Vox

Christina Dalcher · Capítulo 48 de 80

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Vox

Quarenta e Oito

 

No meu pesadelo as crianças foram embora.

Uma a uma eu as vejo sendo tiradas de mim, os rostos escurecendo e desbotando. Alguém – Olivia, talvez, ou possivelmente um soldado – segura Sonia no colo em meio a um clarão de flashes fotográficos. Os gêmeos acenam, e Sam joga um baralho para o alto, acima da cabeça de Leo. Steven dá um sorriso torto e grita: “Tchau, mãe!” Em seguida, inclina a cabeça de lado, como se dissesse que sente muito.

E o tempo todo Patrick observa sem falar nada.

Não é realmente assim que meu sábado começa.

Patrick abre as persianas, deixando o sol da manhã entrar no quarto. Os gêmeos e Sonia entram com uma bandeja cheirando a café e pãezinhos quentes – cheiros que em qualquer outro dia poderiam estimular meu apetite, mas hoje provocam uma onda de náusea. No centro de um pãozinho coberto de queijo cremoso está uma vela.

— Parabéns! – gritam quatro vozes.

Quase esqueci que hoje faço 44 anos.

— Obrigada… – falo, rouca tentando parecer faminta. – Cadê Steven?

— Dormindo – responde Sam.

O relógio ao lado da minha cama reluz “9:11”. Eu disse a Lin e Lorenzo que estaria no laboratório às dez.

— Sopre a vela e faça um pedido, mãe – pede Sonia.

Faço isso, pingando cera no meu café da manhã, depois saio da cama e corro para o banheiro.

— Volto num minuto. Acorde Steven. Quero falar com ele antes de ir para o trabalho.

A comitiva de aniversário dá marcha a ré e sai. Trinta segundos depois, enquanto estou derramando meu café intocado na pia, Patrick entra.

— Steven se foi – diz ele, baixinho.

Penso em Steven saindo para dar uma corrida, para um lugar qualquer. Não penso nos termos mais simples. Não penso que “se foi” significa foi embora, como no sonho. Não penso em morte.

Patrick estende uma folha de caderno.

— Isso estava no quarto dele. No travesseiro.

Poderia ser pior, penso, lendo a letra de Steven. Mesmo assim, a coisa – aquele horrível a coisa – basta para tirar meu fôlego.

 

Fui procurar a Julia. Amo vocês. S.

 

Em quatro dias tudo mudou de ruim para uma verdadeira merda.

— Devemos chamar a polícia? – pergunto.

Patrick balança a cabeça como se soubesse o que estou pensando.

— Provavelmente é melhor não.

Ele toca meu braço e tira a caneca vazia da minha mão sem perguntar Qual é o problema com o seu café? e sem olhar as riscas marrons na pia. O que ele diz é: – Não tenho sido um bom marido, não é?

Então, como ímãs, estamos juntos, grudados, abraçando um ao outro. Ele toca com um dedo aquele ponto macio atrás da minha orelha, e sinto minha pulsação bater num ritmo, a princípio sincopado, depois firme. É estranho pensar em amor numa hora assim, com nosso filho sumido e a mancha marrom de café na pia, mas as mãos de Patrick descem do meu pescoço, seguem pelas costas até meus seios, intumescidos na camisola de seda, reagindo ao seu toque daquele modo automático que a pele tem de se eriçar, mesmo quando a mente diz não.

— Não posso me atrasar – digo, recuando.

Também não posso me deitar embaixo do meu marido nesta manhã, pensando na primeira vez, na vez em que fizemos Steven.

Estou pensando no que Patrick faria se, em vez de Julia, fosse eu que o reverendo Carl tivesse arrancado de casa e colocado na frente das câmeras de televisão antes de me levar para uma vida de silêncio e servidão. Iria atrás de mim?

Lorenzo iria, mas Patrick, não.

— Aonde você acha que ele foi? – pergunto, abrindo o chuveiro. – Steven. – Julia pode estar em qualquer lugar: no litoral ao norte, no interior, do outro lado do país num laranjal na Califórnia. – Encontrá-la seria como achar uma agulha no palheiro.

Patrick balança a cabeça.

— Acho que não. Deixe-me mostrar uma coisa. – Ele me deixa no banheiro e vai ao criado-mudo do seu lado da cama. – Que diabo é isso?

A mentira já está preparada, e é mais fácil de recitar quando não estou olhando-o nos olhos.

— A porcaria do puxador soltou ontem à noite. Não lembra?

Há uma pausa enquanto ele pensa. Finalmente ouço o som das chaves e um único e perplexo “Aham” no quarto, antes que eu entre embaixo do chuveiro.

— Posso fazer um chá, se você quiser! – grita Patrick. – Quando terminar, venha ao meu escritório. Acho que sei aonde Steven foi.

Tomo o banho mais rápido da minha vida, penteio o cabelo não lavado e visto uma calça jeans larga e uma blusa de linho que não preciso enfiar no cós. Foda-se o código de vestimenta; estou com calor, apressada e grávida. Sigo pelo corredor até o escritório de Patrick.

O rosto do reverendo Carl preenche a tela e suas mãos estão levantadas como se ele rezasse. É sua pose preferida para discursar. A câmera apontada para ele recua, abrindo o quadro e revelando o restante do palco. Julia King está irreconhecível.

Rasparam a cabeça dela, claro – eu esperava por isso. Não esperava que o serviço fosse tão malfeito, como uma tosquia amadora realizada por um cego com paralisia. Tufos de cabelos cor de ferrugem espetados na cabeça.

— O que eles fizeram, usaram uma gilete cega? – pergunto, sem desviar os olhos da imagem que está no laptop de Patrick.

Steven viu isso, foi obrigado a assistir e a se juntar aos xingamentos de sua turma.

O reverendo Carl convoca a plateia a rezar e baixa a cabeça.

— Senhor, perdoe nossa filha desgarrada e a guie enquanto ela se junta às irmãs nas Black Hills de Dakota do Sul. Amém.

Um coro de gritos e sibilos acompanha a oração. Algumas pessoas repetem “Amém”, mas a maior parte é um festival de ódio. O reverendo Carl baixa as mãos erguidas e pede silêncio, mas quando levanta a cabeça para as câmeras, vejo seu olhar sorridente quase imperceptível.

Agora a câmera dá um close no rosto de Julia, riscado de lágrimas. Seus lábios tremem e os olhos procuram da esquerda para a direita, buscando um fiapo de simpatia entre as pessoas que gritam. A mão do reverendo Carl aparece no ombro dela, e ela tenta se livrar, mas a mão só parece apertar com mais força, os dedos se cravando na clavícula sob o tecido cinza. A roupa tem gola alta e mangas compridas. Ela deve estar morrendo de calor.

Não é a primeira vez que penso em como odeio o reverendo Carl Corbin, mas é a primeira em que tenho vontade de matá-lo.