Vox

Christina Dalcher · Capítulo 40 de 80

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Vox

Quarenta

 

 

Quando chego ao trabalho, Lorenzo e Lin estão no laboratório, as cabeças próximas, discutindo sobre extrações de proteínas e se precisamos acrescentar um primata ao zoológico de animais de laboratório.

— Não precisamos – respondo. – Temos é que verificar a segunda sala de ressonância.

Não há motivo para tal, pois Lin já fez isso. Mas eu estive perto das máquinas por tempo suficiente e ouvi um paciente depois do outro reclamar do barulho, mesmo com a proteção auricular. Deitar-se num tubo de ressonância é como se aninhar perto do amplificador enquanto Eddie Van Halen faz a guitarra uivar num solo. Em outras palavras, é quase doloroso.

Quando estamos todos na sala, ligo a máquina. A força de um campo magnético sessenta vezes maior do que o da Terra faz meu corpo estremecer. Acima dos 125 decibéis de ruído capaz de rachar os tímpanos, conto a eles sobre minha mãe e o envelope que encontrei no escritório de Patrick na noite passada.

— Três equipes? – grita Lin. – Tem certeza?

— Tenho! – Minha voz é quase inaudível, mas Lin entende. – De qualquer modo, nós já terminamos. Eu tenho todos os números em casa e quero fazer a primeira tentativa com a Sra. Ray na terça-feira. Na segunda, se conseguirmos aprontar tudo. Isso quer dizer que teremos de trabalhar no fim de semana, aplicar o soro em alguns ratos. Ou melhor, Lin pode aplicar em alguns ratos.

— Eu sabia que você tinha terminado – diz Lorenzo, e me abraça, o que parece maravilhoso e medonho ao mesmo tempo. – Vi isso em seus olhos naquele dia em Georgetown.

Certo. Imagino o que mais ele viu nos meus olhos.

— Lin, preciso de um minuto sozinha.

Ela levanta uma sobrancelha, mas não diz nada. Num momento, Lorenzo e eu estamos sozinhos na sala de ressonância.

— Tenho uma notícia. Não é muito boa – digo acima do barulho.

Não sei quando nem por quê, mas decidi contar a ele.

O rosto de Lorenzo fica branco como as paredes. Ele dá um soco na máquina atrás de nós, e o barulho fica irregular, depois volta ao normal. Um jorro de palavrões em italiano enche a sala.

— O que é, Gianna? O que você tem?

— Não. Não estou doente. Bom, também não estou bem, mas…

Ele verifica todos os cantos da sala, examina o piso de ladrilhos e a unidade de ventilação no teto. Durante cinco minutos inteiros fico parada num mar de ruídos enquanto Lorenzo passa um pente-fino ao nosso redor. Quando fica satisfeito, ele vem até mim, enfia os dedos compridos no meu cabelo e me beija. Suas mãos descem, acariciando meu pescoço, tocando silenciosas notas musicais nas minhas costas. A pele sob a blusa fica formigando e se arrepia, e agora estou perdida no beijo, sou toda feita de lábios, língua, saliva e amor silencioso, e não é um beijo de Patrick e, sim, de Lorenzo.

Não quero sair nunca mais deste lugar.

Quando nos separamos, nós dois estamos sem fôlego. Sua ereção faz pressão no meu baixo-ventre, como se ele estivesse sondando o que há dentro, que segredos escondo naquele lugar escuro e feminino.

Passa-se um tempo até que um de nós fale.

— É meu? – pergunta ele, movendo-se ligeiramente até haver espaço para sua mão onde aquela outra parte dele estava. – Gianna, diga.

Já repassei os números e não precisei de calculadoras nem planilhas. Há dez semanas houve um dia frio em março em que fui ao Eastern Market comprar um pedaço de queijo e voltei para casa com Lorenzo no meu corpo depois de uma tarde em nossa pequena cabana em Maryland. Cabana do amor, cabana do caranguejo, cabana do bebê. Fazia um tempo que Patrick e eu não dormíamos juntos.

— É – sussurro.

Ele me puxa para perto. Desta vez é tudo suavidade: sem arestas, sem sondagem, só um quente casulo de lábios, abraços e nossa respiração misturada. Estou segura aqui, nesta sala estéril com seus superímãs, seu barulho ensurdecedor e nenhuma câmera para nos vigiar ou gravadores para captar sons. Durante alguns momentos somos só nós dois. Não tenho filhos nem marido, apenas Lorenzo e o bebê dentro de mim, e uma necessidade desesperada de permanecer assim.

— Estou trabalhando nisso, Giana – diz ele no meu ouvido. – Estou trabalhando nisso.

Quero perguntar em que ele está trabalhando. Se tem alguma coisa a ver com o dinheiro e o projeto pessoal sobre o qual falou ontem. Quero perguntar se ele encontrou uma saída para mim, para Sonia, para nosso bebê. Isso implicaria abandonar Patrick e os garotos, talvez temporariamente, talvez até eles poderem viajar para me encontrar. E aí? Patrick me aceitaria desse jeito? Nós voltaríamos ao normal em algum lugar novo? Será que Steven ao menos falaria comigo de novo?

Mas isso são apenas devaneios. Não há escapatória.

De repente cada nova pancada da máquina é a voz de Jackie dizendo: Eu te avisei. Eu te avisei. Eu te avisei.