Vox
Sessenta e Seis
Salto para frente, as pernas ainda bambas, mas Lorenzo me segura pelo braço. Seu aperto é firme, quase machucando.
— Não – diz ele. – Se ela falar de novo, o choque vai…
Ele é mais forte do que eu, mas me solto, atirando-me na direção da mulher no banco, cujo corpo está frouxo como uma boneca sem vida sob as luzes fortes no teto. Ela não está como me lembro, não usa calça jeans de cintura baixa e uma blusa com estampa louca, não está sorrindo, com uma franja de uma cor a cada semana enquanto prepara chá de ervas num apartamento vagabundo em Georgetown e xinga as instruções de montagem da mesa da Ikea que desafia mentes com vários diplomas. Está vestindo uma túnica cinza que combina com o cabelo e a cor da pele, a não ser pelas palmas das mãos, esfoladas até quase ficar em carne viva por um ano de trabalho forçado que faria até mesmo o camponês mais firme virar as costas para a terra e procurar um trabalho num escritório. Está usando uma argola preta no pulso esquerdo, onde antes ficava uma pulseira com penduricalhos em forma de animais do horóscopo chinês.
— Jacko – falo, pondo uma das mãos nos seus lábios rachados. – Jacko, não diga mais nada. Não deixe que eles piorem sua situação.
Jackie Juarez, a mulher que eu achava que faria o mundo parar de girar, relaxa nos meus braços e começa a chorar.
A porta atrás de mim se fecha deslizando, e abre de novo. Não preciso me virar para ver quem é. Sinto o cheiro do sacana.
— Morgan – digo.
Então ouço o tapa, o guincho surpreso, e o estalo metálico de uma arma de fogo sendo engatilhada. Essa é outra coisa que sei sobre as armas: você não engatilha e mira se não estiver pronto para matar.
— Cuidado, Morgan – alerto, ainda segurando Jackie. – Você precisa dele. Precisa da fórmula dele.
Ele não precisa, claro; Morgan já tem as anotações de Lorenzo. Só estou ganhando tempo.
E então me dou conta: Lorenzo correu para fora do laboratório lá em cima, para verificar em sua sala, voltou e balançou a cabeça para dizer que os papéis não estavam lá. E Morgan exigiu a fórmula para amanhã.
— Soldado – fala Morgan. – Guarde isso.
Viro-me de Jackie para Lorenzo, que está totalmente imóvel, pronto para ganhar uma bala em troca de um tapa, e percebo que Morgan não pode ter levado as anotações.
Então quem, diabos, fez isso?
A pergunta fica na minha mente, mas eu a enfio de volta num canto silencioso para mais tarde, enquanto me volto para as outras mulheres na cela.
Lin olha para mim, depois para Lorenzo. Ao lado dela está a beldade suíço-argentina que costumava ir ao nosso departamento. Ainda é linda, mesmo sem a cascata de cabelos louros descendo pelas costas.
Isabel Gerber.
As duas estão usando a mesma roupa cinza e sem graça de Jackie, sentadas lado a lado, as mãos cruzadas no colo. Argolas pretas nos pulsos.
— Pegamos as duas transando num carro – explica Morgan. – Sapatões de merda.
Lin abre a boca para falar, depois pensa bem e a fecha de novo. O processo de decisão demora um segundo, mas está ali, no seu olhar.
Por cima do ombro vejo os punhos de Lorenzo se cerrando.
— Não faça isso, Enzo. Não vale a pena.
De repente desejo não ter deixado o frasco no carro. Eu o pegaria agora e jogaria o negócio pela garganta de Morgan, com vidro e tudo. Ou, melhor ainda, iria saborear a imagem de Jackie, Lin e Isabel trancadas numa salinha com o filho da mãe. Uma sala à prova de som, sem janelas.
— Então, prontos para trabalhar agora, pessoal? – pergunta Morgan. – Ou mando uma delas para Fort Meade?
As expressões das mulheres dizem que Morgan já as colocou a par do que acontece na base militar, uma imagem vívida de cada vez.
Tempo, penso. Tudo tem a ver com tempo de uma forma ou de outra: o tempo que eu não tinha vinte anos atrás, quando os livros, as provas orais e os trabalhos para nota eram mais importantes do que as passeatas de Jackie e as festas da Federação de Paternidade Planejada. As 24 horas que vou esperar antes de descobrir se a criatura dentro de mim é um menino ou uma menina. Lorenzo precisando ir embora “enquanto ainda há tempo”, se bem que não tenho mais certeza se ainda há, pelo menos para nós dois. Os prazos rígidos de Morgan. A reunião matinal daqui a apenas dezoito horas.
A vez em que eu dei um tapa em Steven. E todos os momentos que passei desejando poder voltar atrás.
Morgan avança e pega três cadernetas cor-de-rosa e idênticas no bolso de dentro do seu paletó. Entrega-as como se fossem cartas de baralho, primeiro para Isabel, depois Lin, e em seguida Jackie.
— Não se esqueçam de ler seus manifestos, garotas – diz ele. Há uma ênfase maligna em “garotas”.
— Sério, Morgan? – digo.
— Ei, Jean, não sou eu que faço as regras. Fale com o reverendo Carl, se não gosta. – Ele olha para o meu pulso e dá um riso de escárnio. – É melhor se apressar, antes que a sua pulseira volte.
Jackie, cujos olhos estão secos durante todo esse tempo, pega a caderneta no banco ao lado e, sem ao menos olhar para ela, joga-a em cima de Morgan. Ela o acerta direto na testa, com um barulho agradável.
Ele não se curva para pegá-la, mas a chuta de volta pela saleta.
— Você vai aprender – diz ele, e sinaliza para o cabo abrir a porta interna.
Lorenzo pega a minha mão, me ajudando a ficar de pé, já que estou ajoelhada perto de Jackie.
— Fique fria, Jacko. Promete?
Ela assente.
— Vou fazer tudo que puder – acrescento.
Tudo que eu deveria ter feito, penso enquanto sigo Morgan para fora da sala, de volta à colmeia do laboratório.