Vox

Christina Dalcher · Capítulo 27 de 80

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Vox

Vinte e Sete

 

Lin está me esperando do lado de fora do banheiro, o rosto franzido de preocupação.

— Você está bem, querida?

— Estou ótima. Só que metade do meu café da manhã está na sala do Lorenzo.

Ela passa o braço pela minha cintura e me leva de volta à nossa toca de hobbit, limpa uma mancha de rímel com um lenço úmido tirado do poço sem fundo da sua bolsa e vai direto ao ponto: – Você fez uma exibição perfeita do que é estar doente de amor, Jean. E não finja que não tem ideia do que estou falando. Ainda tem uma quedinha pelo nosso colega italiano?

Afundo na cadeira de escritório atrás da minha mesa.

— É tão óbvio? – Agora estou imaginando se todo o departamento, inclusive Morgan, sabia dos meus encontros regulares com Lorenzo na sala dele. – Quem mais sabe?

Lin se inclina para mim, os cotovelos apoiados na mesa entre nós.

— Não precisa se preocupar com Morgan. Ele é idiota e egocêntrico, além de ser homem. Não reconheceria uma euforia pós-transa nem se tropeçasse nela. E duvido que ele tenha notado a mudança no figurino. – O sorriso dela se desfaz aos poucos até virar uma expressão séria. – Mas tenha cuidado. Você não quer que o camburão do adultério de Carl Corbin venha atrás de você.

— Não mesmo – digo, e me sinto enjoada de novo.

No nosso mundo novo e anormal, um número surpreendente de coisas continua exatamente como antes. Nós comemos, fazemos compras, dormimos, mandamos os filhos para a escola e transamos. Só que agora há regras até para transar.

— Desde quando isso acontece? – pergunta Lin.

— Tem uns dois anos, acho.

Não há sentido em lhe contar que sei a data exata em que notei pela primeira vez a mão de Lorenzo na madeira acetinada da caixinha de música, quando senti um arrepio agradável subir e descer pelo meu corpo ao imaginar aquela mão acariciando minha pele.

— Só antes? Ou depois também?

Agora estou longe dali, minha mente flutuando da funcionalidade estéril da nossa sala para a Cabana do Caranguejo atulhada em Maryland, com as paredes cobertas, do piso ao teto, de objetos kitsch de temática marinha. Uma rede de pesca ali, um barco numa garrafa no parapeito da janela, uma âncora enferrujada encostada num canto da parede. E uma cama. É da cama que me lembro melhor, porque era encalombada, barulhenta e estreita demais para nós dois nos deitarmos confortavelmente sem sobrepor membros. Eu adorava aquela cama.

Nós a compartilhamos apenas uma vez depois que o Movimento Puro se tornou nacional, e era isso que Lin queria dizer com “Só antes? Ou depois também?” Eu tinha pegado o metrô até o Eastern Market no início de março para ir à loja de queijos que pertencia a um casal idoso e agora era cuidada apenas pelo marido. Não me lembro do que estava procurando, talvez scamorza defumado, talvez ricota fresca. Ou talvez não estivesse procurando queijo.

Ele estava ali, na barraca do padeiro, com um braço cheio de compras e flores, e um olhar distante. Tínhamos passado dez meses sem nos ver nenhuma vez, e continuaríamos sem nos ver se eu não tivesse saído da loja de queijos e atravessado direto o corredor do mercado.

Arrisquei duas palavras:

— Ainda aqui?

— Ainda aqui. Tenho uma passagem para casa em agosto – disse ele. – Depois do verão. Não posso mais ficar no seu país. – Enquanto falava, ele evitou meus olhos e encarou a pulseira prateada. – Eu não teria ficado durante o verão, mas eles fizeram uma oferta generosa.

Faltavam cinco meses para agosto. Quando Lorenzo fosse embora, eu sabia que ele jamais voltaria aos Estados Unidos. Quem voltaria?

Lorenzo pagou pelo pão.

— Não saia daqui. Já volto.

Ele desapareceu no mercado apinhado, indo até a extremidade oposta, onde ficavam o café e a loja de vinhos. Era uma manhã de terça-feira, fazia um calor incomum para março, que tinha o hábito de atingir Washington com um sopro de inverno, como a nos lembrar que a estação ainda não havia terminado, não sem uma última despedida. Minha cabeça disse para eu fugir pela porta lateral, esquecer o queijo e entrar no trem seguinte de volta para casa. Ou para qualquer lugar. Meus pés desobedeceram e continuaram grudados no chão. E então ele voltou, com outra sacola acrescentada à coleção de compras que já havia feito.

— Me encontre no beco da Eight Street em dez minutos – foi só o que disse.

Oficialmente, o sexo fora do casamento era ilegal. Sempre tinha sido ilegal na maioria dos estados, um resquício dos dias de leis pré-Idade Média que proibiam até os cônjuges de fazer qualquer coisa que não fosse o intercurso vaginal. Os rótulos eram “imoral” e “antinatural”. Mas raramente alguém era acusado e criminalizado por sexo oral ou anal, e consideravam-se normais os casos extraconjugais, ainda que não louváveis.

E o controle de natalidade? Essa é boa. As prateleiras das farmácias onde ficavam as caixas de camisinhas estão cheias de fórmulas para bebês e fraldas. Uma substituição lógica.

O reverendo Carl tinha algumas coisas a dizer sobre a moralidade sexual quando ascendeu ao poder. Não foram feitas eleições, não houve audiências de confirmação – o presidente queria votos e os obteve. Tudo que Sam Myers precisou fazer foi ouvir um conselheiro não oficial, um homem com a atenção de milhões de pessoas que achavam que recuar cem anos era desejável.

Bendita seja a brecha.

Não sei se existe realmente um camburão do adultério, mas sei o que aconteceu com Annie Wilson, da minha rua, quando seu marido a denunciou. Passou na TV, alguns dias depois de o meu mundo virar de cabeça para baixo.

Annie Wilson era uma vagabunda com um figurino de mulher do lar – ou pelo menos se vestia de modo mais discreto quando seu marido estava em casa. Imagino que ela corria direto para o guarda-roupa nas manhãs de quarta-feira depois de o marido sair para o trabalho, e no início da tarde revertia o processo de se emperiquitar, depois que o homem da velha picape azul ligava o motor e partia por mais uma semana. Eles tinham um arranjo.

Eu não deveria chamá-la de vagabunda. Não sou melhor, e o marido de Annie não era nenhum príncipe encantado. Fazia dois anos que ela queria deixá-lo, e assim que ele cancelou seu cartão de crédito e parou de pagar pelo carro dela, Annie parecia viver numa prisão de segurança máxima. Numa quarta eu me lembro de ficar torcendo por ela, instigando-a em silêncio para simplesmente sair de casa, entrar naquela picape azul e nunca mais olhar para trás.

Se ela não tivesse os dois meninos, ambos com menos de dez anos, talvez fizesse isso. E, se tivesse fugido naquela tarde, talvez eu não precisasse vê-la na televisão naquela noite, enquanto o reverendo Carl a entregava a duas mulheres com roupas sem graça e rostos cinzentos que combinavam com os hábitos longos. Talvez não precisasse ouvi-lo falar sobre o convento em Dakota do Norte onde Annie Wilson passaria o resto da vida com um contador de pulso ajustado para uma cota diária sem palavras.

O que me fez decidir deixar o Eastern Market e ir para o carro de Lorenzo no beco do outro lado da rua não foi somente luxúria, nem a discussão unilateral que eu tivera com Patrick naquela manhã. A fúria vinha crescendo dentro de mim como um incêndio, primeiro em brasa, depois virando um inferno. Eu sabia tudo sobre a hipocrisia, sobre os clubes privados que surgiram nas cidades, onde homens solteiros com certos meios podiam liberar o estresse e o esperma com damas que trabalhavam no ramo do entretenimento. Patrick tinha me contado sobre os clubes depois de ouvir uma conversa no trabalho. Eram os últimos lugares onde seria possível pôr as mãos em camisinhas.

Dizem que a prostituição é a profissão mais antiga. E não é possível acabar com uma coisa tão velha. Além disso, os gays tinham sido postos em campos de concentração; as adúlteras como Annie Wilson estavam trabalhando em fazendas na Dakota do Norte ou no cinturão de grãos do Meio-Oeste. Os Puros precisavam fazer alguma coisa com as mulheres solteiras que não tinham famílias para sustentá-las – elas não poderiam viver sozinhas, sem palavras e sem rendimentos. Tinham uma escolha: casar-se ou viver em um bordel.

Quando eu pensava em Sonia – no que aconteceria com ela se Patrick e eu estivéssemos fora de cena, se ela seria forçada a um casamento sem amor ou mandada para um puteiro onde não poderia fazer nada com a boca além de chupar e gemer –, meu sangue começava a ferver. Até as putas tinham que ficar quietas e se comportar.

Assim, eu saí do Eastern Market e atravessei a rua, me desviando de buracos e poças parcialmente congeladas, e entrei no carro de Lorenzo. Era o único método ao meu alcance para dizer “foda-se” ao sistema.

Graças aos hormônios furiosos e minha própria idiotice, o sistema disse “foda-se” de volta. Lorenzo e eu transamos três vezes. Uma com camisinha. As outras duas? Sem nada.

Meu Deus, como foi bom.

Lin pega minha mão, me trazendo daquela tarde para esta manhã.

— Tenha cuidado, querida. Você tem muito mais a perder do que sua voz.

— Eu sei – digo, e me controlo justo quando Morgan bate à nossa porta.