Vox
Quarenta e Sete
D ois minutos atrás, meu nome deixou de ser Jean.
Meu nome agora é ladra.
Ou traidora, penso, e por um momento imagino que tipo de castigo o reverendo Carl e seu bando de Homens Puros escolheram para os subversivos. Num mundo em que as mulheres são mandadas para a Sibéria de Dakota do Norte por crimes insignificantes como a fornicação, onde Jackie cumpre prisão perpétua num campo de concentração para homossexuais, certamente há algum horror novinho para mulheres que roubam segredos de Estado.
Eles vão me levar, isso é certo. Nunca mais vou ver meus filhos, ou Patrick, ou Lorenzo.
Tento imaginar uma vida em que passo cada dia vendo as fotografias mentais de todo mundo se desbotarem com o tempo até que não reste nada além de uma silhueta fraquíssima. Ou talvez eu não precise fazer isso. Talvez minha última imagem seja do interior de um capuz enquanto o nó corrediço passa em volta do meu pescoço, ou o capacete melado de gel de uma cadeira elétrica sendo preso firmemente na minha cabeça careca, ou uma agulha penetrando minha veia.
Não, não seria uma agulha. Seria gentil demais.
O relógio toca doze badaladas, acompanhando meus batimentos cardíacos. Posso sentir cada batida nos ouvidos, como os tímpanos de uma orquestra.
Mas já cheguei até aqui. Que diferença faria ir um pouco mais longe?
Tranco a caixa de correio depois de pegar o conteúdo, apenas aquele envelope, e volto para casa. Apesar do ar parado e quente do lado de dentro, um calafrio sobe e desce pelos meus braços, eriçando os pelos num braile de arrepios.
Para nós a coisa não é tão ruim quanto para Winston Smith, tendo de se agachar num canto cego de seu apartamento de um cômodo enquanto o Grande Irmão vigia através de uma tela na parede, mas temos câmeras. Há uma na porta da frente, uma na dos fundos e uma acima da garagem, apontada para a entrada de veículos. Eu as vi sendo instaladas um ano atrás, no dia em que Sonia e eu recebemos os contadores. Ninguém poderia monitorar todas as casas o tempo todo – não existe gente suficiente para a vigilância constante. Mesmo assim, tenho o cuidado de manter o envelope pardo grudado no corpo enquanto dou as costas para a caixa de correio e volto pela porta da frente. Então vou da sala de estar para a de jantar e sigo até o lavabo na lateral da cozinha. Parece um lugar bem privado.
Dentro, eu me sento no chão, com as costas apoiadas na parede, e desamasso as pontas do grampo de metal.
A folha de rosto está ali, o mesmo memorando que li ontem à noite. Embaixo há três conjuntos separados de documentos, cada um preso com um clipe numa capa colorida, uma branca, uma dourada e uma vermelha. Abro primeiro a branca, revelando um resumo dos objetivos da minha equipe:
Desenvolver, testar e produzir em massa o soro anti-Wernicke.
Atrás dessa página estão os diagramas de Gantt usuais – a ferramenta escolhida pelo gerente do projeto – estipulando prazos para relatórios intermediários e testes clínicos. O resto do pacote consiste nos currículos da equipe. Nada de novo aqui, mas noto que o de Morgan tem apenas uma página, ao passo que os restantes têm meia dúzia. Arrumo as folhas como estavam e ajeito o clipe de papel antes de deixar o maço branco de lado nos ladrilhos do banheiro.
O pacote dourado é quase uma duplicata do da minha equipe. Os objetivos são:
Desenvolver, testar e produzir em massa o soro Wernicke.
Mais diagramas de Gantt e cinco currículos – todos documentando o histórico de publicações e os cargos acadêmicos de vários biólogos e químicos que não conheço – também estão nessa pasta, junto com as credenciais de Morgan. Parece que eles vêm duplicando, aumentando as apostas. É típico do governo. Por que ter uma equipe quando você pode pagar duas?
A pasta dourada vai para a pilha ao meu lado, e eu passo para o pacote da equipe vermelha, esperando mais uma redundância, mas esta é diferente.
Para começo de conversa, seu objetivo é singular:
Explorar a solubilidade do soro Wernicke na água.
Os membros da equipe nas páginas seguintes – os seis – também são cientistas, todos doutores. Abaixo de cada nome há um posto militar. Fecho os olhos com força contra a luz forte acima da pia do banheiro e penso nesta tarde, em todas as portas pelas quais passei enquanto Poe me levava pelo corredor do quinto andar até a sala de Morgan.
Um dos nomes – Winters – traz uma lembrança fraca mas nítida, ao mesmo tempo que o relógio da sala toca uma badalada. Uma hora.
Com cuidado organizo os maços de papel como estavam antes: branco, dourado e vermelho. Antes de enfiá-los de volta no envelope, verifico o diagrama de Gantt no maço branco. A linha temporal, uma barra horizontal com código de cores para as tarefas, remonta ao ano anterior, 8 de novembro, data em que o equipamento do nosso laboratório foi requisitado.
Então eu estava certa: o projeto Wernicke não foi criado ontem. Teve início sete meses atrás.
Minhas pernas não querem se levantar. São membros desobedientes, com cãibras e formigamento por eu ter ficado sentada com as pernas cruzadas no chão durante tanto tempo. Eu me encosto na pia e alongo as panturrilhas.
— Jean?
A voz do outro lado da porta do banheiro está abafada, mas é inconfundível: Patrick. Ele bate uma vez; depois a maçaneta gira.
Eu não tranquei. Não achei que precisaria.
Merda. Merda, merda, merda.
Rapidamente abro a torneira, enfiando o envelope no espaço estreito entre o espelho e a parede. Quanto Patrick abre a porta, estou jogando água fria no rosto.
— Santo Deus, amor – diz ele. – Você está um horror.
Meu reflexo concorda. Círculos de rímel manchados de suor nos olhos, a blusa de algodão que vesti hoje de manhã se gruda na pele como uma fina camada de cola e meu cabelo está escorrido ou espetado em todos os lugares errados. Fecho a torneira e me enxugo, sorrindo meio sem graça para Patrick, que parece muito menos bêbado e muito mais preocupado.
— Não estava me sentindo muito bem. Deve ter sido a pizza.
Ele encosta a mão na minha testa, uma mão fria, limpa, de médico, a pele rosada e lisa. Por um instante penso nas mãos de Lorenzo e em como elas são diferentes. Penso em como as mãos de Patrick podem não ser tão limpas como parecem.
— Você nunca fica doente, amor. – Depois, diz com um risinho: – Bom, a não ser que esteja grávida.
Tento rir junto com ele, mas minha voz sai rouca, esquisita.
— Você não está…
O olhar de Patrick vai do meu rosto para minha barriga, e ele franze a testa. Ele não é idiota. Com a matemática e seu conhecimento de embriologia, deve saber que é impossível. Nossa vida sexual nos últimos meses significa que estou grávida de três dias ou carregando uma bola de praia por aí.
— Claro que não – digo. – Acho que foi mesmo a pizza. O gosto estava estranho.
— Certo, então. Volte para a cama.
Ele pega minha mão e apaga a luz do lavabo, me tirando da minha leitura noturna.
— Já vou indo, depois de beber um copo d’água. E talvez eu ligue para Papà, já que estou de pé.
Quando os passos dele se afastam pelo corredor em direção ao nosso quarto, tiro o envelope do esconderijo temporário, volto à varanda da frente e reverto o processo do roubo. Paro na cozinha para pegar um copo d’água gelada e bebo enquanto digito de cabeça o número do celular do meu pai.
– Pronto – diz ele, não parecendo nem um pouco meu pai, mas um homem muito mais velho.
— Papà, é Jean. Como vai Mamma?
Sua voz me diz tudo, mesmo antes de ele falar as palavras “dano cerebral”, “aquela área que começa com W” e “por que não posso mais conversar com ela?”.
— Você pode dar um jeito nela, Gianna?
— Claro que posso. – Injeto o máximo de confiança possível na voz, esperando que isso camufle o tremor evidente que sinto na garganta. – Em breve, Papà. Em breve mesmo.
Depois de mais um copo d’água, a maior parte da qual acabo passando no rosto, sigo pelo corredor até nosso quarto.
Patrick está roncando de novo.
Deixo as chaves no tapete, ao lado da mesinha de cabeceira, e me arrasto para a cama, para seis horas de sono.