Vox
Trinta e um
Esta tarde, enquanto me arrasto com a fileira de carros pela Rock Creek Parkway, encolhida diante do volante para evitar os olhares dos motoristas do sexo masculino que povoam a hora do rush, penso de novo em Jackie Juarez.
Ela chamou Patrick de babaca intelectual; Jackie jamais falaria algo assim sobre Lorenzo.
— Os homens são de dois tipos – disse ela uma vez. – Os homens de verdade e as ovelhas. Esse cara que você está namorando…
— … é uma ovelha – completei. – Acho que você pensaria isso.
— Eu não penso, Jeanie. Eu sei.
Jackie acendeu um cigarro, estava em sua fase Virginia Slims (e naquele ano o cartaz de propaganda kitsch que dizia Você percorreu um longo caminho, baby decorava nosso apartamento) e soprou uma nuvem de fumaça mentolada.
— Quer dizer, se eu fosse mudar para seu time, ia querer um homem que… sei lá… me defendesse.
— Olhe só, que romântica!
Ela me ignorou.
— Talvez. Só queria alguém que fosse forte quando necessário.
— Patrick é gentil. Isso não vale nada?
— Para mim, não.
Quando defendi minha tese e Patrick começou a residência, nós nos casamos. Convidei Jackie, esperando que ela fosse.
Não foi.
Talvez eu também não fosse.
Saio da via expressa e paro no sinal ao lado de um homem de meia-idade num Corvette preto brilhante. Carro esportivo da andropausa, penso. A janela de trás está cheia de adesivos: MYERS PARA PRESIDENTE!, SOU PURO, CLARO, E VOCÊ? e TORNE A AMÉRICA MORAL DE NOVO! Ele buzina, espera eu virar a cabeça e baixa a janela. Faço a mesma coisa, achando que ele quer alguma orientação nas ruas labirínticas de Washington com suas diabólicas avenidas diagonais.
Ele cospe no meu carro enquanto o sinal muda de vermelho para verde, depois parte rugindo.
Percebo que ainda estou com o adesivo do outro candidato no meu para-choque.
O que Jackie faria? Aceleraria atrás dele? Talvez. Cuspiria de volta? Certamente. Mas o que fica na minha cabeça é o que Patrick faria: absolutamente nada.
Suspiraria e balançaria a cabeça diante dessa barbárie, depois limparia o catarro e se esqueceria do Sr. Crise da Meia-Idade. E Lorenzo? Encheria o cara de porrada.
Por algum motivo acho isso atraente. Antes, não acharia. Percebo que me transformei mais em Jackie do que esperava, e de repente quero vê-la mais do que qualquer coisa.
Duvido que ela queira me ver. E, mesmo se quisesse, Jackie está num lugar onde a palavra “visitante” não existe.
Jackie está num campo (Diga, Jean: prisão) em algum lugar no meio do país, onde trabalha numa fazenda, num sítio ou num viveiro de peixes da manhã até a noite. Seu cabelo – não importando a última cor que tivesse – exibe raízes grisalhas e pontas duplas, e os braços estão queimados de sol, dignos de um agricultor. Bronzeado caipira, como costumávamos chamar, do tipo que deixa os ombros pálidos e o pescoço vermelho. Ela usa uma larga pulseira de metal que não mostra nenhum número, porque no mundo novo de Jackie não existem palavras para ser contadas. Como aquelas mulheres com bebês no mercado, que não faziam nada mais do que tentar fofocar com os dedos, uma mensagem de conforto, um corriqueiro também sinto falta de conversar com você.
Jackie Juarez, feminista transformada em prisioneira, agora dorme à noite numa cela com um homem que não conhece.
No outono passado, vi um documentário sobre esses campos de conversão na TV. Steven tinha posto naquele canal.
— Tarados – disse ele. – Merecem isso e muito mais.
Minhas últimas palavras voaram, pequenas adagas apontadas para o meu primogênito, que tinha começado a agir menos como meu filho e mais como o reverendo Carl Corbin.
— Você não pode estar falando sério, garoto.
Ele botou a televisão no mudo enquanto uma fila interminável de homens e mulheres saíam de um buraco num muro de concreto para a área de trabalho da fazenda. Jipes com soldados armados flanqueavam o grupo de prisioneiros.
— É uma escolha, mãe – disse Steven. – Se você pode escolher uma sexualidade, pode facilmente escolher outra. É só isso que eles estão tentando fazer.
Fiquei sentada, muda, olhando os rostos daquelas pessoas vestidas de cinza, que antes tinham sido mães, pais, contadores e advogados, indo do muro para os campos. Jackie podia estar entre eles, cansada e com bolhas depois de dias e dias ao sol.
Steven aumentou o volume e apontou para uma tela de estatísticas.
— Está vendo? Funciona. Dez por cento depois do primeiro mês, chegando a 32 por cento no fim de setembro. Está vendo?
Ele estava se referindo à taxa de conversão.
Eu não via isso. Mas via, e ainda vejo, Jackie Juarez com botas de trabalho e um uniforme cáqui, arrancando ervas daninhas e colhendo até ficar com as mãos em carne viva e sangrando.
Ou…
Jackie casada. Talvez com um escroto gordo como Jack, o segurança, talvez com um dos gays que ela conhecia antes. Usa um contador de palavras e passa os dias assando bolo e esperando engravidar, de modo que as autoridades saibam que o casamento é real, mais do que um arranjo de conveniência para escapar da vida nos campos.
Não. Jackie jamais aceitaria isso, jamais se curvaria diante do sistema, jamais se prostituiria com os homens do presidente em troca de dinheiro, de uma voz ou de um mês de liberdade. Patrick faria isso, claro. Lorenzo, não. Essa era a diferença entre meu marido e meu amante.
Mas Lorenzo fez o mesmo, no segundo em que assinou o contrato e concordou em trabalhar no projeto da afasia.
Quando entro na minha garagem, percebo a verdade: Lorenzo tem outro objetivo, e acho que está ligado ao meu nome.