Vox
Sessenta e Sete
Há um televisor de tela plana no laboratório, do tamanho de um campo de futebol americano. Um tamanho razoável, suponho, considerando que os tipos de homens que compram essas coisas passam a maior parte dos fins de semana olhando outros homens jogando um pedaço de porco num pedaço de grama artificial com cem metros de comprimento.
Quando o reverendo Carl aparece na tela, vestido em seu estilo fúnebre de sempre, é impossível não fitá-lo. Além disso, alguém aumentou o volume até o máximo do tolerável.
— Amigos – diz ele, abrindo os braços daquele seu jeito característico, como se fosse o próprio Cristo Redentor. – Amigos, tenho uma notícia triste.
— Aposto que sim – sussurro para Lorenzo ao meu lado.
Ele esteve ocupado de novo com a estequiometria, uma linguagem tão estranha para mim quanto as palavras que vêm da televisão.
— Sentem-se, por favor, sentem-se.
As mãos do reverendo Carl fazem um movimento para baixo e o murmúrio da plateia diminui. É difícil dizer onde ele está, mas a multidão é grande demais para a sala de imprensa da Casa Branca. E ele se encontra num palco. No Kennedy Center, talvez. Ou no Arena Stage, no sudoeste de Washington. Mais de um ano se passou desde que vi algo parecido com entretenimento ao vivo. As peças de teatro, as poucas apresentadas, são baboseiras para famílias, censuradas até ficar irreconhecíveis, ou estão proibidas para a maioria de nós.
Ele continua lendo o manifesto dos Puros, linha por linha, afirmação por afirmação, crença por crença. O tema atual é o sofrimento. É um dos seus prediletos.
— Amigos, caros amigos, o sofrimento é uma realidade inevitável no nosso mundo terreno. Às vezes somos chamados a sofrer para fazer o bem, e neste momento ninguém sofre mais do que eu. – Agora uma pausa longa, para causar efeito. O reverendo Carl gosta de alongar as coisas, sofrendo ou não. – Temos aqui uma ovelha perdida. – A câmera se aproxima de seu rosto, sorridente e riscado com lágrimas, depois recua e mostra-o estendendo o braço direito e acenando para a coxia do palco. – Venha agora.
Uma figura solitária aparece à direita do palco. Não sei quem eu espero. Del Ray, provavelmente. Ou outra Julia King. Qualquer uma.
Só não espero meu filho.
O som chocado da multidão na TV – se é que há uma multidão; o barulho pode ser gravado – é abafado por cinquenta pessoas ofegando no laboratório. Piscando sob as luzes fortes, Steven arrasta os pés timidamente até o centro do palco, na direção dos braços estendidos do reverendo Carl.
— Ele tem dezessete anos – sussurro para Lorenzo. – Só dezessete.
Não preciso explicar; Lorenzo já viu fotos dos meus filhos. Houve um tempo em que aqueles retratos se espalhavam pela minha sala.
— Foi apanhado – diz o reverendo Carl. – Foi apanhado num lugar onde nenhum homem ou garoto deveria estar. – Ele se vira para Steven. – Não é, filho?
Steven faz menção de falar, então apenas confirma com a cabeça. A fúria ferve dentro de mim, através de cada veia e artéria, e a pressão cresce até virar um grito preso.
Perco a maior parte do resto do discurso. Não consigo ouvir nada além do som do meu coração, ensurdecendo meus ouvidos. As poucas palavras que atravessam se acomodam nas minhas entranhas como pesos de chumbo: “fornicador”, “traidor”, “exemplo”, “julgamento”.
O reverendo Carl pede que a plateia se junte a ele em oração, baixa a cabeça e segura a mão de Steven. Outro close mostra os dedos dos dois entrelaçados. Os de Carl estão enrolados como jiboias tenazes; os de Steven estão frouxos, cinco dedos impotentes com a vida sendo espremida para fora. Alguns centímetros acima da mão de meu filho se vê uma larga tira de metal em volta do pulso.
Há um milhão de anos – são apenas vinte, mas parece um milhão, parecem dezenas de milhões, como todos os tempos de vida do mundo –, Jackie me perguntou o que eu faria para continuar livre. Ontem à noite, acima de uma bancada de cozinha que parece tão distante quanto aquele apartamento em Georgetown, perguntei se Patrick faria qualquer coisa, se ele mataria.
Nesse momento, com uma fórmula pela metade na mesa e o reverendo Carl censurando Steven na televisão, junto todas as perguntas e tenho uma única resposta.
Sim, eu faria qualquer coisa. Eu mataria.
A mulher que pensa essas palavras não fala como eu.
Ou talvez fale.
E eu gosto um pouco dela, dessa nova Jean. Gosto muito mais dela quando flagro Morgan sorrindo para a tela plana.