Vox

Christina Dalcher · Capítulo 74 de 80

Páginas do PDF

Vox

Setenta e Quatro

 

Morgan cai e eu caio junto com ele, os ouvidos gritando uma nota na tessitura de uma coloratura enquanto Jackie tenta me pegar por baixo dos braços antes que eu bata no chão. Ela é forte, ou pelo menos era, mas a gravidade vence o jogo. Atinjo o piso com uma pancada que sinto mas não ouço, e percebo que estou segurando alguma coisa.

Lorenzo está ao meu lado, a respiração quente no meu rosto. Vejo sua boca se movendo enquanto ele abre meus dedos, soltando o aço volumoso.

— Relaxe.

A palavra sai como se ele estivesse falando embaixo d’água, mas dá para distinguir cada som. Ele trava de novo a pistola de Petroski com o polegar, usa a camisa para limpar o cabo e o gatilho e a devolve ao soldado que está inclinado sobre Morgan, olhando o sangue brotar no peito dele. Uma poça escarlate e nauseante mancha o chão de ladrilhos brancos.

— Onde você aprendeu a fazer isso? – pergunto a Lorenzo. A pergunta soa como: On ce prede faz iss?

— Dois anos no exército italiano. Eles ainda têm alistamento. – Depois, mais sério, pergunta: – Está ouvindo?

— Um pouco.

— Você vai ficar com os ouvidos zumbindo um tempo. Talvez uma hora. Mas vai melhorar, acredite.

— Machuquei ele, não foi?

Lorenzo olha por cima do ombro, para onde Morgan está caído.

— É. Pode-se dizer que sim. – As palavras ainda estão abafadas, só que ligeiramente mais inteligíveis.

— Precisamos tirá-lo daí.

Jackie já pensou nisso. Está parada junto à porta com Lin, Isabel e uma braçada de paletós e jalecos – deixados pelos homens quando evacuaram a sala. Ela toca no meu braço e depois sinaliza para o chão, onde Morgan está caído, aponta para si mesma e faz círculos com o dedo. É menos elegante do que a linguagem de sinais estruturada que Lin e Lorenzo usam, mas entendo. Jackie vai cuidar da coisa sangrenta no canto.

Ligeiramente recuperado do choque – fico pensando se ele vai se recuperar de verdade –, Petroski ajuda Lin e Isabel a virar Morgan e enrolá-lo em roupas enquanto Jackie começa a limpar a sala. É uma cena de um filme trash, sangue no chão e uma feia mancha no estilo de um teste de Rorschach na parede atrás de onde Morgan estava mantendo Lorenzo na ponta da agulha. Lorenzo vê minha expressão e explica: – Calibre .45, Gianna. Você abriu um buraco nele do tamanho do estado da Virgínia.

— Matei ele, não foi?

Não é realmente uma pergunta, é mais uma ajuda para processar. Matei. Matei um ser humano.

— É – diz ele, baixinho. – E precisamos ir embora. Todos nós.

Lorenzo e Petroski arrastam o corpo sem vida de Morgan LeBron para a maca e o empurram para fora. Vejo a porta da Sala 1 deslizar se abrindo e depois fechando. Um minuto depois, eles estão de volta ao laboratório principal, sem a maca. Nós seis trabalhamos em silêncio com água sanitária e panos, limpando a sujeira das paredes e do chão, jogando uma série de trapos encharcados de sangue num grosso saco de plástico que Lin pegou num armário de suprimentos. De vez em quando ela e Isabel sinalizam uma para a outra. Não entendo, mas o que elas dizem parece reconfortante, esperançoso.

Quando não resta nada além do cheiro de cloro, saímos e lavamos da nossa pele o que restou de Morgan. Lin desaparece e volta com seis jalecos limpos, que ela distribui. Não preciso de mais do que uma olhada na minha roupa para perceber por que preciso cobri-la. Todos os outros parecem igualmente sujos.

Viro-me para Petroski.

— Você pode tirar a gente daqui, passando pela segurança?

Nenhum dos seis pares de ouvidos escutou o intruso, o gigante que agora está entre nós e a saída.

Ah, merda, penso. Talvez tenha dito em voz alta, talvez não, mas ouço, claro como uma sirene antiaérea.

O homem que entrou em silêncio no laboratório é a última pessoa que quero ver, e a que fiquei vendo durante toda esta semana, sempre quando não espero, como se sua única tarefa fosse nos vigiar.

Poe.

Agora percebo que talvez essa fosse a tarefa dele o tempo todo.

— Deixem tudo e venham comigo – ordena ele.

A mão de Petroski vai até a .45 em sua cintura, e eu sigo o olhar de Lorenzo acompanhando o movimento.

— Não seja estúpido, Dr. Rossi – diz Poe.

Abro a boca para falar. Não sai nada.

Poe olha para o soldado parado entre ele e o resto de nós. Parece que um olho permanece fixado na arma enquanto o outro examina nosso grupinho de rebeldes. Ele avança, tira a .45 do coldre e empurra a trava.

— Melhor eu ficar com isso por enquanto. – Assentindo para Petroski, ele continua: – Primeiro você. Depois o Dr. Rossi. Senhoras, em fila, como na escola. E não digam uma palavra.

Nós obedecemos e Poe segue atrás, pela sala dos chimpanzés. Junto à porta dupla, ele instrui Petroski a abri-la e nós caminhamos a curta distância do laboratório até o elevador de serviço.

Ele já está aberto.

E dentro há um rosto que eu reconheço como uma mãe reconhece o próprio filho.