Vox

Christina Dalcher · Capítulo 68 de 80

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Sessenta e Oito

 

Às cinco horas de domingo, no que deveria ser uma tarde luminosa anunciando o verão, com cheiro de churrasco e besouros no jardim, Morgan nos informa que ninguém vai para casa.

— O refeitório é no terceiro andar, pessoal. Dormitórios no sexto e no sétimo. Se precisarem dar um telefonema, peçam ao sargento Petroski. – Morgan indica com a cabeça um posto de segurança improvisado na entrada do laboratório. – Boa noite, gente – diz ele, antes de dar meia-volta e sair.

— Fique perto das jaulas quando passar pela sala dos chimpanzés! – grito para ele.

A ideia de Morgan tendo o rosto retalhado por animais de laboratório furiosos me provoca um arrepio de satisfação. Viro-me para Lorenzo.

— Petroski é a chave. Como vai o trabalho?

Ele se apoia no encosto do banco de laboratório, dando um sorriso largo.

— Está feito.

— O quê?

Lorenzo me explica a química.

— Preciso de seus olhos nisto, Gianna. – Ele aponta para um conjunto de correlações entre a antiga neuroproteína que testamos na Sra. Ray e a fluência semântica, depois desce um dedo pela página até as anotações em que passou a tarde trabalhando. – Parece bom?

Parece fantástico. Também parece que libertamos o próprio diabo.

— Com essa quantidade, Enzo, estamos falando de contaminação total, o rompimento completo de… – comparo os números com meus dados pela segunda vez – … de mais de três quartos do giro temporal superior. Esqueça a disfluência da Sra. Ray; essa coisa transformaria Henry Kissinger num mudo. Em cinco segundos.

O sorriso não sumiu do rosto dele.

— É lindo, não é?

Dependendo de qual é sua ideia de beleza, penso. Tenho uma ideia deliciosa que deve estar estampada na minha cara, porque Lorenzo ergue uma das sobrancelhas.

— Creia que possa preparar isso em algumas horas. Tem uma primeira cobaia em mente?

— O que acha? – digo, examinando o laboratório.

Ninguém parece estar nos ouvindo. As poucas conversas se concentram no reverendo Carl e naquele “pobre garoto. O que será que ele fez?”

— Acho – responde Lorenzo, mexendo uma sobrancelha e depois a outra – que grandes mentes pensam igual.

— E às vezes nós também – completo. – Melhor Morgan do que uma daquelas mulheres. – Eu aponto o queixo para as portas trancadas do outro lado do laboratório. – Você viu quantos chimpanzés restam. Quando todos morrerem, Morgan vai querer subir pela cadeia alimentar dos grandes primatas.

Lorenzo para de mastigar a ponta da caneta e bate com ela de leve nos dentes. É um hábito antigo, que eu não o via fazer há mais de um ano.

— Temos um problema – diz ele.

— O que é? Faz as pessoas ficarem azuis?

O bom humor desaparece do seu rosto.

— Não, azul, não.

— Ah, meu Deus. É letal?

— Talvez.

Ele aponta para uma série de fórmulas no caderno entre nós.

— Elas não se parecem nada com as fórmulas antigas. – Enquanto continuo lendo, o trabalho de Lorenzo fica claro. – Isso não é solúvel em água. Nem injetável na corrente sanguínea.

— Correto. Se você tentar injetar, vai fritar o cérebro dele. O soro precisa ser administrado por via local. In situ, como diria César. Uma coisa é reparar células. Se errar o alvo, tudo bem, não é grande coisa, alguns neurônios extras vão ficar felizes. Destruí-los são outros trezentos.

— Outros quinhentos. – A correção vem naturalmente, tão naturalmente que não a escuto acima da palavra que está gritando no meu cérebro: Trepanação. – De jeito nenhum, Enzo. Nunca vamos conseguir.

Além disso, a ideia de usar uma furadeira elétrica tão perto de um cérebro humano, até mesmo o de Morgan, me deixa nauseada.

— Talvez não. – Ele olha em volta, contando cabeças com a ponta da caneta. – Temos cinquenta pessoas aqui, sem contar nossos garotos de azul. Alguns deles parecem ter sido recrutados jovens, saídos da escola. Mas não são tão jovens, Gianna. São no mínimo estudantes de pós-graduação. Que tal darmos uma volta por aí e ler crachás? – Ele aponta para a entrada do laboratório. – Comece por lá; eu começo pela parte de trás. Nada meticuloso, só um rápido exame de títulos, está bem? Se alguém perguntar, diga que está indo ligar para seu marido. Para falar do carro.

É verdade, preciso ligar para Patrick, pois parece que não vou sair deste prédio tão cedo. Ele vai precisar do Honda, ou pelo menos do que deixei dentro do Honda. Saio do meu metro quadrado de espaço de trabalho e começo a andar pelo corredor mais próximo, na direção da mesa do sargento Petroski. Devagar.

— Preciso dar um telefonema – digo. – Para avisar ao meu marido que não vou voltar para casa hoje.

Petroski sorri.

— Claro, senhora. Qual é o número?

— Eu digito.

— Infelizmente, preciso fazer isso pela senhora.

Claro que precisa. Provavelmente também precisa falar por mim.

Estou certa: Petroski pergunta qual é o recado e me entrega uma folha de caderno em branco e uma caneta.

— Escreva tudo aqui e eu passo o recado. Palavra por palavra.

O bilhete é curto: Venha pegar o carro, pegue o copinho de Sonia. Ela vai chorar se for para a cama sem ele. Não é de fato uma mentira, não se você colocar alguns verbos no pretérito. Entrego o papel a Petroski e pisco três vezes.

Ele pisca de volta.

— Mais alguma coisa, Dra. McClellan?

Eu me lembro de outro soldado sentado atrás desta mesa quando Lorenzo e eu chegamos, portanto Petroski deve ter chegado recentemente.

— Está de serviço esta noite?

— Sim, senhora.

Meu olhar se fixa na mão esquerda dele.

— Você é casado.

Claro que é.

— Sim, senhora. Este mês fazemos dois anos. – Sua boca se curva num sorriso sem graça. – Nós namoramos desde o ensino médio.

— Eu me casei nova. – Só não acrescento que tenho dúvida se foi uma das decisões mais inteligentes para nosso relacionamento. – E tive filhos nova também. Você tem filhos?

Petroski hesita, e o sorriso tímido some.

— Sim. Uma menina. Fez um ano em abril. – Mais baixo, ele diz: – Um ano. Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Olha, não sou cientista nem nada. Tenho diploma do ensino médio e algumas horas numa faculdade comunitária. Depois me alistei. Achei que o Exército me daria um salário estável e tudo o mais. Além disso, a senhora sabe, se fizer vinte anos de serviço, a gente recebe pensão. É uma segurança financeira, e coisa e tal.

— Eles fazem com que pareça algo bom.

Petroski se inclina para a frente.

— Mas sei uma coisa ou outra sobre filhos. Sou o mais velho. Tenho cinco irmãos. O mais novo nasceu quando eu tinha quinze anos. O nome dele é Danny. Um bom garoto.

Confirmo com a cabeça. O sargento Bom Samaritano continua: – Danny sabia o que significava “não” quando tinha cinco meses. Antes de um ano sabia falar “mamãe”, “papai” e “Bu”. Bu era o nome do nosso cachorro. As frases dele não faziam muito sentido, mas o que importava é que estava falando. E então… – Petroski dá um tapa na mesa – Pou! Duas palavras, perguntas, coisas tipo “Cadê Bu?” e “Quer suco”. Era uma espécie de milagre, sabe?

Sei. Vi quatro bebês passando por todos esses estágios. Balbuciar pré-linguístico; holófrases, de uma palavra; frases com duas palavras, geralmente nada mais do que um sujeito e um predicado. Depois, como disse Petroski, pou. Tudo começava a acontecer. Aos três anos Steven fazia exigências: de manhã me leva pra escola; à tarde por favor faz chocolate.

Mas conheço o outro lado, e Petroski também.

— Uma vez eu vi um documentário, senhora – prossegue ele. – Não consegui assistir tudo, era horrível demais. Umas pessoas mantiveram a filhinha trancada num quarto e não falaram com ela durante uns doze anos. Doze anos, senhora. Dá para imaginar?

Balanço a cabeça, mesmo podendo imaginar. Isso aconteceu em casos raros.

Petroski continua, um linguista de poltrona de TV que não percebe como está certo: – Então se você pegar uma criança, qualquer criança, e deixar ela falar, ela fala. Se não deixar… – a outra mão bate na mesa entre nós: pou –, é isso aí. É como se tivessem um relógio dentro.

— Elas têm.

Não preciso mencionar ao sargento Petroski as hipóteses do período crítico, também conhecidas como teoria “use ou perca”. Ele saca, mesmo sem o jargão chique.

— Então minha pergunta é – diz ele, me encarando. Seus olhos estão calmos e azuis, mas há dor ali. – Minha pergunta é: o que vai acontecer com minha filhinha se ela não falar? Se ficar igual aquela tal de Genie? E acabar num abrigo?

Tenho mil respostas para ele, e nenhuma. Genie, a criança do documentário, nunca aprendeu a falar. Depois de anos de exames e pesquisas por parte de linguistas com mais interesse no próximo grande livro do que na própria Genie, a garota acabou exatamente onde Petroski sugeriu. Em algum abrigo.

Depois de dar os últimos toques na mensagem para Patrick, entrego-a a Petroski. Ele segura minha mão.

— A senhora pode ajudar? A senhora é médica, não é?

Assinto. Mais ou menos.

— A senhora pode ajudar? – Ele para, olha para as três divisas na manga e diz: – Eu fiz um juramento, a senhora sabe. Talvez devêssemos tentar aguentar. Esse negócio Puro não pode durar para sempre.

É hora de jogar lenha na fogueira: – Você está certo. Provavelmente não vai durar. Mais alguns anos e o reverendo Carl vai ser apenas uma nota de rodapé num livro de história. Mas, claro, ele pode ficar por aí um tempo.

— É. – Petroski está em cima do muro.

— Sabe, sargento – continuo, inventando enquanto falo, me odiando um pouco à medida que atiço as chamas. – Eu li um artigo há alguns anos. Nós pensávamos que as crianças tinham até os treze ou catorze anos para, você sabe, esse pou acontecer. Mas vou lhe dizer, como especialista: elas têm muito menos tempo. Três, quatro anos, talvez. Depois disso, o cérebro meio que… – procuro a palavra certa – desliga.

Seu rosto empalidece, e eu me encolho, ainda que essa seja a reação que eu desejava.

— Bom, é melhor eu voltar ao trabalho.

Melhor dar alguns minutos para ele pensar enquanto elaboro os detalhes com Lorenzo.

Deixando-o com a chave do Honda na mesa, retorno para meu canto do laboratório, desta vez por um caminho diferente. Metade dos crachás está virada do lado errado, mas leio uma dúzia deles, tendo em mente o conselho de Lorenzo para me preocupar apenas com os títulos.