Vox
Vinte e Cinco
Minha sala é algo entre uma caverna e uma cela de monge, porém menos luxuosa, devido aos pares de mesas e cadeiras espremidas dentro. Além disso, não tem janelas, a não ser que você conte o painel de vidro na porta, que dá ao local de trabalho toda a privacidade de um aquário. Um lenço e uma bolsa, ambos bem esgarçados pelo uso, estão em cima de uma das mesas. Reconheço os dois objetos; são de Lin.
Morgan sai e me deixa à vontade. Diz que vai voltar em alguns minutos para mostrar o laboratório, me arranjar um crachá e mostrar onde fica a sala da copiadora e a área da impressora. Agora sei que nada que eu fizer aqui deixará de ser visto por outros olhos.
Estranhamente, não me importo. A ideia de rever Lin, de falar com ela e trabalhar ao seu lado me deixa empolgada como uma adolescente no primeiro baile.
— Ah, meu Deus – diz um fiapo de voz junto à porta.
Lin Kwan é uma mulher pequena. Eu vivia dizendo a Patrick que ela poderia caber numa das pernas da minha calça – e eu só tenho 1,67 metro e peso 55 quilos, graças à dieta de estresse que fiz nos últimos meses. Tudo nela é pequeno: a voz, os olhos amendoados, o cabelo liso que mal chega às orelhas. Os seios e a bunda de Lin me fazem parecer uma modelo voluptuosa de Peter Paul Rubens. Mas seu cérebro… seu cérebro é um leviatã de matéria cinzenta. Só podia ser: o MIT não concede um doutorado duplo à toa.
Como eu, Lin é neurolinguista. Diferentemente de mim, é médica. Cirurgiã, para ser mais específica. Abandonou o trabalho de neurocirurgiã há quinze anos, com pouco menos de cinquenta, e se mudou para Boston. Cinco anos depois, saiu com um doutorado em cada mão, um em ciência cognitiva e um em linguística. Se alguém é capaz de fazer com que eu me sinta a burra da turma, é Lin.
E eu a adoro por isso. Ela eleva a expectativa até o Everest.
Lin entra e olha meu pulso esquerdo.
— Você também, é?
Então me dá um abraço de urso, o que é interessante, já que ela é mais baixa e mais estreita do que eu. É meio como ganhar um abraço de urso de uma Barbie.
— Eu também – digo, rindo e chorando ao mesmo tempo.
Depois do que parece uma hora, ela me solta e se afasta.
— Você não mudou absolutamente nada. Talvez esteja até parecendo mais nova.
— Bom, é incrível o que um ano sem trabalhar para você fez.
A piada não surte efeito. Ela balança a cabeça e levanta a mão, com o polegar e o indicador separados por menos de um centímetro.
— Eu cheguei perto assim de ir à Malásia visitar minha família. Perto assim. – Seus dedos se separam como uma estrela-do-mar. – Aí puf. Acabou. Acabou num maldito dia. Alguém lhe contou sobre o último modelo de monstro do pulso?
— Não só me contaram. – Em seguida, expliquei minha experiência de oito horas com a novidade. – Se eu tiver de reler aquela bosta de manifesto de novo, vou cortar minha própria língua.
Ela se empoleira na mesa, uma perna nua balançando no ar, e abaixa a voz depois de olhar para a porta.
— Você sabe que eles vão colocá-las de volta, Jean, não sabe? Assim que terminarmos.
— Não precisamos terminar rápido – digo de costas para a porta. – Mesmo se pudermos, não precisamos. – Pego o lenço de seda. – Por favor, me diga que você não começou a usar isso na cabeça.
— O que você acha?
Acho que – nos termos de Lin – isso é tão provável quanto um porco com asas. Quando digo isso, ela dá uma gargalhada.
Então fica séria de novo.
— Precisamos fazer alguma coisa, Jean. Alguma coisa além de trabalhar no projeto Wernicke.
— Eu sei. Que tal revertermos o soro e jogar no suprimento de água da Casa Branca?
Sei que isso é menos provável ainda do que Lin andar por aí com um lenço de cabeça e um broche de Pura na gola.
— Bom, é uma ideia. – Não sei se sua voz tem uma sugestão de sarcasmo ou de aprovação.
Ela se levanta e pega meu braço.
— Vamos tomar um espresso antes que Morgan, o Panaca, volte.
— Eles têm uma máquina de espresso aqui? – pergunto, deixando que ela me leve para fora da sala, pelo corredor cinza.
Todos os postos de trabalho e escritórios pelos quais passamos estão vazios.
— Não. Mas Lorenzo tem a cafeteirinha dele.
Ah, caramba.