Vox

Christina Dalcher · Capítulo 62 de 80

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Vox

Sessenta e Dois

 

Sinto vontade de comemorar. Ou dançar. Ou dar cambalhotas no corredor vazio do laboratório. Quero champanhe, chocolate e fogos de artifício.

Sinto-me, só um pouquinho, como um deus.

E sinto que minha vida pode ter terminado.

Morgan nos deixa depois de uma rápida conversa pelo telefone, a maior parte da qual faz referências a “minha equipe”, “meu projeto” e “meu trabalho”. Ele ainda está dando risinhos quando passa por nós e sai pela porta principal do laboratório, pedindo para o ordenança se apressar e levar a Sra. Ray de volta ao asilo. Morgan, claro, tem mais trabalho a fazer.

— Bom… – digo, virando-me para Lorenzo. – Acho que é isso.

— Não necessariamente.

Seu olhar vai até o armário refrigerado onde ainda estão seis frascos, todos rotulados com o X vermelho da morte.

— De jeito nenhum – sussurro.

— É o único jeito.

As palavras que falei com Patrick ontem à noite brincam na minha cabeça, um disco arranhado repetindo: Você mataria?

— Nunca vamos conseguir tirá-los daqui.

Ele abre a porta da geladeira e puxa a bandeja com as neuroproteínas mortais, o veneno que, mesmo numa quantidade ínfima, matou uma dúzia de ratos.

— Só precisamos de um, Giana.

Consulto o relógio na parede do laboratório. Os dois ponteiros apontam para cima. Quando cheguei de manhã, o sargento Petroski estava de serviço no posto de segurança. Ele bocejou, disse olá e bocejou de novo. Se ficou acordado a noite toda, o único aliado que tenho neste prédio deve estar em casa, dormindo para descansar do turno noturno.

Certo. Plano B.

Só que eu não tenho um plano B.

Ou talvez tenha.

Há um lavabo do tamanho de um armário perto do laboratório principal, não mais do que um quadrado de um metro e meio por um metro e meio de ladrilho com um vaso sanitário, uma pia e um daqueles secadores de mão que rugem como motores a jato e fazem a pele se esticar num efeito especial como de ficção científica. Tiro um frasco da bandeja e o enfio na parte da frente do sutiã, depois pego uma luva cirúrgica – daquele tipo sem pó – na caixa sobre a bancada.

— Já volto – digo, soprando ar na luva.

Depois de pensar no que estou para fazer, pego mais duas e vou na direção do lavabo.

— Seis frascos, certo? – pergunto, e ouço um armário se abrindo atrás de mim, depois a água correndo na pia do laboratório.

Os soldados nunca nos revistam muito meticulosamente quando entramos no prédio de manhã ou quando saímos à noite. Afinal de contas, são homens. Talvez, depois de um ano sem ter que se preocupar com mulheres faladeiras, astúcias e poder femininos, talvez depois de tanto tempo em seu mundo de homens, esqueceram nossos segredos, nossos meios de esconder pequenos objetos cilíndricos. Talvez, depois de todo esse tempo com nosso silêncio, até suas suspeitas tenham se reduzido a nada.

Verifico a tampa do frasco cinco vezes antes de considerar que é seguro, depois coloco o tubo no dedo de látex de uma luva, dou um nó antes de cortar o excedente e repito o processo com as outras duas luvas. O resultado é um chumaço de látex azul, não exatamente cilíndrico e pequeno, mas provavelmente à prova de vazamento. Quatro bebês saíram de dentro de mim. Posso suportar um pequeno desconforto durante a próxima hora.

Depois que me arrumei e sequei as mãos, encontro Lorenzo no laboratório. Ele me dá um olhar de alerta e Poe vem na minha direção. Por algum motivo, o sujeito parece ainda maior quando estou de pé.

— Algum problema, Dra. McClellan? – pergunta Poe.

— Só se você reduzir minha cota de idas diárias ao banheiro.

Poe não tem resposta para isso, mas, depois de verificar cada sala do laboratório e se deter para olhar Tambor em sua gaiola de acrílico, ele se vira para nós.

— Sigam-me.

— Nós não terminamos – retruco. – Terminamos, Lorenzo?

O olhar que lanço a ele é duro e, inconfundivelmente, uma pergunta distinta.

— Terminamos.

Poe xereta durante mais uns cinco minutos e eu prendo o fôlego quando ele abre a geladeira e passa mais tempo do que acho necessário contando os frascos. Depois nos leva pela porta do laboratório, pelo corredor, e aperta o botão de subida do elevador.

— Crachás, por favor. – Ele estende a mão carnuda.

— É isso? – pergunto, passando o cordão pela cabeça.

Ele se prende no cabelo e Poe estende a mão para soltá-lo. Sua mão roça minha têmpora e provoca um arrepio. Ele é gelado.

Penso de novo em Del, em Sharon e nas três meninas. Por algum motivo estranho imagino quem estará alimentando os animais da fazenda dos Ray.

Uma vez, quando era mais criança do que homem, Steven me perguntou se os animais tinham linguagem.

— Não – respondi.

— Eles pensam?

— Não.

Ele tinha lido um livro sobre abelhas na escola e me mostrou uma tarde, na cozinha. Era na época em que Steven, e não Sonia, queria chocolate quente todo dia às quatro.

— Aqui diz que as abelhas podem ir encontrar pólen, voltar para a colmeia e contar às outras onde está o pólen. – Ele leu parte do capítulo em voz alta e concluiu: – A dança da abelha é como uma linguagem. É isso aí.

Olhei o livro, examinando a biografia de um dos autores. Era uma criadora de abelhas com uma longa lista de credenciais, nenhuma das quais tinha muito a ver com linguística.

— É isso aí, nada – retruquei. – Sim, as abelhas dançam. Elas fazem uma dancinha tipo “Ei, pessoal! Aqui está o pólen bom!”. Mas é só isso, garoto. Amarre as asas delas e faça com que andem de volta até a colmeia e elas vão dar orientações até a pedra mais próxima. O que as abelhas têm é comunicação, e somente uma forma especializada de comunicação. Isso não é linguagem. Só os humanos têm linguagem.

— E a gorila Koko?

O livro dele era escrito por uma equipe de especialistas em animais.

— Koko é fantástica e sabe algumas centenas de sinais, mas, ainda assim, não faz o que os seus irmãos conseguem fazer.

Na época, Sam e Leo estavam com quatro anos. Koko tinha 45.

Steven pegou seu livro e foi para o quarto, carrancudo. Outra bolha estourada, pensei. É agradável imaginar que nossos amigos de duas e quatro patas têm um mecanismo linguístico próprio. Talvez seja por isso que as pessoas ficam procurando provas. Mas não é verdade.

Aqui, no elevador, eu me pego desejando que fosse.

— Pronto – diz Poe quando chegamos ao primeiro andar. – Podem pegar seus laptops. Eles foram formatados.

Lorenzo e eu reavemos nossas bolsas. Ele tem permissão de levar a cafeteira de seu escritório, porém nada mais, antes que Poe feche a porta e nos conduza até o posto de segurança. Tudo está igual: dois soldados, uma máquina de raios X para nossas bolsas e nenhum sorriso agora que o sargento Petroski está fora de serviço. Somos apalpados um por um, nossos bolsos, revistados, e o soldado que trabalha em mim passa um desagradável tempo extra na minha virilha e no decote. Pela expressão de Lorenzo, ele está recebendo o mesmo tratamento lá embaixo.

Agora todas as possibilidades passam pela minha mente. Busca total. Mãos anônimas me apalpando – só estamos cumprindo ordens, senhora –, enfiando-se em lugares que não lhes dizem respeito, encontrando o frasco embrulhado em látex. O que é isso, Jean?, perguntará Morgan. Eu me vejo em mil telas de televisão, uma apresentação de surpresa interrompendo um noticiário, um documentário sobre tigres-de-bengala ou um desenho animado. Eu ao lado do reverendo Carl enquanto ele lê outro capítulo e versículo, enquanto uma câmera espoca me ofuscando, enquanto meu couro cabeludo arde por causa de um trabalho malfeito com a lâmina de barbear. Vejo o horror nos olhos de Patrick sendo levado de ônibus para Fort Meade e obrigado a ficar em posição de sentido enquanto meu corpo se mistura com os restos de Jimbo, Del, Sharon e Deus sabe quem mais. Talvez Steven.

Em vez disso, somos levados à porta.

— A porta da rua é a serventia da casa – digo quando estamos do lado de fora, à luz do fim da tarde.

Poe nos observa ir na direção dos carros. Não sei se ele ouve o que eu falo, mas grita para nós: – Vão embora! E não voltem!

Ele desaparece no prédio com as mãos enfiadas nos bolsos. Acho que o vejo suspirar.