Vox

Christina Dalcher · Capítulo 38 de 80

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Trinta e Oito

 

A residência de Sharon Ray é mais um celeiro do que uma casa de verdade, uma velha estrutura de madeira que parece ter sido espancada com um porrete gigantesco.

Sigo dois sulcos de terra que partem da estrada, passo por uma horta do tamanho de uma pequena fazenda e estaciono atrás de um jipe com a placa personalizada. As letras formam a palavra IMPURO.

Sonia solta o cinto de segurança e pula na direção de duas cabras.

— Opa, garotinha, vamos com calma. – Nos 45 minutos que levamos para chegar, expliquei que as meninas com quem ela vai passar o dia talvez não falem muito. – Como na escola. Lembre-se disso.

Mas, na verdade, numa sexta-feira as filhas do Ray devem estar na escola.

Uma porta de tela, torta nas dobradiças, se abre e Sharon sai numa varanda que não é totalmente paralela ao chão. Usa um macacão esgarçado e uma camisa de algodão xadrez. Um lenço azul amarrado na cabeça com o nó virado para cima mantém o cabelo preso, mas não o cobre. Músculos definidos se contraem nos antebraços, onde as mangas da camisa estão enroladas, e numa das mãos ela segura uma chave inglesa. Na outra, um balde de massa corrida.

Sharon Ray poderia ser uma “Rosie the Riveter”, ícone do feminismo americano, se Rosie tivesse quarenta e poucos anos, fosse negra e usasse um contador de palavras prateado no pulso.

Ela sorri da varanda, põe o balde e a chave inglesa no chão e vem até onde Sonia e eu estamos. Em seguida, inclina a cabeça ligeiramente para a direita, na direção de uma construção externa que parece em melhor estado do que a casa da família. Vamos em silêncio até o celeiro. Sonia está com os olhos arregalados para as cabras, as galinhas e as três alpacas que andam soltas pela propriedade.

— O que é aquilo? – pergunta Sonia, apontando para um daqueles bichos peludos.

— Shh.

Sharon sorri de novo, mas não diz nada até chegarmos ao celeiro. Ela desliza uma trave de madeira grossa como a coxa de um homem e empurra a porta. O odor perfumado de feno e não tão cheiroso de esterco me acerta como um tapa.

— Nada como um pouco de merda de cavalo para acordar a gente, não é? – diz Sharon. – Desculpe. Cocô. Às vezes eu esqueço.

— Tudo bem. – Nunca fui de medir palavras perto dos meus filhos.

— Então você é Sonia? – Ela se curva e pega a mão esquerda da minha filha, passando um polegar por onde o contador de pulso de Sonia deveria estar. – Sou a Sra. Sharon, e acho que você e eu vamos ser amigas. Você gosta de cavalos?

Sonia assente.

— Use as palavras, garota. Você tem palavras, não tem?

— Eu disse a ela… – começo.

— Você provavelmente está se perguntando por que eu falo tanto. – Sharon solta a argola prateada do pulso esquerdo e a tira. – É falsa. Del fez para mim no ano passado, assim que ele descobriu como tirar a de verdade. Fez mais três para nossas meninas. – Ela se vira de novo para Sonia, como se nada que pudesse dizer fosse mais interessante do que os animais de fazenda. – Bom, aquele lá atrás é o Cato. Ao lado está Mencken. E aquela égua ruana cabeça-dura ali do lado é Aristóteles. Que tal dizer olá a eles enquanto eu converso com sua mãe?

Sonia nem precisa ouvir a sugestão duas vezes e corre para a baia de Aristóteles.

— Ela não vai morder, vai? – pergunta, indicando a égua.

— Não, a não ser que eu mande. – Sharon se vira para mim. – A senhora parece surpresa, Dra. McClellan.

— Pode me chamar de Jean. Acho que estou.

— Del é um engenheiro usando roupas de carteiro. Ajeitou as coisas todas aqui para parecer que estamos seguindo nos trilhos, direitinho e quietos. É um homem bom, o meu Del, mesmo sendo um branquelo da cidade. Venha cá, vou lhe mostrar uma coisa.

Ela me guia, passando por Cato e Mencken, nomes estranhos para cavalos, penso – mas não tão estranho quanto dar o nome de um filósofo clássico a uma égua – e abre uma porta nos fundos do celeiro.

A oficina de Del é ao mesmo tempo um laboratório e a antítese de qualquer laboratório que já vi. A maior parte das máquinas parece ter sido montada a partir de peças de videogames e equipamentos de cozinha. À direita há um velho projetor de slides que foi estripado; à esquerda, numa bancada limpa, estão cinco CPUs da década de 1980, com cada pecinha muito bem enfileirada.

— O que ele faz aqui? – pergunto.

— Um pouco de tudo.

— Por quê?

Sharon me encara.

— Precisa mesmo que eu responda? Dê uma boa olhada em mim, Jean. Eu sou negra.

— Deu para notar. E daí?

— E quanto tempo você acha que vai se passar até que o reverendo Carl e suas sagradas ovelhas Puras ponham na cabeça que não são só as mulheres e os homens que foram feitos diferentes aos olhos de Deus, mas também os negros e os brancos? Você acha que os casamentos inter-raciais como o meu fazem parte do plano? Se acha, não é tão inteligente quanto eu imaginava.

Sinto que estou ficando vermelha.

— Nunca pensei nisso.

— Claro que não. Olha, não quero ser grosseira, mas vocês, mulheres brancas, só estão preocupadas com… bom… só estão preocupadas com vocês, mulheres brancas. Eu tenho mais coisas com que me preocupar que não se resumem a ter apenas cem palavras por dia. E tenho minhas meninas. Nós ainda as mandamos para aquela escola e fazemos o que podemos nos fins de semana, até bolarmos um modo de atravessar a fronteira, mas Del e eu sabemos que a maré está vindo. Acho que antes do fim do ano vamos começar a ver mais do que escolas separadas para garotos e garotas. E, como agora, elas não vão ser iguais.

Não há emoção em sua voz, nenhuma autopiedade, só uma observação fria e calculada, como se estivesse passando uma receita ou dando a previsão do tempo. Eu é que estou suando.

— Enfim – diz Sharon, abrindo uma caixa de isopor e pegando um punhado de cenouras grossas.

Ela as dá aos cavalos, mostrando a Sonia como estender a mão com a palma para cima de modo que os animais possam pegar o alimento sem morder a mão junto.

— Que tal ir trabalhar enquanto Sonia e eu cuidamos um pouco da fazenda? Eu gostaria de falar com minha mãe. Na verdade é com a mãe do Del, mas ela é a única que tenho agora.

— É. Eu também gostaria.

Explico a ela sobre minha mãe e seu aneurisma.

— Parece que nós duas estamos no mesmo barco, Jean. – Sharon pega Sonia pela mão. – Mas não invejo sua posição. Assim que você conseguir a cura, aquela pulseirinha vai voltar. Se não fizer isso, sua mãe vai continuar balbuciando. Uma coisa ou outra, apenas uma opção para um freguês, como meu pai gostava de dizer.

— Eu poderia marcar um horário no início da semana que vem. Talvez na terça, o que acha?

— Seria ótimo.

Trocamos números, e Sharon me diz que Del vai ligar no fim de semana, se não for problema.

— Enquanto isso – continua ela –, não diga nada sobre nossa conversinha aqui, está bem? Del tem muito a perder como moleque de recados da resistência. Não quero que ele se encrenque. Nem ninguém.

— Há uma resistência?

O mundo parece doce quando digo isso.

— Querida, sempre há uma resistência. Você não cursou faculdade?

Enquanto voltamos para a casa, a mulher ao meu lado se parece cada vez mais com Jackie. Imagino-a erguendo cartazes e organizando manifestações enquanto eu ficava em casa com o nariz enfiado nos livros, ou enquanto Patrick e eu íamos comer cheeseburger e revirávamos os olhos para o último protesto no campus. Sharon, mesmo com suas botas enlameadas e o macacão rasgado, faz com que eu me sinta suja.

— Se não for muito tarde, venho pegá-la às seis – digo, antes de dar um beijo de despedida em Sonia.

— Tudo bem. Estaremos aqui.

No caminho para a consulta com meu médico, penso em Del, meu carteiro, levando mensagens para algum grupo clandestino de pessoas anti-Puros, e rio.

É claro que usariam um carteiro.