Vox
Setenta e Nove
Planejei o enterro de Patrick como um evento discreto, mas olhando em volta, para o grupo de homens e mulheres na pequena fazenda dos Ray, percebo que meus esforços foram em vão. Vizinhos que eu não achava que se importavam estão aqui, inclusive Olivia e Evan King. Julia também, claro. Ela e Steven estão conversando com o ar hesitante de crianças amedrontadas – o que, eu sei, é o que os dois são. Alguns poucos amigos vieram de carro da Costa Oeste, já que as viagens aéreas foram interrompidas temporariamente.
Todo o país está em meio a uma transição caótica graças a Patrick.
Em muitos sentidos, eu ainda o amo. Em muitos sentidos, lamento sua morte.
Os rádios e as televisões ficaram mudos nos primeiros dias, e os jornais estão publicando matérias velhas. Washington está mais trancada do que um cofre de banco. O furacão do terror pode ter acabado, mas todos sabemos que a tempestade vai permanecer por um tempo. Todos sabemos que ainda não estamos em segurança.
Mas Del e Sharon decidiram ficar, e Jackie vai permanecer na fazenda para ajudar com a resistência, para tirar o entulho e reconstruir.
— Eu também vou ficar – afirmo depois de enterrarmos Patrick. – Eu quero.
Ela me trata com a mesma mão pesada de sempre, de quando éramos jovens e idiotas. Ou quando eu era idiota. Não creio que Jackie algum dia tenha sido idiota.
— Você precisa ir – retruca Jackie. – Agora mesmo. – Quando tento protestar, ela põe a mão na minha barriga. – Você sabe que precisa, Jeanie.
Ela está certa, claro. Jackie sempre esteve certa com relação a algumas coisas. Ela me abraça, agora magra e musculosa devido ao trabalho físico, e no abraço eu sinto tudo. Gratidão. Orgulho. Perdão. Não mais uma bolha ao meu redor.
— Vá, garota. Seu homem está esperando – diz ela, e me solta.
Meu homem.
Parece cedo demais para pensar em Lorenzo como meu homem, meu amor. Mas sinto sua mão na minha cintura, às costas, enquanto ele me leva para a casa da fazenda. O gesto é simples e complexo ao mesmo tempo. Parte de mim quer dar meia-volta, correr para o monte de terra onde Patrick está enterrado, só que não faço isso. Fico com Lorenzo e reúno as crianças, pedindo para começarem a fazer as malas.
Talvez um pequeno pedaço de mim permaneça aqui nesta fazenda. Para fazer companhia a Patrick.
Chris Poe apenas balançou a cabeça quando perguntei o que aconteceu no centro da cidade. Mas insisti. É bom ser capaz de insistir de novo, mesmo que a informação seja difícil de escutar.
A vida é cheia de pequenas ironias. Assim, o fato de que Morgan LeBron, o merdinha incompetente em quem dei um tiro apenas alguns dias atrás, foi a causa da morte de Patrick me surpreendeu menos do que deveria.
— Eu não estava lá dentro – disse Poe, os olhos examinando um torrão de barro entre os sapatos. – E o senhor… e Patrick… saiu correndo pela porta lateral como um javali selvagem que sente cheiro de sangue fresco.
Assenti, deixando claro que ele podia continuar.
Poe pisoteou o torrão de barro, girando o bico do sapato até não restar nada além de terra solta.
— Tudo que ouvi foi “Tranquem! Tranquem!”, e alguma coisa sobre o memorando de Morgan. Bom, isso não é verdade. – Outra bolota de barro sofreu sob o bico da bota esquerda de Poe. – Eu ouvi tiros. Você sabe como eles sempre têm aqueles caras no telhado da Casa Branca? Aqueles que ninguém nunca vê?
— Sei.
— Acho que foram eles que atiraram. Não tenho mais nada para contar, Dra. McClellan.
— Jean – falei, segurando a mão dele. – Pode me chamar de Jean.
Ele se virou para ir embora, os ombros caídos e os punhos enfiados nos bolsos. Depois olhou para trás.
— Sei de mais uma coisa, Jean. Quando seu marido levou aquele tiro, juro que ele estava sorrindo.
— Obrigada. Isso basta para mim.
E ainda basta.