Vox

Christina Dalcher · Capítulo 23 de 80

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Vinte e Três

 

 

Na quinta-feira de manhã, visto um terninho pela primeira vez em mais de um ano. Precisei ir até o sótão atrás das caixas onde guardei minhas melhores roupas depois de Sonia e eu recebermos os contadores. Mal me lembro do que estava fazendo na época, só sabia que precisava manter as mãos ocupadas com tarefas triviais. Caso contrário, elas teriam socado o que vissem pela frente.

Escolho um conjunto de linho bege, pois está quente. Mal há tempo de passar a ferro um ano de amassados e me arrumar antes de a campainha tocar. Patrick deixa o homem entrar e eu o reconheço de imediato.

É Morgan LeBron, do meu antigo departamento, o merdinha jovem demais e completamente incapaz que ficou com o cargo de Lin. Não é de espantar que o presidente tenha concordado tão depressa com minhas condições; Morgan é um idiota que não sabe que é idiota. O pior tipo.

Ele entra e estende a mão bem cuidada.

— Dra. McClellan, estou muito feliz em tê-la na minha equipe. Muito feliz.

É claro que está.

E é a equipe dele. Não apenas a equipe, não nossa equipe.

Sempre tive um aperto forte para uma mulher, e apertar a mão de Morgan é como apertar um gatinho recém-nascido.

— Também estou feliz.

Babaca.

— Bom, vamos ao que interessa? Eu tenho uma papelada para você assinar e precisaremos estabelecer um depósito direto para a conta do seu marido. Nossa, está quente aqui.

— O ar-condicionado pifou. Podemos ir para a sala dos fundos. Tem um ar de parede.

Não adianta perguntar por que meu pagamento irá para a conta de Patrick; todo o meu dinheiro está lá desde o ano passado. Palavras, passaportes, dinheiro… até os criminosos podem ter duas dessas três coisas. Ou pelo menos podiam.

Conduzo-o pela casa, parando na cozinha para encher de novo a xícara de café de Patrick e a minha e servir uma para Morgan. Ele toma a sua com três colheres de açúcar e dois centímetros de leite, que me lembrei de comprar ontem à noite depois do jantar desastroso com Steven e do berreiro de Sonia. Ela pareceu se animar um pouco quando Olivia King veio buscá-la, possivelmente porque disse que a Sra. King tinha um canal de desenho animado na TV a cabo e faria uns biscoitos mais tarde. Talvez o sorriso no rosto da minha filha tivesse a ver com o contador cor de lavanda no pulso da vizinha. Uma coisa normal.

Os primeiros papéis que Morgan tira da pasta são um contrato, um acordo de não concorrência (como se eu tivesse outras perspectivas de trabalho), um acordo de sigilo e um acordo de trabalho por encomenda. Este último é um lembrete de cinco páginas em jargão jurídico dizendo que tudo que eu criar não pertence a mim e, sim, ao governo. Pego a caneta que Morgan oferece e assino tudo sem ler, imaginando por que eles ao menos precisam de uma assinatura, já que, de qualquer modo, farão o que quiserem. Patrick assina os formulários de depósito direto e os entrega.

Noto os termos de pagamento: cinco mil dólares por semana, e um bônus de cem mil se eu conseguir a cura até 31 de agosto, que é reduzido em 10% a cada mês depois dessa data. Portanto, há um incentivo para trabalhar rápido, de certa forma. Porém, quanto antes eu terminar, mais cedo os contadores de metal voltam para meu pulso e o de Sonia. Sei que eles acabarão voltando; é apenas questão de tempo.

— Perfeito – diz Morgan, retirando uma máquina da pasta. O objeto preto e fino é como um iPhone, só que maior. Ele o coloca na mesinha de centro entre nós. – Verificação de segurança. – Aperta um botão e digita meu nome. – Primeiro o polegar, depois o indicador e assim por diante. Apenas siga as instruções e mantenha o dedo na tela até ouvir um bipe.

É claro que eles iriam querer verificar minhas digitais. Obedeço e, assim que a máquina termina de escanear meu mindinho esquerdo, Morgan a pega de volta e espera.

— Só vai levar alguns segundos. Se você estiver liberada, podemos destrancar seus arquivos e ir para meu laboratório.

De novo o “meu”. Imagino quanto do meu trabalho – isto é, meu e de Lin – vai acabar tendo a assinatura de Morgan.

— Perfeito – diz ele quando a máquina solta um bipe. – Você está liberada. – Ele se vira para Patrick, que estivera segurando um molho de chaves durante a festinha de assinar e escanear digitais. – Senhor?

Patrick sai e as portas começam a se abrir. Primeiro a do escritório dele. Depois a do arquivo de metal junto à janela. Depois a do armário onde acho que meu laptop e minhas pastas moraram durante o último ano. Enquanto meu marido está ocupado, Morgan folheia mais um maço de papéis.

— Este é o restante da equipe – diz, me entregando uma cópia.

Pelo menos não disse “minha” de novo. Se dissesse, talvez eu precisasse lhe dar um tapa.

O chefe da equipe, claro, é o próprio Morgan LeBron. Há uma pequena biografia depois do nome dele, inclusive uma referência ao seu último cargo: Chefe do Departamento de Linguística, Universidade de Georgetown. Embaixo, o resto de nós está em ordem alfabética: primeiro Lin Kwan e suas credenciais, que incluem a palavra “ex”; depois eu, também “ex”. A cada aparição dessa palavra, meus olhos doem.

Mas não estou preparada para o soco na barriga que vem em seguida.

O terceiro nome da lista é Rossi. Lorenzo Rossi.