Vox
Dois
No meu quarto, como em todas as noites, me enrolo numa colcha de palavras invisíveis, fingindo que leio, deixando os olhos dançarem sobre páginas imaginadas de Shakespeare. Se estiver me sentindo extravagante, meu texto preferido pode ser Dante em italiano antigo. Hoje me sinto presa a um léxico esquecido. Imagino como as mulheres italianas iriam se virar se os novos caminhos do nosso país se tornassem internacionais.
Talvez elas passassem a falar mais com as mãos.
Mas a chance de nossa doença se expandir para outros países é pequena. Antes que a televisão se tornasse um monopólio federalizado, antes que os contadores fossem postos nos nossos pulsos, eu assistia aos noticiários: Al Jazeera, BBC, três canais da rede italiana RAI e algumas outras emissoras com programas de entrevistas. Patrick, Steven e eu os víamos depois de as crianças irem para a cama.
— A gente precisa mesmo ver isso? – resmungou Steven.
Ele estava relaxado na poltrona de sempre, uma das mãos numa tigela de pipoca, a outra digitando no celular.
Aumentei o volume.
— Não precisamos. Mas podemos.
Quem sabia por quanto tempo isso ainda seria verdade? Patrick já estava falando sobre como os privilégios da TV a cabo estavam na corda bamba.
— Nem todo mundo tem isso, Steven.
O que não falei foi: Aproveite enquanto pode. Só que não havia muita coisa para aproveitar. Todos os programas eram iguais. Um depois do outro, eles riam de nós. A Al Jazeera nos chamava de “Novo Extremismo”. Eu poderia ter rido se não soubesse que era verdade. Os comentaristas políticos ingleses balançavam a cabeça, como se dissessem: Ah, esses ianques malucos... O que inventaram agora? Os especialistas italianos, apresentados por mulheres atraentes com pouca roupa e muita maquiagem, gritavam, apontavam e riam.
Riam de nós. Diziam que precisávamos relaxar para não acabar cobrindo o cabelo com lenços e usando saias compridas demais. Num canal italiano, um esquete lascivo mostrava dois homens vestidos como puritanos praticando um ato de sodomia. Era realmente assim que eles viam os Estados Unidos?
Não sei. Não voltei à Itália desde que Sonia nasceu, e agora não posso mais ir. Nossos passaportes foram confiscados antes que fizessem o mesmo com nossas palavras. Ou melhor, alguns dos nossos passaportes foram confiscados.
Descobri isso em uma ocasião trivial. Em dezembro, percebi que os passaportes de Steven e dos gêmeos tinham vencido e entrei na internet para preencher três pedidos de renovação. Sonia, que nunca tivera nenhum documento além da certidão de nascimento e uma carteira de vacinação, precisava de um formulário diferente.
A renovação dos garotos foi fácil, como a de Patrick e a minha sempre tinham sido. Quando cliquei no link para solicitar um passaporte novo, ele me levou a uma página que eu nunca tinha visto, um questionário com apenas uma linha: o candidato é do sexo masculino ou feminino?
Olhei para Sonia, que brincava com blocos coloridos no tapete do meu escritório improvisado em casa, e marquei a caixa onde estava escrito feminino.
— Vermelho! – gritou ela, olhando para a tela.
— É, querida. Vermelho. Muito bem. Ou podemos chamar de...?
— Escarlate!
— Melhor ainda.
Sem ser instigada, ela continuou: – Carmim! Cereja!
— Isso mesmo, querida. Continue assim – falei, afagando a cabeça dela e jogando outro conjunto de blocos no tapete. – Tente com os azuis agora.
Virando-me de volta para o computador, percebi que Sonia estava certa: a tela estava vermelha. Vermelha como sangue.
Por favor, entre em contato conosco pelo número abaixo. Ou então mande um e-mail para o endereço solicitacoes@estado.gov. Obrigado!
Tentei ligar para o número dezenas de vezes antes de partir para o e-mail. Muitos dias se passaram antes de eu receber uma resposta. Ou uma espécie de resposta. Uma semana e meia depois, a mensagem na minha caixa de entrada me instruía a visitar o centro de emissão de passaportes local.
— Posso ajudar, senhora? – perguntou o funcionário quando cheguei com a certidão de nascimento de Sonia.
— Pode, se você trabalha com solicitações de passaporte.
Empurrei a papelada pela abertura no guichê de acrílico.
O funcionário, que parecia ter no máximo dezenove anos, pegou os documentos e me mandou esperar.
— Vou precisar de seu passaporte também. Para fazer uma cópia.
Ele explicou que o passaporte de Sonia demoraria algumas semanas para ficar pronto. O que não disse foi que o meu tinha sido invalidado.
Descobri isso muito tempo depois. E minha filha nunca recebeu o dela.
No início as pessoas ainda conseguiam deixar o país. Algumas atravessaram a fronteira para o Canadá; outras partiram em barcos para Cuba, México, as ilhas do Caribe. Não demorou muito até que as autoridades estabelecessem pontos de inspeção. O muro na fronteira do sul da Califórnia, do Arizona, do Novo México e do Texas, que os separava do México, já tinha sido construído, de modo que a emigração foi interrompida relativamente rápido.
— Não podemos permitir que nossos cidadãos, nossas famílias, nossas mães e nossos pais fujam – disse o presidente em um dos seus primeiros discursos.
Ainda acho que poderíamos ter conseguido se fôssemos apenas Patrick e eu. Mas com quatro crianças era impossível – ainda mais que uma delas não sabia que não podia ficar pulando no banco de trás do carro e gritando “Canadá!” para os guardas da fronteira.
Portanto, não estou me sentindo extravagante hoje, sobretudo depois de me lembrar da facilidade com que nos tornaram prisioneiros em nosso próprio país, depois de Patrick me abraçar e dizer para não ficar pensando em como as coisas eram antes.
Antes, permanecíamos acordados até tarde conversando. Nos fins de semana enrolávamos na cama de manhã, adiando as tarefas e lendo o jornal de domingo. Organizávamos coquetéis, festas e churrascos aos domingos quando o tempo estava bom. Jogávamos espadas e bridge; mais tarde, quando os meninos tinham idade para diferenciar um seis de um cinco, war e go fish.
Eu tinha amigas. “Festa da fofoca” era como Patrick chamava minhas noites com elas, mas sei que não estava sendo grosseiro. Era só uma daquelas coisas que os homens falam. Pelo menos é o que eu dizia para me convencer.
Gostávamos de organizar clubes de leitura e conversar em cafés; discutíamos política tomando vinho em bares, mais tarde em porões – nossa versão de Lendo Lolita em Teerã. Patrick nunca pareceu se importar com minhas saídas semanais, só fazia piada às vezes, até isso perder a graça. Nas palavras dele, éramos as vozes que não podiam ser caladas.
Bom... Dá para ver como Patrick não se engana nunca.