Vox

Christina Dalcher · Capítulo 71 de 80

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Setenta e um

 

 

Não sei quantas vezes falei “Eu poderia matá-lo” em meus quarenta e poucos anos. Talvez alguns milhares de vezes.

Eu poderia matá-lo por ter deixado as roupas na máquina de lavar. Poderia matá-lo por não ter ligado para dizer que ia se atrasar. Poderia matá-lo por ter quebrado o vaso maiólica de mamãe. Poderia, poderia, poderia. Matar, matar, matar. Claro que nunca falei a sério. As palavras são tão vazias semanticamente quanto “morro de amores por você”, “estou com tanta fome que comeria um cavalo” e “aposto minha vida que os Sox vão se ferrar no campeonato deste ano”. Ninguém morre de amor fora de um romance de uma das Brontë, não come um cavalo inteiro nem arrisca a vida por causa de um jogo de beisebol. Ninguém. Mas a gente fala esse tipo de lixo o tempo todo.

O fato é que não sei se eu poderia ter matado o chimpanzé número 412 nem enquanto ele estava pirando de vez.

Sei que não vou levar uma furadeira craniana para perto dos dois hominídeos adormecidos nessas macas.

E não preciso.

— Chame Petroski – digo a Lorenzo.

Ele me encara.

— Não. Não vou pedir para ele fazer isso. Preciso das chaves da Sala 1.

De novo, ele apenas me encara.

— Para tirar Lin. E as outras. Explique ao garoto que vou dizer que nós o dopamos e roubamos as chaves, se for preciso. Mas acho que ele vai topar.

Explico sobre a filha.

— Eu toparia – diz Lorenzo. – Se a filha fosse minha. – Seu olhar desce pelo meu corpo, se detendo no ligeiro volume na altura da cintura. – Eu não teria ido embora sem você, Gianna. Nunca.

— Verdade?

— Verdade. – Ele faz um rápido giro pela sala, procurando qualquer coisa que possa ser uma câmera, e me beija. – Nunca.

— Agora você sabe como me sinto com relação a Sonia. E aos meninos.

Mas principalmente Sonia, penso. Nada é tão ruim quanto a ideia de deixá-la para trás enquanto tudo vai para o inferno. Nada, a não ser trazer outra menina para o inferno. Afasto o pensamento pelas próximas doze horas.

— Vá, convença Petroski a promover a fuga da prisão.

Cinco minutos depois, Lorenzo volta com Lin. Quando vê as duas macas, ela se vira na minha direção, boquiaberta e de olhos arregalados. Peço que Lorenzo explique enquanto vou ver Jackie e Isabel. Elas não precisam estar aqui dentro para o que vamos fazer. Bom, eu também não quero estar aqui.

Lorenzo me informa que não tenho opção. Lin faz um sinal de polegar para cima com a mão direita e bate na mão esquerda.

— Ela precisa de você para ajudar – diz ele.

Olho a pulseira de Lin.

— Como ela conseguiu dizer isso?

Lin revira os olhos, balança as duas mãos na frente do peito, depois junta o indicador e o dedo médio de cada mão e os aponta para mim, sacudindo-os.

— Ela está dizendo para não se preocupar e andar logo – diz Lorenzo. – Eu traduzo.

— Vocês dois sabem a linguagem de sinais? – pergunto. – Por quê?

Ele dá de ombros.

— Você fala um pouco de vietnamita, não é?

— Falo.

— Por quê?

— Certo. Entendi o argumento.

Por meio de Lorenzo, recebo cada uma das instruções de Lin enquanto nos lavamos até os cotovelos numa pia do laboratório de bioquímica. É como Cirurgia Cerebral Para Leigos. Monitore os sinais vitais o tempo todo. Entregue os instrumentos com o cabo à frente. Não bloqueie a droga da minha luz. E, bem ao estilo de Lin, Por favor, não desmaie.

As três primeiras coisas eu consigo fazer. Quanto à quarta, não sei.

De volta à sala branca, Lin demora dois minutos para retrair a pele na cabeça da chimpanzé e mais trinta segundos para abrir um furo do tamanho de uma moeda de dez centavos. Desliga a furadeira, passa-a para mim com um pedaço de crânio de chimpanzé e sinaliza para Lorenzo.

— Ela disse para pensar nisso como um tampão de ralo de pia – diz ele, repassando essa pérola de conselho.

— Para você é fácil, Lin. Sempre fui mais interessada na metade linguística da neurolinguística.

Ela ri, mas suas mãos estão ocupadas demais para conversar enquanto apalpa o tecido mole dentro do crânio do chimpanzé. É uma coisa de revirar o estômago, fascinante e milagrosa ao mesmo tempo. Como é que pessoas como o reverendo Carl e Morgan LeBron querem pegar essa mulher e descartá-la? Como alguém pode pensar que isso faz sentido?

— Certo. Lá vamos nós.

Lorenzo enche duas seringas com um líquido transparente tirado de um frasco na mesa cirúrgica. Parece inofensivo como água. Põe um na mesa entre as macas e estende o outro para Lin.

Fito suas mãos calmas enquanto ela insere a ponta fina da agulha alguns milímetros no tecido cortical do chimpanzé e aperta o êmbolo, observando as leituras. Assente, aparentemente satisfeita por não ter matado a cobaia, e injeta o resto do soro antes de recolocar o pedaço redondo de crânio – tampão, Jean, é só um tampão – e suturar. Todo o processo demorou cinco minutos.

Ainda bem que foi rápido, pois o chimpanzé e Morgan começaram a se mexer.