Vox
Dezenove
Acho que desenvolvi audição sobre-humana.
Esta tarde, enquanto espero que o ônibus de Sonia venha lentamente em direção ao nosso bangalô, ouço cada som. Não os sons que costumava escutar: não os repórteres da CNN debatendo política na TV pequena da cozinha; não John, Paul, George e Ringo dizendo que querem segurar minha mão; não minha própria voz cantando junto – mal, admito. Ouço o som molhado da massa enquanto a soco até a submissão, o zumbido ensurdecedor da geladeira, o gemido em alta frequência do computador de Patrick através da porta fechada do escritório. Ouço meu próprio coração batendo, firme, incessante.
Agora ouço o motor, o efeito Doppler aumentando a frequência enquanto o ônibus se aproxima. Já tenho minhas três palavras planejadas para quando Sonia chegar: Mamãe te ama. Outras podem ser ditas mais tarde, mas por enquanto essas bastam.
Ponho a massa numa grande tigela de vidro para descansar pela segunda vez e tiro com uma toalha a farinha que se grudou entre meus dedos. Deveria ter tirado o anel, mas esqueci. Então forço um sorriso – não muito largo, não muito caricato; não quero que pareça uma maquiagem ruim – e vou esperar na porta.
Sonia pula dos degraus do ônibus, acena para o Sr. Benjamin antes de ele partir para o próximo ponto e percorre os trinta metros entre o ponto e a varanda como um felino cheio de adrenalina. Normalmente calma, esta tarde ela está saltitando, com uma ansiedade elétrica. Minha menina está reluzindo de empolgação enquanto pula nos meus braços, sua bochecha grudenta e doce manchada de chocolate, o envelope que segura roça na minha orelha esquerda.
— Mamãe te ama – digo.
Pulsação, pulsação, pulsação. Mal registrei minhas palavras quando ela interrompe o abraço.
— Ganhei prêmio! – guincha Sonia, pondo o envelope nas minhas mãos, apontando para a própria boca, lambendo-a com a língua rosada.
Quando franzo a testa, ela aponta três vezes para a mancha de sorvete no canto da boca. Pego sua mão e a afasto da boca, balançando a cabeça. Às vezes ela se esquece das câmeras.
E do Steven.
Sonia aponta para a boca de novo, desesperada para que eu veja a mancha de chocolate, e de novo empurro sua mão para baixo, segurando os dedos dela. Alguns segundos apontando ou gesticulando em casa talvez não sejam nada de mais – a não ser que virem hábito. Uma única imagem dolorosa de Sonia fazendo isso em público lampeja diante de mim – ou pior, diante de Steven, aquele maldito espião mirim. Aperto os dedos dela com um pouco mais de força enquanto a outra mão vira o envelope que ela trouxe.
Na frente há uma etiqueta endereçada ao Sr. Patrick McClellan. E, claro, o envelope está lacrado.
Portanto, cá estamos. Minhas três palavras do dia, a não ser que você conte a lista de ingredientes no saco de farinha e a mensagem em LED verde Sua bebida está pronta reluzindo no micro-ondas quando requentei o café.
— Por quê? – pergunto, levando Sonia para dentro, tentando ignorar as duas pulsações. – Escolha bem as palavras.
É uma conversa mais longa do que costumamos ter, mas estou desesperada para saber que novidade minha filha trouxe para casa. Também estou desesperada para impedir que ela fale mais do que deve. Ainda não verifiquei o número em seu contador.
Na cozinha, enquanto preparo uma caneca de chocolate quente para nós – nosso ritual silencioso da tarde –, Sonia sobe numa banqueta, vira o visor do contador para mim e fala uma palavra capaz de rachar os tímpanos: – Menor!
Então leio o contador na pulseira vermelha. Chamam de pulseiras na escola, no consultório médico, nos anúncios que passam antes dos filmes. Penso nisso enquanto molho uma toalha de papel e limpo a mancha de chocolate – que suspeito ser o prêmio de Sonia – e a vejo criar um novo bigode marrom enquanto ela bebe o chocolate quente. Anúncios de silenciadores que provocam choques: escolha sua cor, acrescente umas estrelinhas ou listras. Existe um modelo que muda de cor de acordo com as roupas, se você gosta de tudo combinadinho, uma variedade de musiquinhas, imagens de personagens de desenho animado para as crianças.
Eu me contenho para não xingar os homens que fizeram isso, ou os marqueteiros e seus esforços sinistros para nos convencer de que temos algum tipo de escolha. Acho que, se algum dia as coisas voltarem ao normal, eles vão usar aquele velho clichê: Eu só estava cumprindo ordens.
Onde foi que já ouvimos isso?
Não posso ficar nessa cozinha agora, não posso olhar minha filha tomando chocolate e estudar o envelope branco na bancada como se ele contivesse a porra de uma medalha de honra. Por isso vou para outro lugar. Tento imaginá-la no parquinho, pulando corda, participando de jogos de alfabeto, cantando “Miss Lucy Had a Steamboat” e rindo dos palavrões mal disfarçados na letra. Vejo-a entrando em fila, sussurrando sobre o novo menino da turma, escrevendo bilhetes de amor e previsões num papel que ela vai dobrar e guardar. Ouço-a falar milhares de palavras inúteis e preciosas antes da primeira aula do dia.
Outro motor ronrona, depois ronca, o som atravessando a porta de tela da varanda dos fundos, e saio do meu devaneio. Pelo menos Patrick chega em casa antes que os garotos voltem da escola. Não tenho nada para dizer a ele, mas preciso dele sozinho; preciso ver que segredos guarda a misteriosa carta de Sonia.
Mas na verdade eu já sei a resposta. Do outro lado da ilha da cozinha, o contador da minha filha reluz seu informe horrendo.
Ganhei prêmio!, disse ela. Menor!
Sei o que a escola de Sonia está aprontando. Sei porque o contador no pulso fino dela mostra o número 3.
Minha filha ficou em silêncio o dia todo.