Vox

Christina Dalcher · Capítulo 8 de 80

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Vox

Oito

 

 

Idiota, idiota, idiota.

O olhar vazio de Sonia enquanto sigo com ela pela chuva até o ponto de ônibus é a pior censura, meu castigo pelo surto regado a grapa no quintal. Certamente é pior do que os policiais Fulano e Sicrano me dando um sermão sobre não perturbar a paz da vizinhança.

É a primeira vez que não digo que a amo antes de mandá-la para a escola. Jogo um beijo e me arrependo imediatamente quando ela leva a mãozinha aos lábios e joga outro de volta.

O olho negro de uma câmera me encara da porta do ônibus.

As câmeras estão em toda parte. Nos supermercados e nas escolas, nos salões de cabeleireiro e nos restaurantes, esperando para captar qualquer gesto que possa ser considerado uma tentativa de comunicação não verbal, até em sua forma mais rudimentar.

Porque, afinal de contas, nenhuma das merdas que fizeram com a gente tem a ver com a fala de fato.

Acho que foi um mês depois da chegada dos contadores de pulso que aquilo aconteceu. Na seção de hortifrúti do supermercado. Eu não conhecia as mulheres, mas já tinha visto as duas fazendo compras. Como todas as mães do bairro, elas andavam em duplas ou bandos, fazendo tarefas em sincronia, prontas para dar uma mão caso os bebês abrissem o berreiro na fila dos caixas. Mas essas duas eram muito unidas, grudadas. Agora sei que essa união é que era o problema.

Você pode tirar muitas coisas de uma pessoa: dinheiro, emprego, estímulo intelectual, qualquer coisa. Pode tirar até suas palavras, mas isso não vai mudar sua essência.

Mas tirar a camaradagem é bem diferente.

Fiquei olhando aquelas mulheres se revezando para vigiar o bebê uma da outra, apontando para os corações e as têmporas num dialeto silencioso. Olheias soletrar com os dedos perto de uma pilha de laranjas, rindo quando erravam uma letra que provavelmente não usavam em língua de sinais desde o sexto ano, quando trocavam mensagens sobre Kevin, Tommy ou Carlo. Vi seus rostos horrorizados quando três homens uniformizados se aproximaram, vi a pilha de laranjas despencar quando tentaram resistir e vi quando foram levadas pelas portas automáticas, elas e suas filhinhas, as quatro com uma larga algema de metal no pulso.

Não perguntei sobre elas, claro. Mas não é necessário. Desde então, nunca mais vi aquelas mulheres nem seus bebês.

— Tchau – diz Sonia, e entra no ônibus.

Volto até a porta de entrada, sacudo o guarda-chuva na varanda e o deixo aberto para secar. A caixa de correios trancada, com sua única fenda, parece rir de mim. Está vendo o que você fez, Jean?

O furgão do nosso carteiro para na esquina, e ele sai, envolto numa daquelas capas de chuva de plástico transparente que os correios dão aos funcionários para o tempo inclemente. Parece que está usando uma camisinha.

Minha amiga Ann Marie e eu ríamos dos carteiros nos dias de chuva, zombando das bermudas e dos chapéus de safári no verão, das galochas fazendo barulho na neve meio derretida nos meses de inverno. Acima de tudo, ríamos das capas de chuva de plástico, porque nos lembravam as roupas que as senhorinhas idosas usavam. Ainda usam. Certas coisas não mudaram. Se bem que não temos mais mulheres trabalhando nos correios. Acho que isso é uma mudança enorme.

— Bom dia, Sra. McClellan – diz ele, chapinhando pela calçada até a casa. – Tem um monte de correspondências hoje.

Quase nunca vejo nosso carteiro. Ele costuma chegar quando estou fora fazendo tarefas ou durante meu banho. Às vezes, se estou na cozinha, ouço a pancada metálica da aba da caixa de correio enquanto estou tomando a segunda xícara de café. Imagino se ele planeja os horários para não me encontrar.

Respondo com um sorriso e estendo a mão, só para ver o que ele vai fazer.

— Desculpe, senhora, preciso colocar a correspondência na caixa. São as regras, a senhora sabe.

Eles têm mesmo essas regras novas, a não ser que Patrick esteja por perto nas manhãs de sábado. Então nosso carteiro cumpridor de normas entrega as cartas para Patrick. Para poupar meu marido do trabalho de ir buscar a chave, acho.

Olho a caixa de correio engolir uma pilha de envelopes e fechar a boca com um estalo.

— Tenha um bom dia, Sra. McClellan. Se puder, com uma chuva dessas.

A resposta automática fica presa na minha garganta; por pouco não a solto.

E então algo inédito acontece: ele pisca três vezes, e cada piscadela é pontuada por uma pausa longa, como um batimento de cílios mecânico.

— Eu tenho esposa, sabe. E três meninas.

Essa última frase emerge num sussurro enquanto o carteiro… qual é mesmo o nome dele? Sr. Powell? Sr. Ramsey? Sr. Banachee? Fico sem graça por nem ao menos saber o nome desse homem que nos visita seis dias por semana.

Ele repete as piscadelas, mas antes verifica, por cima do meu ombro, a posição da câmera da varanda e se alinha de modo que eu bloqueie a visão da lente. Nesse caso eu sou o sol ou a lua? Provavelmente Plutão, o planeta que não é mais planeta.

E eu o reconheço. Meu carteiro é o filho da mulher que deveria ter sido o primeiro ser humano a receber o soro antiafasia, Delilah Ray. Não é de espantar que ele estivesse tão preocupado com meus honorários no ano passado, que teriam sido exatamente zero se eu tivesse chegado ao estágio de testes do meu soro Wernicke X-5; ele não deve estar ganhando muito como carteiro.

Eu gostava do sujeito. Ele tinha um ar de sensibilidade quando trouxe a mãe para uma consulta, aliado a um sentimento pueril diante da poção mágica que eu me propunha a injetar no cérebro dela. Familiares de outros pacientes tinham ficado pasmos, mas esse homem foi a única pessoa que chorou quando falei sobre minhas projeções, explicando que, se o teste corresse bem, Delilah Ray falaria suas primeiras palavras coerentes depois de um ano de confusão linguística pós-derrame. Aos olhos dele eu não era simplesmente mais uma cientista ou fonoaudióloga numa longa fila de produtores de diagnóstico e gente bem-intencionada. Eu era uma deusa que podia trazer de volta vozes perdidas.

Era.

Agora ele me olha com ar interrogativo, esperando uma resposta, por isso faço a única coisa que posso: levo a mão ao rosto com o visor do contador virado para ele.

— Sinto muito – diz o carteiro.

Antes de ele sair da varanda para ir até o furgão dos correios, fecho e abro os olhos três vezes, como ele.

— Conversamos outra hora. – É só um sussurro. E então vai embora.

À minha direita uma porta bate, o som metálico do alumínio atingindo o batente. Olivia King, escondida por um guarda-chuva estampado, emerge do abrigo de sua varanda. A echarpe em volta da cabeça é cor-de-rosa, de seda ou poliéster. Isso lhe dá uma aparência de vovó, apesar de Olivia ser pelo menos dez anos mais nova do que eu. Ela examina o céu, estende uma das mãos e fecha o guarda-chuva.

Sem tirar a echarpe, sai da varanda e se senta no banco do carro. As manhãs dos dias de semana são as únicas ocasiões em que Olivia dirige; se sua igreja fosse mais próxima, ela caminharia.

Nesse momento, Olivia parece pequena, quase encolhida, um camundongo correndo de um refúgio para outro, com medo do que pode estar esperando ao longo da trajetória. É o que Jackie chamaria de cérebro de ervilha, contente com seu lugar na hierarquia: Deus, homem, mulher.

Meu repertório de doutrina religiosa é uma bosta, exatamente como eu gosto. Mas, quando Steven chegou em casa com o livro daquele curso avançado – um título de aparência inocente, Fundamentos da filosofia cristã moderna, gravado na capa, letras azuis inócuas em um fundo branco –, eu o folheei depois do jantar.

— Bem ruinzinho, não é? – disse Steven em sua segunda viagem até o armário de biscoitos na cozinha.

— Eles vão colocar isso no currículo de todos os alunos no ano que vem? Foi isso que você disse?

Meu olhar não se afastou da página, um capítulo intitulado “em busca da ordem natural na família moderna”. Como todos os outros, era precedido por uma citação bíblica. A passagem da Primeira Carta aos Coríntios informava ao leitor que “Cristo é a cabeça de todo homem; o homem é a cabeça da mulher; e Deus é a cabeça de Cristo”.

Fantástico.

Mais adiante, o capítulo 27 começava com esta máxima do livro de Tito: “Sejam capazes de ensinar o que é bom. Assim, poderão orientar as mulheres mais jovens a ser moderadas, a amar os maridos e os filhos, a ser discretas, castas, dedicadas ao lar, bondosas e a obedecerem aos maridos.” A essência do texto era uma espécie de chamado às armas, um apelo às gerações de mulheres mais velhas.

Havia capítulos sobre o feminismo e sua desconstrução insidiosa dos valores judaico-cristãos (além da masculinidade), conselhos aos homens em seus papéis de marido e pai, orientação aos filhos para respeitar os mais velhos. Cada página berrava um fundamentalismo de extrema direita.

Fechei o livro com força.

— Me diga que essa não é a única leitura exigida.

— Esse é o livro – disse Steven depois de beber um copo de leite e enchê-lo de novo até a metade.

— E qual é o objetivo dessa matéria? Esclarecer sobre as armadilhas do cristianismo conservador?

Ele me olhou, inexpressivo, como se eu tivesse acabado de fazer uma pergunta em grego.

— Não sei. A professora é legal. E levanta algumas questões boas. Sabe, tipo como é duro para os filhos quando os dois pais trabalham, como nós chegamos a um ponto onde as pessoas se esqueceram das coisas simples.

Coloco a caixa de leite de volta na geladeira.

— Que tal você guardar um pouco para o café da manhã dos seus irmãos? Mas que coisas simples?

Uma apresentação de slides passou na minha cabeça: mulheres cuidando do jardim, mulheres preparando pêssego em conserva, mulheres bordando fronhas à luz de velas. A seita dos Shakers praticando a abstinência até desaparecerem de vez.

— Tipo… bom… cuidar do jardim, cozinhar e coisas assim. Em vez de trabalhar com coisas idiotas.

— Você acha que eu deveria cuidar do jardim e cozinhar mais? Acha que o trabalho que eu faço é menos importante do que… por exemplo… artesanato?

— Você, não, mãe. Outras mulheres. As que só querem sair de casa e ter algum tipo de identidade. – Ele pegou o livro e me deu um beijo de boa-noite. – De qualquer modo, é só uma aula idiota.

— Eu gostaria que você largasse – falei.

— Nem pensar. Preciso dos créditos avançados para a faculdade.

— Por quê? Para se formar em pensamento cristão moderno?

— Não. Para entrar na faculdade.

E foi assim que eles conseguiram. Enfiando uma matéria aqui, um clube ali. Qualquer coisa para atrair os jovens com promessas de aumentar a competitividade.

Foi muito simples, se pararmos para pensar.