Vox
Cinquenta e Cinco
Enquanto desço de elevador até o subsolo, uma série de vinhetas horríveis lampeja na minha mente.
Médicos na França, com cérebros intactos em todas as partes, menos uma, são incapazes de processar as instruções escritas numa garrafa de desinfetante para as mãos, quanto mais falar com os pacientes, escrever receitas, realizar cirurgias. Corretores de valores na Alemanha dirão animados aos clientes Cavar! em vez de Comprar!, e Garfo! em vez de Vender!. Um piloto de avião na Espanha, encarregado de transportar em segurança duzentos passageiros, interpreta os alertas de um controlador de tráfego aéreo como uma piada engraçadíssima e ri enquanto seu avião mergulha nas águas do Mediterrâneo. E assim por diante, assim por diante, até que um continente inteiro esteja se afogando num caos sem linguagem, prontinho para ser dominado.
— Avise se precisar de alguma coisa – diz o sargento Petroski quando o elevador chega ao primeiro andar.
Ele sai sem olhar para trás e ocupa seu lugar no posto de segurança enquanto cinco homens passam pela porta principal.
Bom, Lorenzo e eu não somos os únicos trabalhando hoje. Quelle porra de surpresa.
Continuo a descer até o subsolo, cada segundo parecendo outro passo numa jornada para o inferno. Dentro do laboratório, Lorenzo está sentado diante de duas gaiolas de ratos, estudando uma papelada.
— Grupo Um – diz ele baixinho.
Não precisa acrescentar nada. A gaiola rotulada com UM é um circo de roedores animados, tagarelando e guinchando, movendo-se em sua pequena comunidade de ratos como se estivessem num evento de igreja. A segunda gaiola tem uma dúzia de criaturas sem vida, com os corpos peludos já se enrijecendo.
Eu me odeio por ter dado nomes a eles.
Os ratos não têm a capacidade de linguagem, mas não precisamos que eles tenham, pelo menos para esse teste final. Devido ao trabalho anterior de Lin – felizmente – não precisei participar das experiências com macacos há dois anos; já isolamos os componentes neurolinguísticos do soro. Hoje os ratos servem a um único propósito: testar as duas neuroproteínas que Lorenzo desenvolveu. Nenhum de nós quer injetar uma toxina num paciente humano.
Mas, claro, é exatamente isso que vai acontecer.
Sento-me ao lado de Lorenzo e puxo uma folha em branco de sua pilha. Em letras pequenas escrevo duas palavras no canto superior da folha, cobrindo-as com a outra mão: Arma biológica.
Assim que ele lê, eu amasso a página e a levo pela porta interna até o laboratório de bioquímica. Lorenzo vem atrás, e juntos vemos o papel ficar amarelo, depois preto, desintegrando-se na chama azul de um bico de Bunsen.
— Tem certeza? – pergunta ele, abrindo a torneira da pia e olhando as cinzas.
— Não, mas faz sentido. – Conto a ele sobre a conversa com Morgan lá em cima. – Pense bem, Enzo. Projeto Anti-Wernicke. Projeto Wernicke e Projeto Solubilidade em Água. Aplicar injeções demora: juntar as pessoas, treinar os técnicos. Isso daria a eles uma chance de escapar. Se você colocar a coisa no suprimento de água de uma cidade, seria o mesmo que jogar uma bomba de nêutrons. – Estalo os dedos. – Pou! Mas sem o som.
— Isso é insano.
— O reverendo Carl também é. E, por sinal – digo, enxugando a bancada de resina epóxi, tirando qualquer traço do papel queimado antes de chamarmos Morgan –, nosso intrépido líder quer que os testes sejam remarcados para amanhã.
— Eles estão com pressa.
— É. Estão.
Deixo Lorenzo chamar Morgan pelo interfone, para não ter que falar com o filho da puta mais do que o absolutamente necessário. Enquanto isso, preparo frascos com o primeiro soro de neuroproteína e preencho o relatório do dia. Tranco os ratos – os mortos – num freezer para que Lin possa realizar sua magia post-mortem com eles quando chegar.
Se Lin chegar.
— Ela não disse nada a você ontem, disse? – pergunto quando Lorenzo desliga o interfone.
Ele balança a cabeça.
— Só que ia jantar com uma amiga.
— Que amiga?
— Você se lembra da Isabel?
— Como poderia esquecer?
Isabel Gerger costumava passar no nosso laboratório quando não estava dando aula de conversação avançada em espanhol. Era argentina, mas com ascendência suíça, uns trinta centímetros mais alta do que Lin, usava o cabelo numa cascata loura descendo pelas costas e falava com um ciciar leve e charmoso. As duas eram o exemplo máximo de opostos, mas combinavam de todos os modos que um casal pode combinar.
Até o ano passado, quando cortaram o relacionamento, cancelaram o noivado e fizeram o que todos os gays e lésbicas podiam fazer para não ser mandados para um campo de concentração: jamais falaram de novo uma com a outra. Não que houvesse muita coisa a falar assim que os contadores de pulso de Lin e Isabel foram postos.
— Espero que estejam sendo cuidadosas – comento.
A ideia de Lin, com seu cérebro grande e corpo pequeno, trabalhando para pagar os pecados da carne com as mãos nuas, me causa arrepios. Jackie podia enfrentar esse tipo de merda. Mas Lin não é Jackie. E então outro pensamento, mais sinistro, abre caminho: e se todos nós estivermos sendo seguidos?
Afasto a questão da cabeça – não há espaço para mais nenhum pensamento, nenhum neurônio de sobra – e lavo o ranço de rato morto das mãos enquanto esperamos Morgan.
— Então… Segunda-feira – diz Lorenzo.
Ele não está falando de trabalho.
— Segunda. De tarde.
O relógio na parede do laboratório informa que são cinco horas. Tenho menos de 48 horas para tomar uma decisão que sei que será irreversível.
Meus pais, este bebê dentro de mim e Lorenzo de um dos lados da balança. Patrick e as crianças do outro. Dois destinos aparentemente inevitáveis, mas diferentes, pairam sobre cada escolha, como nuvens de tempestade. Ficar e esperar que o reverendo Carl piore ainda mais esse jogo terrível ou ver de perto a Europa cair de joelhos, na primeira fila, os melhores lugares da casa.
Lorenzo chega mais perto, o suficiente para nossas mãos se tocarem. É uma sensação sólida, esses dedos roçando nos meus.
Mas não basta.