Vox
Sessenta
Estou falando com Morgan pelo interfone antes que Lorenzo possa me impedir.
— Precisamos de acesso ao laboratório de bioquímica. – Depois, percebendo a fúria na minha voz, acrescento: – Deve haver algum erro, Morgan. Será que você pode…
Ele me interrompe:
— Não, não precisam. E não, não posso.
— O quê? – A palavra sai como se eu tivesse acabado de cuspir bem na cara de rato de Morgan, exatamente o que eu gostaria de fazer.
— Jean, Jean, Jean… – diz ele, e eu me preparo para seu sermão de professor impaciente do jardim de infância. – Se o teste com a tal Sra. Ray for bem-sucedido, seu trabalho terminou. Você e Lorenzo não têm mais serventia.
Ah, temos sim, penso.
— E Lin – completo, jogando verde. – Ou Lin não está mais na equipe?
— Claro. Quis dizer você, Lorenzo e Lin. Toda a equipe.
Lorenzo, que está ouvindo com a cabeça tão perto da minha que posso sentir seu queixo barbado espetar, intervém: – Morgan, nós precisamos do laboratório para a propagação. Temos uma quantidade limitada do soro. Você sabe disso.
Silêncio. Então Morgan responde: – Isso está sendo resolvido. Por outra equipe. Quero dizer, a propagação.
Certo. E a engenharia reversa. A equipe dourada deve estar ocupada feito uma colmeia.
Assinto para Lorenzo e aponto para a geladeira atrás dele, depois prendo o fone do interfone entre o ouvido e o ombro, deixando as mãos livres. Levanto seis dedos, depois só um.
— Maravilha – diz Lorenzo depois de abrir a geladeira e contar os frascos. Ele fala sem som: – Morgan?
Dou de ombros, como quem diz: Quem mais?
— Jean? Me ouviu? Eu falei que a Sra. Ray está aqui. Vamos levá-la para baixo dentro de alguns minutos.
— Sim, Morgan, ouvi.
Eu desligo.
Ontem à noite, ou hoje de manhã, perguntei a Patrick sobre a viabilidade de reverter o soro, transformar nossa cura numa arma usando apenas o produto.
— Dá para fazer sem as fórmulas de Lorenzo – respondeu ele na escuridão do escritório. – Se eles tiverem o tipo de químicos certos na equipe dourada.
Ele examinou as anotações, dessa vez usando meu método, a página de cima indo para baixo, em vez de virá-las e colocar de lado quando terminava. Claro que não queria ver o poema de novo. Bastava levar o tapa na cara uma vez, obrigado.
— Sem dúvida dá para fazer, só que demoraria mais. Veja bem, eles precisam isolar os componentes do produto e…
Todo o resto que Patrick disse foi um borrão. Não sou química.
— Lorenzo – digo, pegando o frasco de soro na geladeira e dois pacotes de seringas esterilizadas no armário ao lado. Finjo estudá-los e baixo a voz até um sussurro: – As anotações que eu tenho são as únicas cópias, não é?
Ele bate na bancada com a palma da mão e corre para a sala dos ratos e coelhos. Ouço a porta principal do laboratório se abrir e se fechar.