Vox
Sessenta e Cinco
Não estou inconsciente. Se estivesse, não sentiria dedos passando pelo meu cabelo embolado, apagando o fogo da dor. Não estaria acrescentando zoológicos, safáris e fantasias infantis com a primatologista Jane Goodal à minha lista de coisas em que nunca mais devo pensar de novo. Não ouviria Morgan gritando como uma criança petulante que acabou de ter a chupeta arrancada da boca: – Por que você fez isso?!
Abro os olhos e vejo o soldado, com a mão ainda tremendo depois do que deve ter sido sua primeira morte, olhando de mim para Lorenzo e Morgan, depois para o Número 412 estirado na gaiola. Antes que ele possa responder, Morgan abre a boca de novo: – Isso é fantástico. Ótimo. Seu idiota. Eu deveria colocar você numa jaula dessas, só que você não tem cérebro suficiente. Sabe quanto esses animais custam?
— Aparentemente, mais do que eu, Morgan – digo.
— Meu Deus. – Ele se vira para Lorenzo. – Qual é o dano?
Lorenzo soltou os dedos do chimpanzé dos meus cabelos e me deita no chão de ladrilhos, inspecionando o talho no meu rosto. Um fio de sangue quente escorre até minha boca.
— Dói? – pergunta ele, tateando um ponto perto da minha têmpora.
Se dói? Não, só parece que minha cabeça foi arrastada numa lixa grossa. Queima.
— Dói – respondo, levando a mão ao ferimento.
— Não faça isso. Preciso limpar. Morgan, arranje um kit de primeiros socorros.
— Como vou saber onde eles guardam as merdas de primeiros socorros? Sou gerente de projeto.
— Você é um gerente de projeto de merda, Morgan – retruca Lorenzo. – Você é um cientista vagabundo, um pesquisador péssimo, e se algum dia eu pegar você sozinho, vou te fazer em pedaços, um osso de cada vez. Comece a procurar. Tente no armário do canto, o que tem uma cruz vermelha. – Baixinho, ele diz: – Escroto.
— Eu estou ok? – pergunto, querendo tocar no rosto, garantir que tudo ainda está onde deve.
— Melhor do que ok – responde Lorenzo. – E, Morgan, quando achar o tal kit, chame um médico.
Os sapatos de Morgan voltam, até ele estar tão perto que quase consigo ver meu reflexo neles.
— Não dá. Esta é uma instalação confidencial, para o caso de você não ter notado.
Lorenzo o ignora enquanto banha o lado direito do meu rosto com água oxigenada e coloca um curativo limpo sobre o ferimento que vai da linha dos cabelos até o canto da boca.
— São principalmente arranhões superficiais. Você consegue ficar de pé?
— Acho que sim. – O laboratório, com os chimpanzés que restam, entra em foco. – O que está acontecendo, Morgan?
Agora ele está no modo profissional, tendo esquecido minha condição de quase vítima de um primata furioso.
— Precisamos que você volte ao trabalho.
— Fazendo o quê? Você disse que tínhamos terminado. Aquele capanga de aluguel chamado Poe falou que tínhamos terminado. Vocês apagaram nossos arquivos.
Espero enquanto Morgan estuda os cadarços dos próprios sapatos.
— Me sigam.
Deixamos a sala dos animais e passamos por outra porta dupla. Dentro, uma réplica do laboratório do subsolo zumbe com atividade. Aparentemente ninguém ouviu meus gritos. Nem o tiro.
Ou talvez tenham ouvido e não se importam.
Demoro alguns segundos até ver os emblemas dourados nos jalecos e os pequenos quadrados dourados nos crachás pendurados no pescoço de todos os homens. Aqui, como na sala atulhada de cubículos do lado de fora, todo mundo fica de cabeça baixa e soldados patrulham os corredores.
— Bem-vindos à equipe dourada – diz Morgan, parecendo mais um apresentador de programa de auditório do que um cientista.
Nenhuma surpresa: o cara não consegue achar um kit de primeiros socorros nem quando o negócio está na sua cara.
Ele nos leva até pouco mais de um metro quadrado de bancada vazia e para, esperando até nos sentarmos.
— Certo, Morgan, vou morder a isca – digo. – Que diabo é isso?
— É sua nova equipe. – Ele estende um braço. E você pode ganhar todos esses prêmios, imagino-o falando.
— Não entendi.
— Vai entender. – Morgan assente para alguém atrás de mim.
Um homem com lentes bifocais grossas como um tijolo de vidro aparece e coloca dois fichários grossos na nossa frente, cada um com ALTAMENTE SECRETO em letras douradas. Dentro está a maior parte dos dados que eu tinha no meu laptop. Antes que o cara das bifocais saia, capto outro brilho de ouro em seu anelar esquerdo. Morgan se vira para o soldado que matou o chimpanzé – no último instante, penso – e dá instruções que não consigo ouvir.
— Gianna – diz Lorenzo, cutucando meu cotovelo.
Ele não me encara; seu olhar permanece no laboratório. Depois bate no dedo anelar da mão esquerda.
O banquinho em que estou sentado é um daqueles ajustáveis, com alavanca embaixo do assento. Levanto-o até que consigo ver a maior parte do laboratório. Homens estão coçando cabeças, girando lapiseiras, esfregando olhos cansados. Todos, sem exceção, têm uma aliança de ouro no dedo anelar da mão esquerda.
E todos parecem muito assustados.
— Eles não são voluntários, Enzo, são?
Ele balança a cabeça.
— Ah, meu Deus. – Cada homem dentro desse complexo é casado, talvez tenha filhos. – Tremendo incentivo.
Depois de dar uma bronca no pobre soldado, que parece ter visto seu último contracheque sair voando, Morgan volta.
— Preciso de uma fórmula, pessoal. Esta noite. Amanhã de manhã preciso de um soro que funcione.
— Nós acabamos de lhe dar o soro que funciona – replico. – E você tem os frascos. Os cinco.
Preparo-me para o papo de Jean, Jean, Jean e seguro a borda da bancada com as duas mãos. Melhor mantê-las segurando qualquer coisa, pois o que elas querem fazer agora é se fechar em volta do pescoço de Morgan. Com força.
Ele sorri.
— Você me deu um soro que funciona, Jean. Eu quero outro.
Finjo completa ignorância.
Morgan une as mãos com um estalo.
— Certo. Deixe-me explicar em termos simples. Nós temos um processo anti-Wernicke. Ele funciona. Todos vimos a Sra. Não-Sei-das-Quantas passar de uma idiota balbuciante para uma entusiasta dos coelhinhos.
— A Sra. Ray – digo. – Ela tem nome.
— Tanto faz. Agora queremos a mesma coisa, mas diferente.
Lorenzo revira os olhos.
— Você quer opostos semânticos, Morgan?
Se essa cutucada incomoda nosso chefe, ele não demonstra. Talvez não entenda a piada. Morgan nunca foi uma estrela brilhante no universo da linguística.
— Quero o oposto do que vocês já me deram. Quero uma neuroproteína que induza a afasia de Wernicke, e para amanhã. Portanto, trabalhem.
Lorenzo fala primeiro:
— O que eles prometeram a você, Morgan? Um título de sócio vitalício na melhor boate de striptease de Washington? Eu não sabia que você conseguia levantar a coisa.
— Só me deem o que eu quero.
Agora cada par de olhos no laboratório está voltado para nós.
— Não – respondo.
Morgan se inclina até que seu nariz quase toca no meu.
— Perdão? Não escutei.
— Eu disse “não”. É uma negativa, Morgan. Uma recusa ao seu pedido. O oposto da concordância.
Pela primeira vez desde que o conheço, Morgan dá uma gargalhada. É uma gargalhada baixa e ofegante.
— Não é um pedido, Jean.
Ele consulta seu relógio, suspira como se esse negócio estivesse tomando mais do seu tempo valioso do que ele havia previsto, e chama um dos soldados que patrulham no canto do laboratório.
— Cabo, leve esses dois à Sala 1 e mostre o que há lá dentro. Quando eles derem uma boa olhada, traga-os de volta.
A Sala 1 fica do outro lado do laboratório, após atravessar uma porta dupla trancada capaz de deter qualquer coisa. Tento não pensar em possibilidades orwellianas como ratos e cobras. De qualquer modo, na verdade meus piores medos andam em duas pernas e têm nomes como Sam, Leo e Sonia. Meus piores medos são meus filhos.
O cabo, vestido com roupa de camuflagem e botas de combate, nos leva até a porta de aço. Com a mão esquerda – noto que ele também usa aliança –, ele enfia um cartão no leitor eletrônico e fica de lado enquanto a porta se abre, revelando um vestíbulo e outra porta que permanece fechada quando deixamos o laboratório para trás. Só quando a porta de entrada desliza fechando-se, eu percebo que esse espaço é como um túmulo.
Odeio espaços confinados, sempre odiei.
Lorenzo estende a mão para a minha. Sua pele está quente; toda a sala é uma fornalha e o suor escorre por meu rosto no que parecem rios de sal, me queimando por baixo do curativo na bochecha. Mas não me sinto quente. Sinto como se um lençol de gelo tivesse se enrolado em volta de mim enquanto o cabo avança e destranca a outra porta.
Dentro, sentadas na única mobília da sala, além de um vaso sanitário sem tampa, estão três pessoas.
Penso nos grandes primatas, nos hominídeos. Gorilas e orangotangos, bonobos e chimpanzés. E, claro, nos humanos.
O humano da esquerda fala meu nome antigo, um nome que não ouço há vinte anos. Na segunda sílaba de “Jeanie”, uma pontada de dor a joga para trás contra a parede de aço. A pancada nauseante ecoa na sala.
Parece o som abafado de uma arma.