Vox

Christina Dalcher · Capítulo 22 de 80

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Vinte e Dois

 

Apesar dos meus esforços para reproduzir o molho da minha mãe, o jantar é um desastre.

Sonia não está à mesa e, sim, no seu quarto. Fiquei com ela durante uma hora, depois de Thomas, do terno escuro e atitude sombria, chegar e retirar os contadores. A vez de Sonia foi mais demorada porque ela não parava de se retorcer. Minha filha até mordeu a mão dele na segunda tentativa. Não saiu sangue, mas Thomas ganiu feito um cachorrinho assustado e resmungou por todo o caminho até o carro.

— Tudo bem, querida. Agora você pode falar – expliquei, tranquilizando-a quando estávamos sozinhas no quarto dela.

Sonia disse uma palavra:

— Não.

— Você não precisa ir mais à escola. Vamos ter aulas aqui em casa. Vamos ler histórias. E, enquanto eu estiver no trabalho, você pode assistir a desenhos animados na casa da Sra. King.

Eu odiava a ideia de Sonia passar um minuto que fosse na companhia de Evan e Olivia King, mas isso era melhor do que mandá-la de volta para a EMP.

Ultimamente tudo parece ser uma escolha entre o pior e o menos pior.

À menção da escola, ela começou a chorar de novo.

— Você não gosta mesmo de lá, gosta?

Ela assentiu.

— Use as palavras, Sonia.

Ela se sentou e comprimiu os lábios. A princípio achei que estava bancando a durona – o máximo que uma menina de seis anos é capaz quando está envolta em lençóis cor-de-rosa e cercada por coelhinhos e unicórnios de pelúcia –, mas ela só estava se preparando.

— Eu ia ganhar amanhã! – exclamou Sonia, e sua boca se fechou de novo.

Quase pude ouvir o estalo de uma chave de aço girando na fechadura enquanto ela olhava desejosa para o pulso nu.

Por fim, Leo enfiou a cabeça pela porta.

— O molho está fervendo, mãe. Borbulhando.

— Que tal desligar o fogo? – perguntei, imaginando como eu iria trabalhar, ensinar Sonia e lidar com uma casa cheia de homens incompetentes nos próximos meses. Depois, me virando de novo para minha filha, falei: – Amanhã vamos trabalhar num tipo de prêmio diferente, está bem? Vamos comer.

Ela só balançou a cabeça e agarrou Coelhinho Fofo.

À mesa é Steven que verbaliza minhas preocupações.

— Como você vai ensinar Sonia, trabalhar e cuidar da casa, mãe? – pergunta ele com a boca cheia de macarrão. – Ainda não temos leite.

Na minha mente, eu o agarro pelo colarinho e o sacudo até ele ficar tonto. Na verdade, digo: – Você poderia ir de bicicleta ao Rodman’s e comprar. Ou andar até o 7-Eleven.

— Esse não é meu trabalho, mãe.

Sam e Leo enterram os narizes nos pratos.

Patrick fica vermelho.

— Steven, mais uma palavra e você pode sair da mesa.

— Você precisa continuar com o programa, pai. – Steven pega mais uma porção de comida, na verdade duas ou três, e se apoia nos cotovelos. Ele ergue um dedo. – Veja bem, é por isso que precisamos das regras novas. Para que tudo possa prosseguir como deve.

Steven não parece notar que estou encarando-o como se ele fosse um extraterrestre.

— Veja o que está acontecendo entre eu e Julia…

— Entre mim e Julia – corrijo.

— Tanto faz. Eu e Julia planejamos. Quando nós nos casarmos e tivermos filhos, ela vai cuidar da casa enquanto eu estiver no trabalho. Ela adora. Eu vou tomar todas as decisões e Julia vai concordar. Moleza.

Pouso meu garfo, que ressoa na borda do prato.

— Você é novo demais para se casar. Fale com ele, Patrick.

— Ouça sua mãe – diz Patrick. – Você é novo demais.

— Nós já conversamos sobre isso.

— Vocês conversaram sobre isso – repito, ainda sem comer. – Como, exatamente, vocês conseguiram, com as cem palavras por dia da Julia? Estou curiosa.

Steven se recosta, depois de terminar o segundo prato.

— Não falei com a Julia – explica ele, num tom presunçoso. – Falei com o Evan.

Meu sangue está começando a ferver.

— Julia não pode opinar?

Meu filho não responde, só me lança um olhar perplexo, como se de repente eu tivesse começado a falar uma língua alienígena. Nós nos encaramos como estranhos, até que Patrick interrompe: – Deixa isso pra lá, Jean. Não adianta brigar. Ele é novo demais, de qualquer modo. – Então olha para Steven. – Novo demais.

— Errado outra vez, pai. Um cara do Departamento de Saúde e Bem-estar foi à nossa escola hoje. Assembleia dos mais velhos. Falou que no ano que vem eles vão começar um programa novo. Veja só: dez mil pratas, bolsa integral na faculdade e um emprego garantido no governo para qualquer um que esteja casado aos dezoito anos. Estão falando dos garotos, claro. E mais dez mil para cada filho que a gente tiver. Legal, não é?

Legal feito veneno de cobra, penso.

— Você não vai se casar com dezoito anos, garoto.

Um sorriso surge no rosto de Steven, só um leve sorriso que não é acompanhado pelos olhos. Na verdade, não é um sorriso.

— Você não tem nada a ver com isso, mãe. A decisão é do meu pai.

Talvez tenha sido isso o que aconteceu na Alemanha com os nazistas, na Bósnia com os sérvios, em Ruanda com os hutus. Às vezes eu refletia sobre isso, sobre como crianças podem se transformar em monstros, como aprendem que matar é certo e a opressão é justa, como em uma única geração o mundo pode mudar tanto até ficar irreconhecível.

É fácil, penso, e empurro a cadeira para trás.

— Vou ligar para os meus pais – digo.

Tentei ontem e ninguém atendeu. Hoje cedo ninguém atendeu. Antes do jantar, ninguém atendeu. Deve ser tarde lá, quase meia-noite, mas quero falar com a minha mãe.

Faz tempo demais.