Vox

Christina Dalcher · Capítulo 69 de 80

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Sessenta e Nove

 

Aproximadamente 2% da população tem doutorado. Se você ignorar os doutores em inglês, a porcentagem é menor. Muito menor mesmo.

— Contei nove – digo. – De uns doze.

Lorenzo parece que teve mais sorte do que eu com os crachás.

— Contei quinze em vinte.

Dois terços, três quartos, não importa. Estamos num laboratório cheio de especialistas. Com tempo suficiente, você pode conseguir que um macaco datilografe uma obra de Shakespeare. Num laboratório assim, você seria capaz de construir um foguete para Marte em tempo muitíssimo menor. Uma neurotoxina que embaralha o cérebro? Eu avaliaria que conseguiríamos em uma noite.

Bem a tempo para a reunião matinal à qual Patrick vai comparecer amanhã.

Examino a sala de novo. Os olhos de todos estão exaustos, mas ocupados. Lorenzo lhes dá até a manhã para conseguir algo que possa satisfazer Morgan.

— Acho que arranjei um aliado – comento.

— É?

— Ali. Na mesa da segurança.

Lorenzo estica o pescoço para olhar por cima das pessoas.

— Está brincando.

Petroski pode não ser a pessoa mais inteligente do mundo, mas tem duas qualidades que eu desejo: é forte e está morrendo de medo por causa da filha. O fato de usar um uniforme e ter um chaveiro no cinto também não é ruim.

— Dê uma olhada em volta, Enzo. Esses caras vêm trabalhando 24 horas por dia. Estão mortos de cansaço.

Quando digo isso, três homens, cada qual aparentando quarenta e poucos anos, saem do laboratório escoltados por um único soldado.

— Não vejo meus filhos há uma semana – reclama um deles.

— Filhos? – diz outro. – Meus filhos aceitam isso bem. Já minha esposa…

— Se eu não comer e dormir um pouco, vou estar ferrado amanhã. – O terceiro homem parece a ponto de dormir em pé.

— Está vendo o que quero dizer? – pergunto enquanto outras cinco abelhas operárias sinalizam que estão prontas para cair na cama. – Só precisamos esperar.

— Errado, Gianna. – Lorenzo me olha de cima a baixo. – O que você precisa é dormir um pouco. Pelo menos duas horas.

Tenho tanta chance de dormir quanto de ganhar um prêmio Nobel, mas ele está certo. Eu colidi contra a parede da fadiga a toda velocidade, e minha próxima tarefa no laboratório exige estar absolutamente alerta.

— Duas horas. No máximo. Presumindo que Morgan passe a noite aqui.

— Ele vai passar. Verifique com seu novo coleguinha na saída. – Lorenzo abre um sorriso. – E não flerte muito. Sou ciumento. – Da prateleira atrás, ele tira um tablet, passa um daqueles seus dedos absurdamente longos e elegantes, clica algumas vezes e depois me entrega. – Um pouquinho de leitura leve para você.

Leio o título na tela.

— Neuroanatomia comparativa dos primatas? Você chama isso de leve?

— No sentido literal. O iPad pesa menos de quinhentos gramas.

— Quanto o livro pesa?

— Tem umas quinhentas páginas. Você vai querer ler os capítulos 7 e 8. – Ele deve estar vendo as perguntas não verbalizadas nos meus olhos, porque continua: – Olha, eu faria isso, mas estaria começando do zero. Também não posso ler essa merda e aprontar tudo aqui embaixo ao mesmo tempo. Portanto, dê uma estudada, está bem?

Ele se vira para o computador que está atrás, puxa o teclado e começa a preencher uma requisição de animal de laboratório depois de consultar um gráfico de indivíduos disponíveis. No espaço para o número de identificação, ele digita 413, depois desce pela página até um bloco vazio e começa a catar milho de novo. Olho-o digitar sedação, trepanação e injeção intracraniana de soro experimental Wernicke 5.2.

— Ah, cara… – digo, me visualizando com uma furadeira numa das mãos e, na outra, um iPad aberto num tutorial. Não foi para isso que eu me candidatei. – Não sou realmente do tipo que põe a mão na massa, Enzo.

— Você é tudo que eu tenho. – No espaço vazio onde o formulário de requisição diz Técnico, ele escreve Dra. Jean McClellan.

— Nós precisamos fazer, não é?

— É isso ou vamos acabar matando Morgan. – Um canto da boca de Lorenzo se curva para cima. – A não ser que seja isso que você quer.

Claro que é o que eu quero. Mas não há sentido em ser gananciosa. Um Morgan mudo vai funcionar tão bem quanto.

— Certo. Estou subindo. Mande alguém me chamar se eu não estiver de volta às dez. Está bem?

— Feito.

Não paro na mesa de Petroski para pegar um acompanhante. Em vez disso, vou até o soldado mais perto e falo suficientemente alto para minha voz chegar longe.

— Preciso tirar um cochilo. Pode me levar ao dormitório?

Enquanto meu acompanhante grita para o laboratório, agora com metade dos ocupantes, perguntando se mais alguém quer ir ao refeitório ou para a cama, Petroski sinaliza para eu me aproximar, com um ligeiro movimento de cabeça.

— Dei o seu telefonema – diz ele.

— Ótimo. Obrigada.

Não quero lhe pedir ajuda, é melhor que a oferta venha da parte dele.

E vem.

— Posso fazer alguma coisa?

— Na verdade, sargento, sim.

Seu rosto, liso, sem pelos e inocente como o de uma criança, se ilumina enquanto explico, em detalhes, exatamente o que preciso que ele faça.