, nunca tinha visto um homem, ou uma mulher, morrer. Na verdade, nunca vi nem um animal morrer. Isso gruda no cérebro, sabe? Enfim, ele era do meu departamento. Um dos cientistas mais novos, trabalhava como elo entre a administração e as outras organizações, Fundação Nacional de Ciência, Centros de Controle de Doenças, NIMH, coisas assim. Jimbo vivia falando siglas. O nome dele era Jim Borden, mas todo mundo o chamava de Jimbo. Era um cara bom. Tinha uma esposa jovem e uma menina mais ou menos da idade de Sonia, talvez um ano mais nova. Gostava de contar piadas. É o que eu lembro dele. Não é engraçado, Jean?
Não, mas eu digo que é.
Patrick toma um gole de cerveja e estala os lábios.
— A outra coisa engraçada era que Jimbo vivia piscando. Quero dizer, como a gente pisca quando tem um cílio solto ou um grão de poeira no olho. Ele fazia isso de três em três. Pisca, pisca, pisca. Não para todo mundo, mas eu o pegava fazendo isso de vez em quando. Já viu alguém fazer isso?
Confirmo com a cabeça.
— Bom, Jimbo mantinha a cabeça baixa na maior parte do tempo, folheando papéis e fazendo cópias. Toda tarde, por volta das três horas, ele saía do escritório dizendo que tinha uma reunião com um cara do outro lado da cidade. Pegava a pasta e saía pela porta. Não sei se alguém notou, pelo menos a princípio, mas quando ele voltava, a pasta parecia mais leve. Dava para ver pelo modo como ele a balançava. Nunca falei nada sobre isso. Com ninguém.
Agora minha cerveja está quente e eu não quero beber. Ponho a garrafa no piso de pedras e me viro para Patrick.
— Mas alguém o pegou.
— Alguém sempre pega, amor. Sempre. Cedo ou tarde você faz merda. – Há uma pausa, então ele continua: – Não quero dizer você. Quero dizer “você” tipo… num sentido genérico. – Ele dá um tapinha na minha mão e eu só noto como sua mão está limpa. – Jimbo deve ter visto que a coisa ia acontecer porque, uma semana antes de atirarem nele, ele veio me procurar. Perguntou se eu era Puro como o resto. – Patrick dá um riso leve, mas sem humor. – Acho que eu não pareço um cara ruim, não é?
— Não. Não parece.
Nunca pensei em Patrick como um cara ruim, só um tipo de cara que fica de cabeça baixa e cala a boca. Mas não digo isso. Sei para onde a conversa está indo.
— Jimbo deixou uma coisa para mim antes de ser levado algemado para fora do departamento. Só um nome e um número. Disse que a decisão de fazer contato ou não era minha, e que esperava que eu fizesse, mas não ficaria chateado se eu recusasse. Foi assim que fiz contato com o Del. Você viu o que aconteceu com o Del hoje de manhã.
— Vi.
— Vão atirar nele, você sabe. Como atiraram em Jim Borden. Eles colocaram a gente num ônibus, Jean. Bom, em dois ônibus. Levaram a gente até Fort Meade, sem dizer uma palavra sobre o destino. O boato era de que seria uma dinâmica para melhorar o trabalho em equipe. Ainda consigo vê-lo. Eu o vejo todo dia às 14h23. Jimbo algemado num poste, olhando para todos nós enquanto o reverendo Carl lia as Escrituras. Glória, glória, aleluia, merda, estamos com uma raposa no galinheiro, caras, e só há um modo de cuidar de uma raposa invasora. Thomas… você se lembra do Thomas… bom, foi o filho da puta que atirou. Sem julgamento, sem júri, sem último pedido. Eles simplesmente atiraram nele, porra, ali, na área de treino de tiros do Fort Meade. Vi Jimbo tombar, escorregar pelo poste ao qual estava algemado, vi enquanto ele sangrava até morrer num trecho de areia que já estava manchado de vermelho.
Patrick se inclina, pega minha cerveja e a toma num gole só.
— De qualquer modo, foi por isso que não contei a você. Quando vierem me pegar, é melhor que você não saiba nada.
“Quando”, não “se”.
— Mas agora sei.
— Acho que sim, amor. Acho que você sabe.
— Steven? – Não quero fazer a pergunta, mas não consigo evitar. – Se ele chegar a Dakota do Norte e for encontrado…
Em vez de responder, Patrick enterra a cabeça nas mãos.