Vox
Vinte e um
Posso fazer isso, penso.
Posso fazer com menos do que as 37 palavras que me restam. Ensaio na cabeça minha parte da conversa ao telefone: Quero três coisas, Sr. Presidente. Quero o contador da minha filha retirado. Que ela seja dispensada da escola; vou educá-la em casa de sexta a segunda. Quero Lin no projeto em tempo integral, não na reserva.
Não há necessidade de mencionar mais nenhum nome. Afinal, a esta altura Lorenzo já deve ter voltado para a Itália.
Sonia e os meninos estão na sala de recreação que montamos para eles, assistindo a desenhos animados cujos efeitos sonoros chegam fracos à cozinha. Lá está mais fresco, por causa do ar-condicionado de parede, e isso deixa Patrick e eu a sós.
— Anda, amor – diz ele depois de gritar para Steven baixar o volume. – Ligue.
Nunca liguei antes para a Casa Branca. Patrick começou a trabalhar lá depois de os primeiros contadores terem sido distribuídos e tenho poucos motivos para telefonar para ele no serviço, a não ser que meu objetivo seja ficar ofegando de forma sexy. Não. Pelo menos não com Patrick.
Meus dedos encontram os números e apertam cada um, pairando acima do último. Quase erro e digito um cinco em vez de um quatro – para se ter uma ideia de como minhas mãos estão tremendo. Uma voz atende, não de uma secretária ou algum outro intermediário. É o presidente, e falo minhas 36 palavras.
— Sinto muito, Dra. McClellan, mas não posso fazer isso.
Só que não são essas as palavras que ele diz em sua voz rouca, uma voz que às vezes acho pouco natural em sua aspereza porque suspeito que, no fundo, o presidente seja um homem fraco e inseguro. Suspeito que todos sejam.
O que ele fala, depois de uma pequena pausa, é: – Muito bem, Dra. McClellan.
E desliga.
— Uau – diz Patrick.
Ele estava perto de mim, bafejando cerveja nas minhas narinas enquanto escutava. Parece chocado.
Um instante depois, o telefone toca. Patrick atende com um “Alô!” animado, e suas respostas são monossilábicas.
— Sim. Ok. Uhum.
Não faço ideia de qual é o assunto.
— Thomas vai chegar em meia hora – explica ele. – Para tirar as… os…
Não ouse chamar de pulseiras.
— Contadores – conclui Patrick.
Assinto e pego dois pacotes de macarrão para o jantar. Amanhã vai ser bife, já decidi. Uma montanha de bife. Não comemos muita carne ultimamente.
Enquanto estou espremendo tomates pelados numa panela para fazer o molho, penso em Sonia, que em menos de trinta minutos estará livre daquela coleira metafórica, livre para cantar, tagarelar e responder a perguntas que implicam mais do que uma confirmação ou uma negativa com a cabeça. O que não sei é como ela vai receber essa liberdade.
Na faculdade, antes de eu mudar de marcha e mergulhar no buraco negro da neurociência e do processamento linguístico, estudei psicologia. Comportamental, infantil, anormal, a coisa toda. Agora, olhando essa panela com tomate esmagado e alho, estou pensando que fiz um serviço fantástico na parte comportamental, condicionando Sonia com subornos de biscoitos e marshmallows para que palavras não fossem ditas. Alguém deveria cassar minha licença de mãe.
Tento me convencer de que não é minha culpa. Eu não votei no Myers.
Na verdade, eu não fui votar.
E aqui está a voz de Jackie de novo, dizendo que sou uma merda complacente.
— Você precisa votar, Jean – disse ela, jogando a pilha de panfletos de campanha que estivera distribuindo no campus enquanto eu me preparava para o que sabia que seria uma prova oral monstruosa. – Você precisa.
— As únicas coisas que preciso fazer é pagar impostos e morrer – respondi, sem esconder o desprezo na voz.
Aquele semestre foi o começo do fim da nossa amizade. Eu tinha começado a namorar Patrick e preferia nossas discussões noturnas sobre processos cognitivos aos discursos de Jackie sobre qualquer coisa nova que ela havia encontrado para protestar. Patrick era seguro e calmo, e me deixava me concentrar no meu trabalho enquanto ele estudava para uma prova de medicina depois da outra.
E é claro que Jackie o odiava.
— Ele é um babaca, Jean. Um babaca intelectual.
— Ele é legal.
— Aposto que ele cita Grey’s Anatomy enquanto está comendo você.
Pus minhas anotações de lado.
— O livro ou o seriado?
Daquela vez foi Jackie quem fez cara de desprezo.
— Ele não fala de política, Jacko. – Era o apelido que eu usava para ela. – É só isso que eu escuto na porra desta cidade.
— Um dia, querida, você vai mudar de ideia. – Ela jogou um livro de bolso no nosso sofá de brechó, no qual eu estava esparramada. – Leia isso. Todo mundo está falando nele. Todo mundo.
Peguei o livro.
— É um romance. Você sabe que eu não leio romances.
Era verdade; com quinhentas páginas de artigos científicos por semana eu não tinha tempo para ficção.
— Apenas leia a quarta capa.
Eu li.
— Isso nunca vai acontecer. Jamais. As mulheres não aceitariam.
— Agora é fácil falar.
Jackie estava usando sua roupa de sempre: calça jeans de cintura baixa; uma camiseta cortada que não cobria a barriga, que Jackie não se incomodava em esconder, mesmo com a ligeira pancinha; sandálias feias mas confortáveis e três argolas na orelha direita. Hoje seu cabelo curto e espetado tinha algumas mechas verdes. Amanhã poderiam ser azuis. Ou pretas. Ou vermelho-cereja. Com Jackie, nunca dava para saber.
Ela não era feia, mas seu queixo quadrado, nariz afilado e olhos parecidos com gotas de petróleo não faziam os caras baterem à nossa porta implorando sua companhia. Jackie não parecia se importar, e eu descobri isso numa noite de setembro depois de ela me arrastar para uma festa. Bom, estava mais para um comercial da Federação de Paternidade Planejada com salgadinhos e bebida do que uma festa, e Jackie devorava tudo como se não houvesse amanhã. Não tínhamos dinheiro sobrando para comprar bebida e lanches, se bem que Jackie sempre conseguia arranjar alguns trocados para os cigarros.
Meu Deus, ela estava bêbada. Acabei tendo de arrastá-la pelas ruas de paralelepípedos até o apartamento, tarefa nada simples quando a pessoa que você está carregando tenta fumar um cigarro depois do outro.
— Eu te amo, Jeanie – disse ela quando finalmente a fiz passar pela porta.
— Também te amo, Jacko – respondi automaticamente. – Quer uma xícara de chá ou alguma outra coisa?
Nós não tínhamos chá, por isso abri uma lata de Coca-Cola e tentei fazer com que ela engolisse algumas aspirinas.
— Quero um beijo – pediu depois de cair na cama, me puxando junto com ela. Jackie cheirava a patchuli e vinho tinto. – Venha cá, Jeanie. Me beija.
O que Jackie queria não era um selinho; era um beijo de língua com tudo que tinha direito.
No dia seguinte, tomando café, ela fez pouco-caso.
— Desculpe se fiquei meio maluca ontem à noite, querida.
Jamais contei isso a Patrick.
— Está pensando em quê, amor? – pergunta Patrick, me dando um susto e fazendo um tomate pelado voar contra a parede.
Em que estou pensando? Talvez no que aconteceu com Jackie Juarez, se decidiu se converter ou se acabou num dos campos junto com o pessoal LGBTQIA. Aposto no campo.
Foi o reverendo Carl que teve a ideia, um grande sucesso com a Maioria Pura até que todo mundo hesitou diante da ideia de colocar gays e lésbicas em celas separadas por sexo. Argumentaram que seria contraproducente; pense no que eles aprontariam. Assim, Carl Corbin modificou seu plano e decidiu colocar uma mulher e um homem em cada cela.
— Logo eles vão captar a ideia – garantiu ele.
Claro, os campos são apenas temporários. “Até tudo voltar aos eixos”, nas palavras do reverendo Carl.
Os campos na verdade são prisões. Ou eram prisões antes que as novas ordens executivas sobre crimes foram assinadas. Não existe mais muita necessidade de prisões, o que não significa que não exista crime. Existe, mas os criminosos não precisam ser trancados em lugar nenhum, pelo menos por muito tempo.
Respondo ao Patrick depois de limpar os restos de tomate nos ladrilhos: – Nada.
Pulsação. Por hoje é só, pessoal. Os ponteiros do relógio decidiram se mover a passo de lesma desde que nosso telefone tocou.
Ele me dá um beijo no rosto.
— Mais alguns minutos e tudo vai voltar ao normal.
Confirmo. Claro que vai. Até eu encontrar uma cura.