Vox
Cinquenta e Nove
Má ou não, eu durmo e, durante três horas doces e sem sonhos, não penso no plano, em Patrick nem em Lorenzo. Não penso no lugar onde Steven pode estar nem se Del, o carteiro transformado em espião, está numa sala fechada decidindo se abre o bico ou se vê suas filhas implorarem enquanto Thomas trabalha nelas. Não penso no cotoco queimado onde antes estava a mão de Olivia King, nem se Lin e Isabel foram apanhadas e agora estão a caminho da prisão.
O sono é uma bênção enquanto dura.
Sem nada além de café no estômago, vou para o laboratório, com as anotações de Patrick dobradas dentro do pó compacto que levo na bolsa.
Lorenzo está em sua sala, fazendo café.
— Quer um pouco? – pergunta ele.
— De jeito nenhum. – Já posso sentir uma úlcera no estômago. Pego o pó compacto, abro, tiro rapidamente o papel e o deslizo pela mesa. – Vou deixar tudo preparado para a Sra. Ray. Encontre-me lá embaixo quando estiver pronto.
Minha sala está vazia e escura, exatamente como a deixei ontem. Sei que Lin não voltou. Pior, tenho certeza de que ela não vai voltar.
Portanto, tenho um plano. Esperança, não tanto.
Meu reflexo no elevador me olha de volta, dos três lados. Pela frente não estou tão ruim, um pouco de olheiras, o cabelo despenteado como sempre, o rosto meio abatido pela dieta recente de café e água. A visão lateral mostra uma eu diferente daquela com a qual estou acostumada. Eu me lembro de endireitar as costas e levantar o queixo. Não há sentido em permitir que a Sra. Ray me veja derrotada; ela só iria se preocupar. Tento encolher a barriga, mas não adianta. O volume irregular embaixo da blusa me lembra de que precisei deixar o botão da calça jeans aberto.
Meu Deus, espero que Patrick não tenha notado quando se despediu de mim com um beijo, hoje cedo.
Dentro do laboratório, digo olá aos roedores e coelhos remanescentes, ignoro o freezer onde os doze ratos mortos esperam para ser dissecados e preparo uma sala lateral para a Sra. Ray. É simples e estéril, não exatamente o que eu tinha em mente para seus primeiros momentos se juntando de novo ao território da linguagem, mas posso melhorar.
Volto para a sala das gaiolas e pego um coelho da fila de cima, colocando-o num cubo de acrílico com buracos altos de cada lado, acrescentando uma cama de lascas de madeira, um tubo para água e algumas bolinhas de ração. Sei que são feitas de alfafa, mas têm cheiro de bosta.
— É isso aí, Tambor – digo a ele. – Tenho uma nova amiga para você conhecer.
Morgan entra.
— O que é isso, Jean? – pergunta ele. – Pensei que você tinha terminado os testes com animais.
De novo meu cérebro diz para o meu corpo ficar ereto.
— Ele está aqui para a Sra. Ray. Achei que ela fosse querer ver alguma coisa além de uma parede branca.
Ele dá de ombros, como se nossa primeira paciente não fosse nada mais do que um animal de laboratório – na mente de Morgan, provavelmente é o que ela é.
— Você vai descer para o teste? – pergunto, carregando a casa de plástico de Tambor mais para perto da sala onde vou aplicar a injeção em nosso primeiro indivíduo humano.
— Eu não perderia isso por nada.
Abro o armário refrigerado, onde Lorenzo guardou os frascos com nosso soro antiafasia. Ele rotulou o segundo grupo de frascos – os que mataram os camundongos – com um X vermelho e os segregou numa prateleira diferente. Onde os seis tubos de vidro deveriam estar, há apenas um.
— Você pegou os outros? – pergunto a Morgan.
— O quê? – Seus olhos se movem para cima e para a esquerda enquanto ele se esquiva da pergunta.
Morgan se vira para sair, e eu tenho uma ideia.
— Até que ponto você está conectado?
Seus olhos se estreitam e seu rosto se enrijece, uma mistura de suspeita e medo.
— Ah – digo, forçando um sorriso de menina. – Eu só estava pensando se você já esteve dentro… você sabe… da Casa Branca.
Como um peixe em busca de um anzol, ele engole a isca que eu joguei e relaxa.
Anda, peixinho, penso. Pegue. Morda a isca.
— Na verdade… – continua Morgan, e estufa o peito, de novo tentando ocupar mais espaço do que pode. – Fui convidado para ir lá na segunda-feira. E graças a você, Jean. Você é parte imprescindível desta equipe.
O sorriso continua grudado no meu rosto, mas desta vez não preciso forçá-lo.
— Que maravilhoso, Morgan. Maravilhoso mesmo. Olha, a gente precisa se preparar, portanto…
Ele me interrompe:
— Sem dúvida, Jean. O que você precisar. Vamos trazer a Sra. Ray para baixo quando o… quando ela chegar. – Ele enfia o indicador na gaiola do coelho, sacudindo-o. – Oi, coelhinho.
— Não é uma boa ideia, Morgan. Eles são territoriais.
— Ah, é só um coelhinho bonitinho. – Ele recolhe a mão como se tivesse encostado no fogo. – Porra! Ele me mordeu! – Mal consigo conter uma gargalhada enquanto ele grita. – Bicho escroto!
— Só serve para uma coisa, não é? – Observo o sangue brotar no dedo de Morgan. – Espere aí. Você não vai morrer.
Enquanto estou fazendo um curativo no dedo dele, Lorenzo entra.
— O que aconteceu? – pergunta ele.
— Ferimento infligido por coelho – respondo, colocando mais iodo do que o necessário no furo no dedo de Morgan.
Lorenzo sorri.
— Não é o Sylvilagus floridanus, Dra. McClellan? Eles foram testados para raiva? – Ele se inclina e inspeciona o ferimento, balançando a cabeça. – Pode ser ruim.
O rosto de Morgan passa por todo o espectro, de rosa a verde e ao tom doentio de cola de papel de parede. Ele não vê Lorenzo piscar para mim, por cima da sua cabeça.
— Você vai ficar bem. – Eu termino o curativo e levo Morgan para fora do laboratório. – Vejo você em uma hora mais ou menos. – Depois, virando-me para Lorenzo, acrescento: – Quem será que vai buscar a Sra. Ray?
Não será o Del, sei disso. Sharon é uma acompanhante igualmente improvável – deve estar presa junto com o marido. Visualizo Poe e seu bando de capangas de terno, utilitários pretos e óculos escuros indo pela estrada de terra até a fazenda dos Ray, revirando celeiros e estábulos até achar a oficina de Del. É uma imagem mental terrível.
— E então? – pergunto a Lorenzo.
Ele assente.
— Laboratório de bioquímica. – Depois, em italiano, sussurra: – Preciso trabalhar à noite e o dia de amanhã inteiro, mas dá para fazer.
Ponho a casa de acrílico de Tambor na sala onde a Sra. Ray vai ficar e penso em colocar Lorenzo a par das minhas atividades e conversas da madrugada. O poema. O cansaço derrotado, mas de algum modo com aceitação, nos olhos de Patrick. Em vez disso, enquanto andamos pelos ladrilhos brancos do laboratório principal até a porta trancada do outro lado, mudo a abordagem.
— Morgan vai à Casa Branca na segunda-feira de manhã – digo, dando o tom necessário de espanto à minha voz. – Grande reunião. Você acha que algum dia a gente vai ver o interior daquele lugar? – Depois acrescento: – Patrick vai estar lá.
A compreensão ilumina o rosto de Lorenzo, mas ele não diz nada.
Vou dizer o resto a ele assim que estivermos no laboratório de bioquímica.
Ou não.
Ele enfia o crachá na fenda e, desta vez, no lugar de a luz ficar verde, ao invés do ping suave, dos estalos eletrônicos e mecânicos, há um som agudo de campainha e uma luz vermelha piscando. Experimento o meu, com o mesmo resultado.
Estamos trancados do lado de fora.