Vox

Christina Dalcher · Capítulo 26 de 80

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Vox

Vinte e Seis

 

A sala de Lorenzo é uma cópia exata da que Lin e eu estamos dividindo, só que tem o dobro do tamanho, a mesa é de madeira e não de metal, a cadeira parece de um cenário de Jornada nas Estrelas e há uma janela com vista para um parque cheio de cerejeiras em flor. Rosno por dentro.

Lin me empurra porta adentro e escapa pelo corredor antes que eu possa protestar.

— Ciao.

A voz de Lorenzo é igual e diferente ao mesmo tempo. Ainda grave e musical, com as consoantes suavizadas que me levam de volta ao sul da Itália, a uma vida com ritmo mais lento. Porém, há um cansaço naquela palavra que combina com as rugas em seu rosto, agora mais pronunciadas depois de apenas dois meses. Não posso deixar de olhar para seus olhos escuros e, quando faço isso, vejo as palavras presas dentro dele.

De repente, um nó do tamanho de uma bola de praia se forma na minha garganta. Tento dizer “Ciao”, e o que sai tem toda a força de um peido de camundongo. Meus joelhos cedem enquanto a sala gira, múltiplos Lorenzos, cafeteiras e estantes, todos num redemoinho de cores e texturas.

Ele me segura antes de eu cair e me senta na grande poltrona de couro atrás da mesa, pegando para si a cadeira menor, de visitantes.

— Bom saber que ainda consigo deixá-la com as pernas bambas, Gianna.

Numa realidade eu me recupero do que as mulheres chamavam de la petite mort, encaro Lorenzo e o abraço. Nós nos beijamos, a princípio lentamente, depois furiosamente. Então o inferno abre as portas e eu estou com ele em cima da mesa ou ele está comigo em cima da mesa ou nós estamos juntos embaixo da mesa. É fantástico, barulhento, molhado, suado e perfeito.

E há a outra realidade, a que está acontecendo neste momento, aquela em que tenho apenas tempo suficiente para pegar a lixeira de plástico no canto da sala antes de despejar meu café da manhã dentro dela com um barulho nada sexy.

Tudo que Lorenzo diz é:

— Uau.

— Preciso ir… – falo, me levantando, usando a mesa como apoio – … ao banheiro feminino.

Acho que o verdadeiro teste para um homem é ver como ele age diante de uma mulher vomitando na sua sala, no seu cesto de lixo. Logo antes de me acompanhar até a porta do banheiro feminino na extremidade do corredor oposta à minha sala, Lorenzo sorri. Um “uau” e um sorriso, nada mais.

Eu o amo por isso.

— Vou ficar bem. Só preciso de um minuto – afirmo, abrindo a porta e indo para o cubículo mais próximo.

O resto do meu pãozinho e do café sobe e eu mando tudo descarga abaixo antes de me sentar no vaso com a cabeça entre as pernas, a bile amarga e o ácido estomacal queimando a garganta.

Nunca fico enjoada, não tenho estômago sensível e não me lembro da última vez que vomitei.

Lembro, sim.

A caixa de aço inoxidável com tampa de dobradiça e forro de plástico está à minha direita, no lado oposto ao dispensador industrial de papel higiênico capaz de limpar as bundas de uma republiqueta antes de ficar vazio. Não tenho nada para colocar nela, nenhum absorvente bem embrulhado, nenhum lenço enrolado e preso com fita adesiva, nem mesmo um absorvente interno.

Ah, puta que pariu.

Estou com 43 anos. Tenho quatro filhos, graças a Patrick e sua virilidade irlandesa. Tive gêmeos há onze anos. E sei o suficiente sobre biologia reprodutiva para perceber que minhas chances de ter múltiplos é maior agora do que naquela época.

Também sei que tenho uma chance em duas de dar à luz outra menina. Será que vão colocar um contador de palavras no pulso dela logo após o parto? Ou será que vão esperar alguns dias? De qualquer modo, isso vai acontecer rapidamente e não terei mais nenhum trunfo para barganhar.

Assim, faço o que qualquer mulher na minha posição faria: vomito de novo.