Vox
Treze
Caramba, como está quente aqui. Deve haver um vazamento no compressor do ar-condicionado de novo. Não seria um tremendo azar?
Fico de pé, a calça jeans grudando na parte de trás das pernas, e vou à cozinha encher de novo meu copo d’água.
— Patrick, pode vir aqui um segundo? – peço.
Ele roda pela sala recolhendo os copos vazios e se junta a mim.
Enquanto encho um copo depois do outro com gelo, ele segura meu pulso esquerdo.
— Você não quer isso de volta, quer?
Balanço a cabeça por hábito.
— Você deveria ver isso como uma troca, amor. Tanto você quanto eles vão ganhar alguma coisa.
— Eu deveria ver isso como é: a porra de uma chantagem.
Ele suspira como se estivesse segurando todo o universo nos pulmões.
— Então faça pelas crianças.
As crianças.
Steven não está nem aí. Está ocupado preenchendo formulários para faculdades, escrevendo trabalhos de admissão e se preparando para as provas, que estão logo ali adiante. Além disso, está de olho em Julia King durante a maior parte deste semestre. Os gêmeos, com apenas onze anos, têm o futebol e a liga infantil de beisebol. Mas há Sonia. Se vou trocar meu cérebro por palavras, farei isso por ela.
A roda de hamster na minha cabeça deve estar fazendo barulho, porque Patrick para com os copos d’água nas mãos e me vira para ele.
— Faça isso por Sonia.
— Primeiro quero mais detalhes.
De volta à sala, recebo as informações.
O reverendo Carl se transforma de político em vendedor.
— A senhora vai ficar sem o contador durante todo o projeto, Dra. McClellan. Se concordar em nos ajudar, claro. Terá um laboratório de última geração e toda a verba e apoio de que precisar. Podemos… – ele verifica a papelada em outra pasta – lhe oferecer um belo estipêndio com um bônus se a senhora encontrar uma cura viável nos próximos noventa dias.
— E depois? – pergunto, de volta à minha poltrona com a calça jeans grudando na pele.
— Bom… – Ele se vira para um dos homens do serviço secreto.
O sujeito assente.
— De volta a cem palavras por dia? – pergunto.
— Na verdade, Dra. McClellan, e estou dizendo isso estritamente em segredo, entende? Na verdade, vamos aumentar a cota em algum momento no futuro. Assim que tudo voltar aos eixos.
Ora, isso é novidade. Espero para ver que outros segredinhos ele tem na manga.
— Nossa esperança – agora o reverendo Carl está totalmente em modo de pregador – é que as pessoas se acostumem, entrem no novo ritmo, e não precisaremos mais dessas pulseirinhas.
Ele faz um gesto desdenhoso, como se estivesse falando de um acessório de moda trivial, e não de um instrumento de tortura.
Claro, nós só sentimos dor se violarmos as regras.
Lembro-me do dia em que fiquei sabendo de tais regras.
O procedimento demorou apenas cinco minutos, lá no prédio branco do governo. Os homens falaram para mim – jamais comigo, sempre de forma impessoal. Patrick seria notificado e receberia instruções; uma equipe viria à nossa casa (seria conveniente esta tarde?) instalar câmeras na porta da frente e na dos fundos, trancar meu computador e empacotar nossos livros, até O bebê aprende o alfabeto, de Sonia. Os jogos de tabuleiro iriam para caixas de papelão, que por sua vez ficariam num armário no escritório de Patrick. Eu deveria levar Sonia, que tinha saído do meu corpo apenas cinco anos antes, ao mesmo lugar naquela tarde, para que seu pulso pequenino fosse medido. Eles me mostraram uma seleção, um arco-íris de cores dentre as quais eu poderia escolher.
— Rosa seria adequado para uma menininha – disseram.
Apontei para uma prateada para mim e uma vermelho-sangue para Sonia. Um ato trivial de desafio.
Um dos homens saiu e voltou com o bracelete que substituiria meu Apple Watch, com o qual Patrick havia me surpreendido no Natal do ano anterior. O metal era leve, liso, uma espécie de liga, estranho à minha pele.
Ele ajustou o contador à minha voz, colocou-o no zero e me mandou para casa.
Naturalmente não acreditei em uma palavra daquilo. Nem nos desenhos que eles me mostraram em seus livros ilustrados nem nos avisos que Patrick leu para mim em voz alta enquanto tomávamos chá à mesa da cozinha. Quando Steven e seus irmãos chegaram da escola, cheios de notícias de treinos de futebol e resultados de provas, enquanto Sonia ignorava suas bonecas, hipnotizada pela nova pulseira brilhante, eu abri a represa. Minhas palavras fluíram, sem controle, automáticas. A sala se encheu com centenas delas, de todas as cores e formas. Na maior parte azuis e afiadas.
A dor me derrubou.
Nossos corpos têm um mecanismo, um modo de esquecer o trauma físico. Como aconteceu com minhas não memórias da dor do parto, bloqueei tudo associado àquela tarde, tudo a não ser as lágrimas nos olhos de Patrick, o choque – que palavra adequada! – no rosto dos meus filhos e os guinchos deliciados de Sonia brincando com o instrumento vermelho. Esta é outra coisa que lembro: o modo como minha menininha levou aquele monstro vermelho aos lábios.
Como se o estivesse beijando.