Vox

Christina Dalcher · Capítulo 15 de 80

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Vox

Quinze

 

Mesmo sem a geringonça de metal no meu pulso, o jantar esta noite é silencioso.

Steven, que normalmente tagarela em meio às garfadas de comida, não falou da escola, de Julia King nem do futebol. Os gêmeos parecem confusos e se remexem um pouco nas cadeiras. Sonia se alterna entre olhar para o prato e para meu pulso esquerdo, mas está em silêncio desde que chegou da escola. Outra coisa: não houve nenhum soquinho brincalhão entre ela e Steven.

Quanto a Patrick, ele come, leva seu prato para a cozinha e escapa para o escritório com um copo de uísque e algumas palavras curtas sobre a necessidade de cumprir um prazo. É impossível saber de quem ele sente mais raiva: de mim ou de si mesmo.

— Explique você a eles, Jean – diz Patrick antes de fechar a porta para seu santuário forrado de livros.

Bom, isso é esquisito. Não tenho uma conversa de verdade com meus filhos há mais de um ano. O que antigamente seria um debate animado sobre se Pokémon Go era perda de tempo ou a inovação mais inteligente nos jogos desde o Xbox se transformou em quatro rostos jovens em silenciosa expectativa. E eu sou o evento principal.

É melhor acabar logo com isso.

— E aí, Steven, como está indo na escola esses dias? – pergunto.

— Duas provas amanhã. – É como se ele é que tivesse uma cota diária de palavras.

— Quer que eu ajude você a estudar?

— Não. Estou bem. – Então, resolve acrescentar: – Obrigado, de qualquer modo.

Sam e Leo estão ligeiramente mais ansiosos, me golpeando com notícias sobre o novo treinador de futebol e sobre como pregaram uma peça no treino da manhã, cada um fingindo que era o outro. Os dois dominam a conversa. Acho que se acostumaram com isso.

Apenas Sonia me espia com os olhos arregalados, o tipo de olhar que faz com que eu me sinta uma pessoa nova. Ou como se tivessem brotado pelos no meu corpo. Ou tivesse me transformado num dragão. Ela não comeu nenhuma almôndega do seu prato, só umas poucas batatas que eu tinha corrido para comprar depois da briga com Patrick à tarde.

— Vou ter outro pesadelo? – pergunta ela.

Respondo automaticamente com o tipo de pergunta errada: – Por que acha isso, querida? – Então refaço a pergunta: – Não. Não vou deixar os pesadelos acontecerem. E vou contar uma história quando colocar você na cama, está bem?

Ela assente. O número em seu pulso reluz: 40.

— Estou com medo – diz ela.

— Não precisa ter medo.

Sam e Leo trocam um olhar nervoso e eu balanço a cabeça para eles. Steven leva o dedo aos lábios, seu sinal silencioso para a irmãzinha, algo normal.

Então Sonia assente de novo. Seus olhos, cor de mel e esverdeados como os de Patrick, estão úmidos com lágrimas que não caíram.

— Ainda está com medo? – pergunto.

Outra confirmação de cabeça.

— Dos pesadelos?

Agora ela balança a cabeça.

A questão é que Sonia não sabe o que os contadores de pulso fazem além de brilhar, mostrar números e pulsar, uma vez para cada palavra que ela fala. Nós tivemos o cuidado de manter isso em segredo. Talvez seja bobagem, mas nunca pude descobrir exatamente como descrever um choque elétrico para uma criança tão pequena. Seria como contar sobre os horrores da cadeira elétrica para instilar alguma noção de certo e errado. Medonho e desnecessário. Que pai relataria o funcionamento exato de uma cadeira elétrica para fazer com que o filho não minta ou roube?

Quando os contadores foram postos nos nossos pulsos – não houve período de aclimatação, nem para as crianças –, decidi abordar a situação por outro ângulo. Um pouco de sorvete, um biscoito extra antes de dormir, chocolate quente com o máximo de marshmallows que coubesse na caneca sempre que Sonia assentisse, balançasse a cabeça ou puxasse minha manga em vez de falar. Reforço positivo, em vez de castigo. Eu não queria que ela aprendesse do modo mais difícil. Como eu tinha aprendido.

Além disso, eu sabia outra coisa sobre os contadores: a dor aumenta a cada infração.

Naquele primeiro dia não tive tempo de processar o aumento constante na carga. Depois Patrick me informou, enquanto aplicava um creme frio na cicatriz do meu pulso.

— Na primeira palavra depois das cem, você recebe um choque leve, Jean. Nada que machuque, só um pequeno tremor. Um alerta. Você vai perceber, mas não vai doer de verdade.

Fantástico, pensei.

— Para cada dez palavras além da cota, a carga aumenta em um décimo de microcoulomb. Se receber meio microcoulomb, você vai sentir dor. Se chegar a um microcoulomb… – ele parou e desviou o olhar – a dor fica insuportável. – Ele pegou minha mão esquerda e verificou o número no contador. – Uau, 196. Graças a Deus você não continuou falando. Mais algumas palavras e teria chegado a um microcoulomb.

Patrick e eu tínhamos ideias diferentes sobre o significado de “dor insuportável”.

Ele continuou a falar enquanto eu apertava um saco com ervilhas congeladas na queimadura circular e mantinha os olhos voltados para a porta fechada do quarto de Sonia. Os meninos estavam lá com a irmã, por insistência de Patrick, sem dúvida para garantir que ela não falasse. Ninguém queria uma repetição do show da Mulher Eletrocutada, principalmente com uma criança de cinco anos no papel principal.

— Acho que aconteceu o seguinte, amor. Acho que você falou tão rápido que o dispositivo não conseguiu acompanhar. – Agora havia lágrimas em seus olhos. – Amanhã de manhã vou falar com alguém sobre isso. Prometo. Meu Deus, sinto muito.

Só precisei de um segundo para imaginar minha menininha caindo da cadeira, sem ideia do motivo para estar sentindo dor, e para minhas entranhas se transformarem em fogo líquido. Por isso preferi a abordagem pavloviana, me concentrando na recompensa, como se estivesse treinando um cachorro, tudo pelo bem maior, pensei na época.

Agora, no meio dessa estranha não conversa à mesa de jantar, percebo que não precisaria ter me incomodado.

As lágrimas de Sonia começaram a rolar, caindo no prato de almôndegas intocadas e batatas como gordas gotas de chuva.

— Aconteceu alguma coisa ruim na escola hoje?

Um único movimento de cabeça confirmando. Subindo uma vez, descendo uma vez, uma confirmação enfática. Consigo pescar qualquer segredo que ela esteja guardando.

— Certo, menininha. Pronto, pronto… – Estou acariciando seu cabelo, tentando acalmá-la enquanto só quero gritar. – Alguém disse alguma coisa a você?

Um gemido minúsculo escapa dos seus lábios.

— Outra menina?

Agora sua cabeça se move para a direita, depois para a esquerda, embaixo da minha mão. Não foi uma aluna.

— Um professor? – Capto seu olhar, só um movimento rápido, indo de mim até Steven. E eu entendo. – Steven, é sua vez de lavar os pratos, está bem?

Ele me lança o Olhar.

— Por favor.

Não espero que isso funcione, mas seus olhos se suavizam, e meu filho pega os pratos, tendo o cuidado de não os empilhar antes de estarem lavados. Faz uma pequena reverência, uma coisa insignificante, mas não consigo deixar de ver o reverendo Carl Corbin e o modo como ele estendeu a mão esta tarde, me oferecendo um lugar para me sentar na minha própria sala.

Oferecendo, penso, e palavras surgem na minha cabeça como peças de Scrabble. Oficioso. Oficial. Ofensivo. Of… foda-se.

Os gêmeos se juntam à turma da limpeza com Steven, sem muita objeção, e Sonia e eu somos deixadas sozinhas à mesa.

— Você está bem, querida?

Encosto a mão na sua testa. Há um instante minha menina estava suando feito um gim-tônica esquecido numa varanda no verão; agora se acalmou um pouco. Não está suando, mas também não está tranquila.

Agora, olhando Sonia acompanhar Steven com o olhar, vejo-a ficar mais calma a cada passo que ele dá na direção da cozinha. Isso é o pior, porque agora sei do que Sonia está realmente com medo.

Não falo, só inclino a cabeça na direção do lugar onde Steven está raspando restos de carne moída e batatas dos pratos, cantarolando alguma música antiga.

E ela assente.

Steven tinha onze anos quando sua irmãzinha nasceu. Tinha jeito com ela, mantinha-a distraída e feliz, trocava fraldas cheias de cocô sem mais do que um “Nossa, mãe, que fralda mais cagada!”. Poucos pré-adolescentes aprendem a linguagem de sinais dos bebês, mas meu filho mais velho aprendeu. Com pouco mais de um ano, Sonia tinha sinais para todo o seu mundo: comer, beber, dormir, brincar e – seu predileto – fazer cocô. Steven imitava esse gesto específico, frequentemente acompanhado pelas palavras, uma tradução de alguma língua primitiva, um sistema tão misterioso que nem a Dra. Jean McClellan seria capaz de decifrar.

Ele se lançou numa música tão grotescamente modificada que eu não sabia o que pensar. Patrick quase cuspiu o café ao som de Steven cantando.

Havia o The Police e seu du-du-du-da-da-da – ou seja lá como é. Havia aquela do Lou Reed sobre as “garotas de cor” cantando “du-du-du” – ultrarracista agora, mas era o Lou Reed e ele podia fazer qualquer merda naquela época que ninguém se importava. Havia aquelas bandas da Motown e os brancos que queriam tocar como uma banda da Motown, e havia tudo quanto é compositor no mundo moderno que tropeçava numa letra e acabava enchendo o espaço com todo tipo de som. E, finalmente, havia meu filho cantando todo o repertório desde Brahms até Beyoncé, substituindo cada palavra por “cocô”.

Essas lembranças tornam o presente muito mais difícil, mas por fim eu digo: – Steven foi na sua escola hoje?

Confirmação de cabeça.

— Você quer contar?

Não. Ela não quer.

— História para dormir, então? – pergunto.

Deixo-a ir para o quarto, lembrando-a, sem muita convicção, para escovar os dentes. Eu a observo se levantar da mesa de jantar e seguir pelo corredor até o banheiro que ela tem só para si, agora que os gêmeos estão naquela idade em que o local de mijar separado se torna importante. As dobradiças da porta de Patrick nem ao menos guincham quando Sonia passa correndo por ela.

Arranco a história de Steven. Talvez não seja a melhor tática materna, mas estou furiosa.

— O que aconteceu na escola da Sonia hoje, Steven? – pergunto depois de mandar Sam e Leo para a sala.

Eles estão ansiosos para ir, principalmente porque, sem o irmão mais velho, os dois têm alguns minutos sozinhos com o controle remoto.

Steven dá de ombros e não se vira para mim.

— Eu gostaria de uma resposta, filho – insisto, e aperto seu ombro, forçando-o a se virar.

Só agora vejo o pequeno broche na sua gola, mais ou menos do tamanho de uma unha do mindinho. Dentro do círculo prateado, em um fundo branco, está a letra P em azul vívido. Já vi isso antes.

A primeira vez foi na televisão, durante aquele programa ridículo em que as três mulheres vestidas com conjuntinhos combinando e brandindo Bíblias destroçaram Jackie Juarez. Menos de uma semana depois vi aquilo decorando um dos vestidos de igreja de Olivia King quando ela bateu à minha porta perguntando se eu tinha um ovo para emprestar.

Deveria ser um símbolo de solidariedade, acho, esse discreto P que agora é usado tanto por homens quanto por mulheres. A filha de Olivia, Julia, tem um, e às vezes eu via o mesmo broche quando ia à mercearia ou à lavanderia a seco pegar as camisas de Patrick. Encontrei a Dra. Claudia, minha ex-ginecologista, no correio, e até ela estava com um, mas suspeitei que o marido dela tivesse mais a ver com essa escolha de acessório do que a própria Claudia. Sei que o P significa “Puro”: Homem Puro, Mulher Pura, Criança Pura.

O que não sei é por que meu filho está usando esse broche.

— Quando você começou a usar isto? – pergunto, passando o dedo no seu colarinho.

Steven afasta minha mão como se fosse uma mosca incômoda e volta a enxaguar os pratos e colocá-los na lavadora.

— Arranjei um dia desses. Não é grande coisa.

— Arranjou? Tipo… como? O broche caiu do céu? Você achou no meio da rua?

Sem resposta.

— Não se arranja simplesmente uma coisa dessas, Steven.

Ele passa por mim, enche um copo com leite e toma tudo em um só gole.

— Claro que ninguém arranja, mãe. A pessoa precisa merecer.

— Sei. E como isso acontece?

Outro copo de leite desce pela goela de Steven.

— Guarde um pouco para o cereal amanhã – digo. – Você não é o único ser humano nesta casa.

— Talvez você devesse ir comprar mais uma caixa, então. É seu trabalho, não é?

Minha mão voa por vontade própria e a impressão da minha palma surge, nítida, na bochecha direita de Steven.

Ele não se abala, não levanta a mão, não reage, a não ser dizendo: – Legal, mãe. Muito legal. Um dia isso vai ser crime.

— Seu merdinha.

Agora ele está presunçoso, o que torna tudo pior.

— Vou dizer como mereci o broche. Fui recrutado. Eles precisavam de voluntários da escola dos garotos para fazer rondas nas escolas das meninas e explicar umas coisas. Eu aceitei. E nos últimos três dias estive em campo demonstrando como os braceletes funcionam. Olha. – Ele levanta uma das mangas e mostra a marca de queimadura no pulso. – A gente vai em duplas e se reveza. Assim, todas as garotas, como Sonia, sabem o que vai acontecer. – Como se quisesse me desafiar de novo, ele engole o restante do leite e lambe os lábios. – Por sinal, eu não a encorajaria a aprender a língua de sinais.

— Por que não?

Ainda estou tentando absorver o fato de que meu filho levou choques de propósito para que “garotas como Sonia saibam o que vai acontecer”.

— Mãe, sinceramente… você, mais do que ninguém, deveria saber. – Sua voz assumiu o timbre de alguém muito mais velho, alguém cansado de explicar como as coisas são. – Trocar sinais é contra o propósito do que estamos tentando fazer aqui.

Claro que é.

— Olha, não posso contar os detalhes, mas há pessoas pesquisando novos… você sabe, dispositivos. Vão ser mais parecidos com luvas. É só isso que eu posso dizer. – Ele fica mais empertigado. – Ah, e que eu me ofereci como voluntário para testar.

— Você o quê?

— Isso se chama liderança, mãe. E é o que os Homens Puros fazem.

Não sei o que dizer, por isso falo a primeira coisa que me vem à mente: – Seu babaca.

Steven dá de ombros.

— Tudo bem.

Em seguida, sai da cozinha pisando duro, deixando o copo na bancada ao lado de um bilhete que diz Comprar leite.

Sam e Leo estão junto à porta da cozinha, me olhando, por isso não ouso chorar.