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Christina Dalcher · Capítulo 20 de 80

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Vinte

 

Eu estava certa: é uma competição.

A carta que Patrick abre e lê para mim anuncia com grande prazer o início de uma competição mensal para todas as alunas matriculadas na EMP 523 – EMP significa Escola para Meninas Puras. Obviamente, os meninos estudam na Escola para Meninos Puros. Steven frequenta a escola do ensino médio, Sam e Leo frequentam outra, com turmas do quinto ao oitavo ano. Eles não dividem as meninas desse modo, possivelmente um método para reforçar outra declaração do manifesto – que as mulheres mais velhas ensinem e treinem as mais jovens – ou porque não querem dobrar o número de máquinas de costura e equipamentos de jardinagem.

— Primeiro estão fazendo disputas diárias – diz Patrick, acomodando-se na banqueta do outro lado da ilha da cozinha, depois de pegar uma cerveja na geladeira. É cedo para ele, mas não digo nada. – Sorvete para a menina de cada turma que tenha o menor… – ele toma um gole bem longo direto da garrafa – … que tenha o menor número no contador.

Então era exatamente como eu pensava.

Ele continua:

— No fim do mês eles somam todos os números e…

— Palavras – interrompo.

A pulseira preta no meu pulso esquerdo pulsa uma vez.

— Certo. Há um prêmio que eles estão chamando de “presente adequado à idade”. Uma boneca para as meninas menores, jogos para as das turmas do fundamental e maquiagem para as maiores de dezesseis anos.

Fantástico. Trocando vozes por prêmios de merda.

O pior é que Patrick está sorrindo.

— Chega – diz ele. – Não importa.

— Não importa é o cacete.

A geringonça em volta do meu pulso solta cinco pings, e eu olho o número subir de 45 para 50. Em seguida, emite um som como de um sapo doente e o 50 vira 60. Certo, agora “cacete” está fora do meu vocabulário. Gostaria de saber por que Patrick está sorrindo para mim.

Como se lesse minha mente, ele sai da cozinha, pega sua pasta no corredor e a coloca na bancada entre nós.

— Presente do presidente, amor – diz, tirando um envelope da pasta de couro.

No canto superior direito está o timbre presidencial. No canto esquerdo, onde normalmente ficaria um selo, há um P gravado em prata, o modelo para o novo broche do Steven.

E por falar no diabo: os garotos chegaram.

Leo e Sam entram na cozinha primeiro, me dão um beijo e vão direto para a gaveta de biscoitos. Steven, mais sereno do que já costuma ser, se dirige à geladeira depois de um curto “Oi, pai. Oi, mãe”.

Ele procura o leite, que, óbvio, me esqueci de comprar.

— Ótimo – diz Steve, agitando as últimas gotas de leite que há na caixa. Ele parece surpreso quando não respondo, depois vê o último acréscimo ao meu figurino. – Você ganhou o modelo novo! Incrível. Julia também tem um, só que o dela é roxo com estrelas prateadas. Ganhou hoje. Ela me mostrou quando descemos do ônibus.

Não odeio meu filho. Não odeio meu filho. Não odeio meu filho.

Só que nesse momento odeio, um pouquinho.

— Leia a carta, Jean – diz Patrick.

O presidente Myers apareceu na televisão de novo hoje. Parece que ele está sempre na televisão, sempre trombeteando um novo plano para revirar o país, dizendo constantemente como estamos melhor. A economia está crescendo (mas não na nossa casa, como me lembra o ar-condicionado quebrado) e a taxa de desemprego caiu (desde que você não conte os setenta milhões de mulheres que perderam o trabalho). Tudo está fantástico.

Tudo não estava tão bem hoje enquanto ele enfrentava as perguntas da imprensa.

— Vamos encontrar alguém – disse ele. – Não importa o que for necessário, vamos encontrar alguém para curar meu irmão.

Até parece, penso. O mesmo sorriso nos lábios de Anna Myers me diz que ela acha o mesmo. Bom para você, irmã.

Mesmo se eu tivesse aceitado, não haveria garantias de sucesso. A afasia de Wernicke é uma condição complicada. Talvez houvesse mais chances se Lin Kwan fosse membro da equipe, e não só a substituta que o reverendo Carl mencionou. Melhor ainda, Lin e Lorenzo.

Mas não quero pensar em Lorenzo. Não gosto de pensar nele quando Patrick está por perto.

— Vai abrir? – pergunta Patrick.

Enfio uma unha embaixo da aba do envelope. Dentro há uma folha de papel creme, de qualidade, dobrada em três. Está endereçada a mim, Dra. Jean McClellan. Voltei a ser “Dra.” por enquanto.

A carta é composta por uma única frase.

— E então? – Patrick faz a pergunta, mas seus olhos dizem que ele já sabe o que o presidente tem a dizer.

— Espere aí.

Ele pega outra cerveja na geladeira, mas não bebe com o mesmo clima comemorativo da primeira garrafa. Esta é medicinal, anestesia líquida para ajudá-lo a esperar enquanto eu saio da cozinha com minha decisão ainda não verbalizada. Talvez ele esperasse que eu desse cambalhotas de alegria. Não sei.

De qualquer modo, aqui está quente demais para pensar. O quintal dos fundos, embaixo da magnólia da Sra. Ray, é melhor.

Por favor, me ligue dizendo seu preço, diz o presidente. É bem prazeroso ver que o sacana está cedendo.

Meu preço. Meu preço é voltar o relógio, mas isso não é viável. Meu preço é erradicar o Movimento Puro de uma vez só, como se faz com ervas daninhas. Meu preço é ver o reverendo Carl Corbin e seu rebanho enforcados, estraçalhados por cães-selvagens ou queimados até virar cinzas no inferno.

A porta dos fundos se abre com um rangido e se fecha com uma pancada, e espero ver Patrick vindo até mim, mas não é ele. É Sonia. Ela está segurando um pedaço de cartolina rosa, a mesma cor de seus lábios. Quando chega perto, ela o estende.

Para uma menina de seis anos, ela tem algum talento, e esse desenho é um dos melhores, de certa forma. As seis figuras realmente se parecem conosco – Patrick, Steven, os gêmeos, eu e Sonia. Estamos todos de pé no nosso quintal, de mãos dadas embaixo de uma árvore florida com estrelas brancas. Ela fez os gêmeos com roupas iguais e desenhou algo que se parece mais com uma mala do que com uma pasta na mão livre de Patrick. Steven está com seu broche novo; meu cabelo aparece preso num rabo de cavalo. Em volta do meu pulso e do de Sonia há braceletes: vermelho para ela e preto para mim. Todos estamos sorrindo sob um sol que ela enfeitou com corações laranja.

— Lindo – digo, pegando o desenho.

Mas não acho lindo. É a coisa mais feia que já vi na vida.

Em vez de estar ao lado de Patrick, ou mesmo na ponta da fila da família, os dois ladeando nossos filhos, sou a quinta. Depois do meu marido, de Steven, depois dos gêmeos de onze anos. E Sonia me fez menor do que todo mundo, a não ser ela. Consigo dar um sorriso forçado e pego-a no colo, pressionando sua cabeça contra mim de modo que ela não veja as lágrimas que estão brotando, que não vou conseguir conter.

Penso em Jackie e nas últimas palavras que ela me disse no nosso apartamento vagabundo em Georgetown, nas acusações e censuras. Jackie estava certa: eu vivia numa bolha. Eu mesma a inflei, um sopro de cada vez.

E cá estamos nós. Eu, minha filha e os contadores que nos mantêm na linha. Imagino o que Jackie diria sobre isso. Provavelmente algo do tipo: Muito bem, Jean. Você abasteceu o carro e o dirigiu direto para o inferno. Agora curta o fogo.

É. É o que ela diria. E estaria certa.

Enxugo as lágrimas com a manga da blusa e tento suavizar a expressão antes de virar a cabecinha de Sonia para mim e lhe dar um beijo na bochecha. Então verifico meu contador de palavras.

Até agora 63. Resta o suficiente para o que tenho a dizer ao presidente Myers.