Vox
Cinquenta e Sete
Não há amor esta noite, mas há.
Colocamos três crianças na cama e desejamos em silêncio que Steven retorne antes que seja tarde demais. Então Patrick me leva para a cama e me envolve com seus braços.
— Você precisa ir embora. De qualquer modo.
— Não posso – digo, apesar de poder.
— Você conhece alguém, não conhece? Aquele italiano que trabalhava no seu departamento.
Então é assim, ter meu próprio marido sancionando meu caso amoroso.
Saio da cama e pego a mão de Patrick.
— Vamos tomar uma bebida.
No caminho para a cozinha, ainda não descobri a história, não toda a história, não o fim da história, mas sei como ela começa. E pode muito bem começar com a verdade. Pego dois copos e sirvo dois dedos de uísque puro no de Patrick e encho o meu com água.
— Nada de grapa esta noite? – pergunta ele.
Tudo está para ser revelado: aquele primeiro dia na sala de Lorenzo com a caixa de música, quando vi seus dedos compridos de músico e os imaginei tocando minha pele. A velhice que senti ao ver Steven, que ontem era apenas um bebê, entrar na adolescência. O tédio depois de tantos anos com o mesmo homem, o mesmo sexo. Por fim, a raiva pela passividade de Patrick, o encontro com Lorenzo depois de esbarrar com ele no Eastern Market. O bebê. Meu novo passaporte.
Só que, antes de falar, eu penso.
Penso em todas essas coisas, imaginando as palavras ricocheteando nos azulejos da cozinha. Na realidade, não existe moto perpétuo; toda energia acaba sendo absorvida, mudando de forma, mudando de estado. Mas essas palavras que estou para soltar jamais serão absorvidas. Cada sílaba, cada morfema, cada som individual vai reverberar para sempre nesta casa. Vamos carregá-las como aquele personagem de desenho animado que está sempre cercado por uma nuvem de sujeira. Patrick vai senti-las como dardos invisíveis, venenosos.
No fim das contas, não preciso dizer nada.
— Acho que você deveria ir com ele – comenta Patrick, como se tivesse visto toda a história nos meus olhos. – Com o italiano.
Penso que eu deveria estar aliviada por não precisar dizer as palavras. Em vez disso, sinto náusea por ter que ouvir Patrick dizendo-as, percebendo que seu conhecimento de quem eu sou não resulta de bisbilhotice e, sim, de anos de intimidade. Sua voz está fria; um gelo artificial afia o gume. Estendo a mão e ponho sobre o braço dele.
Então sua mão cobre a minha. E ele se vira de costas.
Ficamos parados, um casal de meia-idade numa cozinha, uma frigideira do jantar cheia de água na pia, a cafeteira pronta para entrar em ação quando a manhã chegar. Tudo neste quadro é normal, a rotina simples de uma vida juntos.
Por fim ele se afasta. Não é nada, realmente, só Patrick se virando para limpar uma migalha de pão na bancada ou verificar a frigideira com água. E, ao mesmo tempo, essa separação é tudo. Quando ele se vira de volta para mim, o V em sua testa parece mais profundo, quase gravado na pele.
— Leve Sonia – diz ele baixinho. – Eu fico com os garotos e penso em alguma coisa.
— Patrick, eu…
Agora é sua vez de reconfortar, e a mão que ele pousa em mim parece um peso.
— Não, Jean. Prefiro deixar as coisas… – Ele suspira. – Não sei. Acho que prefiro que a gente não entre nesse assunto. Saber já é suficientemente ruim. Está bem?
Não tenho ideia do que dizer, por isso empurro toda a dor para algum lugar escuro, para ser enfrentada mais tarde, para sentir a pontada sozinha, no meu tempo particular. Por enquanto Patrick não precisa saber sobre o bebê.
— O que você vai fazer?
— Eu disse que vou pensar em alguma coisa. Ele franze ainda mais o cenho.
— O quê, por exemplo? Você sabe o que eles estão planejando, não sabe? Um novo soro, uma porcaria de um soro solúvel em água. Quanto tempo você acha que a gente vai durar na Itália, ou em qualquer lugar, antes que toda a porcaria do mundo fique Azul Puro?
Ele não tem resposta.
Mas eu tenho. Não preciso de Patrick e de seu conhecimento político para dizer o que já sei. Todos aqueles sorrisos, assentimentos e Que tal um pouco de café, Jean na sala de Morgan não me enganam. Sou tão dispensável quanto um batom vazio, ou serei no momento em que testarmos o soro novo. O laboratório vai me manter por um tempo, até estabelecermos um registro bem-sucedido, até eles terem certeza de que não sou mais necessária.
Estarei na minha sala no trabalho, talvez sentada à mesa sem telefone, talvez parada junto à parede que deveria ter janela mas não tem. Morgan vai bater à porta, uma batidinha só para constar, porque não posso impedi-lo de entrar, de penetrar no meu espaço. A porta da minha sala não tem fechadura.
— Dra. McClellan – dirá ele, possivelmente enfatizando o título, porque está cansado de ter que usá-lo ou porque está aliviado por não ter que usá-lo mais. – Quer vir comigo, por favor?
Não será um convite.
Vamos caminhar pelo corredor de escritórios, Morgan esticando as pernas curtas para se manter um passo à minha frente. Não saberei se isso é um gesto de liderança ou se ele não quer me olhar nos olhos, mas vou achar que tem algo a ver com as duas coisas.
Vou perguntar a Morgan aonde vamos. Outra reunião? Ele encontrou uma falha no soro? O que desejarei dizer, mas não direi, é: eu sou a próxima, não é?
Se eu partir agora com Lorenzo vou me tornar Grazia Francesca Rossi. Vou fazer compras em feiras e açougues, visitar meus pais, fazer amor com um homem que é meu marido apenas no papel. Um dia, talvez dentro de algumas semanas ou meses, depois de voltar de uma caminhada agradável pelas ruas da velha Roma, tomarei um copo d’água na minha cozinha, como estou fazendo agora.
As palavras de Jackie voltam para mim, banais mas duras: Tudo acaba, Jeanie. Cedo ou tarde.
— Água – digo a Patrick.
Ele me serve outro copo, sem entender. Afinal de contas, eu mesma só descobri agora.
— O que você faria para se livrar de todos eles? – pergunto. – Para fazer as coisas voltarem a ser como eram?
De novo ouço Jackie: Pense no que precisa fazer para continuar livre.
Patrick engole o resto do uísque, examina a garrafa e se serve de mais um dedo. Preciso tirá-la dele antes que a bebida se derrame na bancada – suas mãos normalmente firmes estão tremendo.
— Qualquer coisa – diz ele depois de um longo gole. – Absolutamente qualquer coisa.
“Qualquer coisa” é uma expressão engraçada, usada demais e raramente literal. Eu faria qualquer coisa para ter um encontro com ela. Eu pagaria qualquer coisa para ter ingressos na primeira fila do show. Qualquer coisa que você quiser. “Qualquer coisa” jamais cobre toda a gama da existência.
Inclino-me por cima da bancada, suficientemente perto para sentir o cheiro doce do uísque no hálito dele, até que nossos narizes estão quase se tocando.
— Você mataria? – pergunto.
Patrick não pisca. Por um momento imagino se ele ainda está respirando, tamanha a imobilidade.
Preciso me lembrar de quem Patrick é, e do que ele é. O cara silencioso. O que não quer se envolver, que preferiria falar de teoria do que de prática. O homem que Jack chamou de babaca intelectual tantos anos atrás em nosso apartamento vagabundo em Georgetown, com o sofá de segunda mão comido por ratos e os móveis da Ikea cujo laminado se soltou um ano depois de ter sido montado. Além disso, ele uma vez jurou lidar cuidadosamente com questões de vida e morte, e recitou a promessa: não devo bancar Deus.
Ao responder, ele diz apenas uma palavra: – Sim.
A cozinha, quente e abafada, esfria.
Então ele completa:
— Mas você sabe que não precisamos.
— Exatamente.
Só precisamos tirar as vozes deles.