Vox
Setenta e Oito
Não durmo. Não consigo. Então vou com as crianças até o estábulo, olhando Sonia guiar os irmãos num tour. Agora ela está cheia de palavras, um gêiser de palavras.
— Essa é Aristóteles – diz ela, dando um tapinha na égua com uma das mãos e a acariciando entre os olhos com a outra. – É um cavalo menina. Apesar de Aristóteles ter sido um homem. E é minha predileta. Sharon falou que ela é superinteligente.
Enquanto Sonia distribui pedaços grossos de cenoura, instruindo os garotos exatamente sobre como manter as palmas das mãos abertas e deixar a égua pegar o legume sem arrancar alguns dedos junto, tiro o celular de Sharon do bolso e digito um número.
O recepcionista não fica empolgado com minha mudança de planos.
— Sra. McClellan – diz ele, a voz anasalada como a de Morgan.
— Dra. McClellan – corrijo.
Ele não pede desculpas, apenas continua com o sermão: – Nós marcamos esses exames com antecedência por um motivo. A senhora deveria estar aqui há uma hora. Não sei se poderemos encaixá-la até… – Ouço papéis farfalhando. – O mais cedo que temos é na semana que vem.
— Não faz mal. Não vou fazer o exame. – Então desligo.
— Vem, mãe! – chama Sonia. – É sua vez de dar comida à Aristóteles.
— Se Aristóteles comer mais cenoura, a Sra. Sharon vai ter um problema. E adivinha quem ela vai pedir para limpar o cocô?
— O nome certo é estrume, mãe. – Sonia parece absolutamente em êxtase com a ideia de passar uma tarde tirando bosta de cavalo.
Bom para ela, penso.
— Posso ser veterinária quando crescer?
— Talvez. Mas precisa estudar muito. Acha que consegue?
— Você conseguiu, mãe – fala Steven.
Acho que meu coração pode explodir, e sei que tomei a decisão certa.
— Vou voltar para a casa, está bem? – digo, e saio enxugando as bochechas com as costas das mãos.
O lado esquerdo queima, mas não tanto, desde que Lin refez o curativo. Mesmo assim, o sal arde.
Lorenzo está sentado no para-choque traseiro do furgão.
— E então? – pergunta ele, quando chego perto.
— Não posso ir sem as crianças.
— Poe diz que você precisa ir. Mesmo se… – ele faz uma pausa, como se não quisesse pronunciar o nome do meu marido – … mesmo se Patrick tiver sucesso, nada vai mudar da noite para o dia. Eles sabem nosso nome. Têm fotos. Precisamos sair do país.
— Onde está Poe, afinal? – indago, mudando de assunto. Minha decisão está tomada. Preciso de seis passaportes, e não de um.
— Foi com seu marido – responde Lorenzo. E depois, erguendo os olhos. – Por falar nele…
O carro de Patrick vem na nossa direção feito um trem descarrilhado, derrapando até parar perto do furgão. Uma nuvem de poeira se espalha enquanto a porta do motorista se abre e Poe desce.
A porta do carona não se abre.
— Cadê Patrick? – questiono. – Onde ele está?
Poe responde gritando para Lorenzo. Ouço todas as outras palavras: Vá. Lin. Estanque. Sangramento. Tentei. Ajudar. Não. Tempo.
Meu cérebro completa o restante e abro a porta de trás, acertando a lateral do furgão. O som é uma pancada surda. Dentro de mim há gritos, um grito longo e final que se estende e se esvai em nada.
— O que aconteceu com ele? – pergunto, mas nem era necessário.