Vox

Christina Dalcher · Capítulo 7 de 80

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Vox

Sete

 

Na primeira vez que ela grita, acho que estou sonhando. Patrick ronca ao meu lado; ele sempre teve o sono pesado e sua rotina no trabalho este mês o deixou exausto. Então ele ronca, ronca, ronca.

Minha simpatia já se esgotou. Que eles trabalhem doze horas por dia para compensar o déficit inevitável provocado pela anulação de quase metade da força de trabalho. Que se enterrem em papeladas e burocracias ridículas e depois se arrastem até em casa para dormir como uma pedra, acordar e fazer tudo de novo. O que eles esperavam?

Não é culpa de Patrick. Meu coração e minha mente sabem disso. Com quatro filhos para criar, precisamos do salário dele. Mesmo assim, minha simpatia se esgotou.

Ela grita de novo, e não é um grito sem palavras, mas uma enxurrada de palavras capaz de gelar o sangue.

Mamãe, não deixa ele me pegar não deixa ele me pegar não deixa ele me pegar…

Estou fora da cama, num emaranhado de cobertas e colchas, a camisola embolada nas pernas. Meu tornozelo bate no canto duro da mesinha de cabeceira, acertando o osso em cheio. Vai sangrar, deixar cicatriz, mas não estou pensando nisso. Estou pensando na cicatriz que vou carregar se não chegar ao quarto de Sonia a tempo de silenciá-la.

As palavras continuam jorrando, voando pelo corredor na minha direção como dardos envenenados vindo de um milhão de zarabatanas hostis. Elas ardem, furam minha pele que já foi grossa com a precisão de um bisturi, penetrando minhas entranhas. Quantas palavras ela disse? Cinquenta? Sessenta? Mais?

Mais.

Ah, meu Deus.

Agora Patrick está de pé, de olhos arregalados e pálido, a própria imagem do herói de cinema cheio de medo ao descobrir o monstro no armário. Ouço seus passos rápidos às minhas costas, acompanhando as pancadas do sangue pulsando nas minhas veias, ouço-o gritar “Corre, Jean! Corre!”, mas não me viro. Portas se abrem enquanto passo voando pelo corredor, primeiro a de Steve, depois a dos gêmeos. Alguém – talvez Patrick, talvez eu – bate no interruptor de luz do corredor, e três rostos turvos, brancos como fantasmas, aparecem na minha visão periférica. Claro, o quarto de Sonia tinha de ser o mais distante do meu.

Mamãe, por favor não deixa ele me pegar não…

Sam e Leo começam a chorar. Por uma fração de segundo, registro um único pensamento: mãe desnaturada. Meus filhos estão aos prantos e eu passo direto por eles, sem me importar nem perceber. Vou refletir sobre isso mais tarde, se estiver em condições de refletir sobre qualquer coisa.

Dou dois passos dentro do quarto de Sonia, salto para a cama dela, uma das mãos procurando sua boca, pressionando-a. Minha mão livre se enfia embaixo das cobertas procurando o metal duro do contador no pulso.

Sonia geme através da minha mão e eu vejo seu relógio na mesa de cabeceira com o canto do olho: onze e meia.

Não me restam palavras, pelo menos durante meia hora.

— Patrick… – falo sem som quando ele acende a luz.

Quatro pares de olhos encaram a cena na cama de Sonia. Deve parecer uma violência, uma escultura grotesca: minha filha se retorcendo, a camisola translúcida devido ao suor; eu, esparramada em cima dela, sufocando seus gritos e prendendo-a no colchão. Que cena horrível devemos estar representando. Infanticídio em carne e osso.

Meu contador reluz com o número 100 acima da boca de Sonia. Eu me viro para Patrick, implorando com o olhar, sabendo que, se falar, se o LED passar para 101, ela vai levar o choque junto comigo.

Patrick se junta a mim na cama e substitui a minha mão pela dele, cobrindo a boca de Sonia.

— Shh, querida. Shh. Papai está aqui. Papai não vai deixar nada acontecer com você.

Sam, Leo e Steve entram no quarto. Eles se empurram para chegar mais perto e de repente não há mais espaço para mim. Mãe desnaturada se transforma em mãe inútil, duas palavras jogando pingue-pongue na minha cabeça. Obrigada, Patrick. Obrigada, meninos.

Eu não os odeio. Digo a mim mesma que não os odeio.

Mas às vezes odeio.

Odeio que os homens da minha família digam a Sonia como ela é bonita. Odeio que eles a tranquilizem quando ela cai da bicicleta, que inventem histórias para contar sobre princesas e sereias. Odeio ter de apenas olhar e ouvir.

É um esforço me lembrar de que não foram eles que fizeram isso comigo.

Foda-se.

Sonia se acalmou; o perigo imediato passou. Mas, enquanto saio do quarto da minha filha, noto que seus irmãos têm o cuidado de não tocar nela. Só para o caso de ela ter outro ataque.

No canto da sala fica o bar, um robusto carrinho de madeira com seu variado estoque de anestésico líquido. Vodca e gim transparentes, uísque e bourbon caramelo, dois centímetros de azul-cobalto na garrafa de curaçau que compramos anos atrás para um piquenique com temática polinésia. No fundo está o que procuro: grapa, também conhecida como aguardente italiana. Pego-a junto com um cálice e levo os dois para a varanda dos fundos, esperando o relógio soar meia-noite.

Beber é uma coisa que não tenho feito muito. É deprimente demais tomar um gim-tônica gelado e pensar em noites de verão em que Patrick e eu nos sentávamos lado a lado na varanda minúscula do nosso primeiro apartamento, falando sobre as minhas bolsas de pesquisa e sobre os meus textos de qualificação, sobre as horas infernais dele como residente no hospital da Universidade de Georgetown. Também tenho medo de ficar bêbada, de que o álcool me dê coragem suficiente para esquecer as regras. Ou zombar delas.

A primeira dose de grapa desce feito fogo; a segunda é mais suave, paliativa. Estou na terceira quando o relógio anuncia o fim do dia e um ping fraco no meu pulso esquerdo me concede mais cem palavras.

O que vou fazer com elas?

Volto pela porta de tela, atravesso o tapete da sala e recoloco a garrafa no bar. Sonia está sentada na cama quando entro no seu quarto. Segura um copo de leite, sustentado pela mão de Patrick. Os garotos voltaram para as camas e eu me sento ao lado dele.

— Tudo bem, querida. A mamãe está aqui.

Sonia sorri para mim.

Mas não é isso que acontece.

Levo minha bebida para o gramado, passando pelas roseiras que a Sra. Ray escolheu e plantou com cuidado, indo até aquele trecho de gramado escuro, com cheiro adocicado, onde florescem os lilases. Dizem que a gente deve falar com as plantas para que elas fiquem mais saudáveis; se é verdade, meu jardim está moribundo. Mas hoje não ligo a mínima para os lilases, as rosas ou qualquer coisa. Minha mente está em outro tipo de criatura.

— Seus escrotos filhos da puta! – grito mais de uma vez.

Uma luz se acende na casa dos King e as persianas verticais estremecem e se separam. Não estou nem aí. Não me importo se acordar todo o bairro, se me ouvirem até no Congresso. Grito, grito e grito até minha garganta secar. Depois tomo mais um gole da garrafa de grapa, derramando um pouco na camisola.

— Jean! – A voz vem de trás de mim, seguida pela batida de uma porta. – Jean!

— Sai daqui! Ou eu vou continuar falando.

De repente não me importo mais com o choque ou a dor. Se eu continuar gritando em meio a ela, se mantiver a raiva no máximo, afogar a sensação com bebida e palavras, será que a eletricidade vai continuar a correr? Será que isso acabaria me matando?

Provavelmente não. Eles não vão nos matar pelo mesmo motivo que não autorizam abortos. Nós nos transformamos em males necessários, objetos para ser fodidos e não ouvidos.

Agora Patrick está gritando: – Jean! Querida, pare! Por favor, pare!

Outra luz se acende na casa dos King. Uma porta se abre com um rangido. Passos.

— Que diabo está acontecendo aí, McClellan? As pessoas estão tentando dormir!

É o marido, claro. Evan. Olivia ainda está espiando meu show noturno através das persianas.

— Vai se foder, Evan – digo.

Em termos não tão educados, Evan anuncia que vai chamar a polícia. Então a luz na janela de Olivia se apaga.

Ouço gritos – alguns meus –, então Patrick está em cima de mim, me jogando na grama molhada, implorando e adulando, e sinto gosto de lágrimas nos seus lábios quando ele me beija para eu ficar quieta. Meu primeiro pensamento é se eles ensinam essas técnicas aos homens, se entregam panfletos aos maridos, filhos, pais e irmãos nos dias em que fomos algemadas com brilhantes pulseiras de aço. Então decido que eles certamente não se importam tanto assim.

— Me solta.

Estou caída na grama, com a camisola grudada no corpo como uma segunda pele, como se fosse uma cobra. É quando percebo que estou sibilando.

Também é quando percebo que meu coração está acelerado.

Patrick agarra meu pulso esquerdo, verifica o número.

— Acabou, Jean.

Tento me soltar dele, um ato tão vazio quanto meu coração. A grama é amarga na minha boca, até que percebo que estou mastigando um bocado de terra. Sei o que Patrick está fazendo; sei que está decidido a dividir o choque comigo.

Por isso fico em silêncio e deixo que ele me leve de volta para dentro enquanto o uivo das sirenes fica mais alto.

Patrick pode falar com os policiais. Não me resta nenhuma palavra.