Vox

Christina Dalcher · Capítulo 37 de 80

Páginas do PDF

Vox

Trinta e Sete

 

Todo mundo, menos Sonia, já saiu de casa quando o furgão do carteiro surge na rua. Ele se desvia de poças a caminho da minha caixa de correspondência, perscrutando o monte de envelopes em sua bolsa.

— Bom dia, Dra. McClellan – diz ele.

— Bom dia.

— Ah, não desperdice palavras com gente como eu, senhora. Eu entendo.

Levanto os pulsos.

— Suspensão temporária, cortesia do irmão do presidente.

— Não entendo.

— Voltei a trabalhar. E precisaremos de pacientes para os testes clínicos.

Ele absorve a mensagem.

— É uma ótima notícia. Posso contar à Sharon? É a minha esposa.

— Claro.

— Ela vai ficar muito feliz. Minha mãe sempre tratou Sharon como uma filha. – Seu rosto fica sombrio. – Sei que ela vai ter de usar um desses contadores, mas mesmo assim… Cem palavras por dia é melhor do que nenhuma, não é?

— Acho que sim – digo, sem saber direito se concordo ou não. Estou tentando ler os endereços dos remetentes nas cartas, mas ele segura os envelopes perto do corpo. – Será que sua esposa iria querer trabalhar como babá? Eu tenho uma filhinha, e a pessoa que estava cuidando dela… bom… não está mais disponível.

— Acho que podemos dar um jeito. – Ele levanta a aba de metal e olha dentro da caixa trancada. – Ah, vocês estão enviando correspondência hoje. Só um segundo.

Ele pega o chaveiro preso à cintura e separa uma chave que parece nova, prateada, com dentes num padrão idêntico às que Patrick carrega. A portinhola da caixa se abre e ele tira um único envelope, cobrindo cuidadosamente a área do destinatário com a palma da mão. Tranca a caixa de correio de novo e, quase como numa decisão de última hora, deixa as cartas que estão na sua mão deslizarem pela boca de metal.

— A senhora é Pura, Dra. McClellan? – pergunta ele, piscando três vezes antes de virar os olhos para a câmera que está na nossa porta da frente. Um lembrete.

Balanço a cabeça. Não é bem um balanço, apenas um leve movimento para a direita e a esquerda. Lento, mas nítido o suficiente para passar a mensagem.

— Hum – diz ele. – Bom, deixe-me ligar para minha esposa e ver o que podemos fazer a respeito de sua menina. Qual é o nome dela?

— Sonia.

— Nome bonito. – O carteiro fala algumas palavras para seu relógio, que solta um bipe assim que ele termina. – Sharon, querida, estou com aquela doutora, aqui em AU Park, e ela precisa de uma ajudinha com a filha. Que tal eu mandá-la aí para casa daqui a pouco? – Outro bipe, e ele encerra a ligação. – Rá-rá. Pisque uma vez para sim, duas para não, lembra?

Não tenho a mínima ideia do que ele está falando.

— Beleza. É melhor eu continuar com minha rota. Quando vir a Sharon, diga a ela que vou chegar tarde hoje. Preciso fazer um turno extra, ganhar mais um dindim, manter o fogo aceso e todo aquele lixo. Entende o que eu digo?

— Claro – respondo, mas estou começando a achar que o Sr. Carteiro e eu falamos línguas incompatíveis. – E vou deixar meu número, para a gente marcar a consulta da Sra. Ray.

Ele escreve num pedaço de papel couché, de um anúncio.

— Odeio essas coisas. Todo mundo odeia propaganda pelo correio. Mas não posso fazer nada. Bem, o endereço é esse. Sharon vai esperar a senhora.

Pego o papel.

— Obrigada. Faço contato em breve.

E ele vai embora, de volta pelo cascalho da entrada de veículos, desviando-se de poças e assobiando. É um assobio curioso, não é de fato uma música, mas ainda assim é melodioso, e há uma leve familiaridade.

Quando entro, Sonia ainda está assistindo a um desenho animado.

— Não, querida. Vamos desligar isso um pouco.

— Não!

No tempo que demoro para achar o controle remoto, Julia King surge na tela. Está usando um hábito cinza e feio de mangas compridas que vai até os tornozelos, mesmo neste calor. Seu cabelo está curto. Não me lembro de terem feito isso com Annie do Sr. Picape Azul, mas talvez eles tenham mudado alguma coisa, introduzido um novo tipo de humilhação no ritual. O reverendo Carl está ao lado dela, sóbrio e triste, e começa a recitar os trechos relevantes do manifesto dos Puros. “Não penses em ti mesmo, mas nos outros, como Cristo obediente até a morte, mesmo morrendo na cruz como um servo, aceitou seu fardo”, “Se sofreres pelo que é certo, és feliz. Pois é melhor, se assim for a vontade de Deus, que tu sofras. Pois essa aflição, que dura apenas um instante, é tua chave para a luz eterna e a glória no reino do céu”.

Blá-blá-blá-blá-blá.

Sonia se empertiga, mais atenta do que quando estavam passando desenhos.

— Julia? – diz ela.

— Não – minto. – É só uma garota parecida. – Desligo a televisão enquanto o reverendo Carl começa outra das suas asneiras. – Venha, vamos nos arrumar. Vamos ver uns amigos novos hoje.

Faço três coisas. Primeiro obrigo Sonia a escovar os dentes por mais de cinco segundos. Depois corro para o banheiro e vomito chá e torrada no vaso sanitário. Em seguida, desdobro o panfleto que o carteiro me deu e leio.

Há um endereço. E também um aviso.

Não se surpreenda demais.