Vox

Christina Dalcher · Capítulo 43 de 80

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Quarenta e Três

 

Não podemos nos arriscar a ligar a máquina de ressonância de novo, por isso Lin e Lorenzo sugerem um plano diferente quando falo que precisamos conversar.

— Você está passando mal – diz Lin enquanto nos aproximamos do posto da segurança. – Vamos levá-la até seu carro.

Ela está à direita, fingindo me apoiar, e o braço de Lorenzo envolve minha cintura. Nossas bolsas e pastas são revistadas, e um homem uniformizado – do Exército, acho, mas pode ser um fuzileiro – nos revista, um de cada vez.

— Estão limpos – rosna ele para outro homem, e uma luz acima da porta muda de vermelho para verde. – Tenham um bom fim de semana.

O soldado diz isso como se não tivesse acabado de passar cinco minutos nos apalpando, como se este fosse qualquer outro prédio em Washington.

A porta dupla desliza, deixando que a gente saia para a tarde do fim de maio. Lorenzo não me solta, apenas me segura com mais força, encostando o quadril no meu. Alguém provavelmente está olhando das janelas cinco andares acima, por isso eu paro e me dobro ao meio, com as mãos apoiadas nos joelhos, como se estivesse recuperando o fôlego. Não é difícil fingir.

— Todos os projetos têm códigos de cor – digo, mantendo o foco no asfalto. – Um vermelho, um dourado. A nossa equipe é a branca.

— Morgan lhe disse isso? – pergunta Lorenzo.

— Até parece. Morgan só queria me dar um sermão sobre como o mundo era perfeito quando as mulheres ficavam em casa. Morgan não me disse nada, mas ele tinha um fichário grosso, que tentou esconder. Não adiantou, claro. Morgan é duas vezes mais idiota do que parece.

— Você pode perguntar a Patrick? – sugere Lin, agachada ao meu lado no estacionamento, de costas para o prédio. – Não, deixa pra lá. Você pode voltar ao escritório dele e dar outra olhada?

— Talvez. Patrick tem bebido mais ultimamente e hoje é sexta-feira. Talvez eu possa conseguir alguma informação.

Digo isso sem saber realmente de onde as palavras estão vindo. Esses pensamentos de espiã não podem ser meus. Jackie provavelmente bolaria um esquema para embebedar o marido e abrir as gavetas dele, mas não Jean. Em dezessete anos de casamento, nunca xeretei os papéis de Patrick, sejam pessoais ou profissionais, nunca procurei pistas de alguma amante ou de uma pulada de cerca. Certa vez, quando não consegui encontrar minha agenda, achei que tinha deixado no carro dele. Mesmo assim, enquanto abria a porta do lado do motorista, me senti uma invasora.

— Nós não escondemos segredos um do outro, amor – disse Patrick quando contei sobre a agenda perdida. – Nunca escondemos, nunca vamos esconder. Não me importo se você entrar no meu carro. Pode xeretar quanto quiser. Mas talvez você ache um lenço sujo no porta-luvas, portanto tenha cuidado. Piolhos, sabe. – Ele brincou com os dedos subindo e descendo de leve pelos meus braços enquanto dizia isso. – Cuidado com os piolhos irlandeses!

Claro, por acaso sou eu que tenho segredos. Um segredo italiano de mais de 1,80 metro.

Corrigindo: dois segredos. Um deles é mais ou menos do tamanho de uma laranja.

— É melhor eu ir – falo.

Vou demorar quase uma hora até chegar à pequena fazenda de Sharon Ray, e quero passar na casa de Olivia King antes do jantar, ligar para o hospital onde minha mãe está internada e – não esqueça, Jean – embebedar meu marido para roubar documentos secretos do governo em seu escritório. Um bocado de coisas para uma noite de sexta-feira.

Lorenzo me ajuda a entrar no Honda – não que eu precise, mas assim confere mais veracidade ao fingimento. Também dá a ele a oportunidade de falar sem que Lin ouça: – Você contou a ele?

— Não.

— Vai contar?

— Ele é médico. Vai saber que o filho não é dele.

O rosto de Lorenzo exibe uma expressão interrogativa.

— Nós não… Nós tivemos alguns meses pouco ativos.

Ele sorri.

— Sei. Então não há dúvida?

— Absolutamente nenhuma.

Já sinto o ligeiro volume, sinto o lugar onde a cintura da minha saia aperta mais do que há duas semanas. Cedo ou tarde – cedo, acho – não terei opção a não ser contar a Patrick.

Ele não vai me “dedurar”, como diria Steven. Sei disso. Mesmo se ele quisesse, a notícia atropelaria as crianças como um trem descarrilhado. Esse trem continuaria vindo, inesperadamente, na forma de um intruso enquanto Sonia assistisse a desenhos animados, durante um jogo de futebol, entre trechos de notícias na CNN. A escola se tornaria uma caminhada diária pelo inferno. Patrick saberia disso e ficaria em silêncio.

Mas a coisa, aquela coisa indizível, sempre pairaria sobre nós como uma nuvem de tempestade. Não, não pairaria. Iria engatinhar, aprender a andar, iria rir e ser uma lembrança viva de como passei uma tarde fria de março fodendo com Lorenzo. E fodendo todo o resto.

— O projeto em que eu falei que estava trabalhando… Talvez fique sabendo alguma coisa na segunda-feira – diz Lorenzo, me trazendo de volta ao estacionamento. – Espere até lá, está bem?

— O que é?

Lorenzo se empertiga, afastando a mão da minha.

— Ei, vocês dois – fala uma voz. – O que está acontecendo?

Poe está parado na frente do Honda, os braços cruzados diante do peitoral enorme, os óculos de aviador obscurecendo os olhos. Odeio Morgan, mas a única pessoa de quem morro de medo é esse gigante silencioso chamado Poe.

Consigo dar um sorriso, colocar o carro em marcha a ré e ir embora sem encará-lo.