Vox

Christina Dalcher · Capítulo 41 de 80

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Vox

Quarenta e um

 

As pancadas da máquina de ressonância param.

— Acabou, pessoal – diz Lin. – Temos visita. Ainda bem que levantei a cabeça no momento certo. Aquele tal de Poe não faz absolutamente nenhum som. Zero. É a porra de um vampiro.

Solto-me dos braços de Lorenzo com força suficiente para me jogar para trás, contra a parede. Meus ouvidos zumbem com as pancadas monótonas da máquina e as palavras de Jackie. Lin, o retrato da calma, pega minha mão e me leva para a área principal do laboratório.

— Que diabo foi isso? – pergunta Poe. – Parecia que a porcaria do prédio estava desmoronando.

— Ressonância magnética – responde Lin. – O barulho é assim mesmo.

Poe resmunga.

— Por que ela estava ligada? As outras não estão.

— Só temos mais uma – digo, olhando para a primeira sala de ressonância.

Em vez de responder, Poe começa a percorrer lentamente o laboratório, abrindo gavetas e armários. Não faz nenhum som, como Lin disse, e me ocorre que, se ela não estivesse ali enquanto Lorenzo e eu nos agarrávamos ao som de uma máquina barulhenta, eu iria me juntar a Julia King num tablado enquanto o reverendo Carl recitava seus tratados moralistas. Nunca teríamos ouvido Poe entrar até ser tarde demais.

Pela expressão de Lorenzo, essa possibilidade também lhe ocorreu.

— Morgan quer conversar com você na sala dele – diz Poe a mim. – Agora.

Deixo o número de Sharon com Lorenzo e Lin, dizendo para eles marcarem um horário na manhã de segunda-feira. Com sorte estaremos prontos no fim de semana, e eu quero a Sra. Ray aqui quanto antes. Se eu conseguir devolver a voz dela, Sharon e Del podem ser mais receptivos ao favor que planejo pedir.

No elevador, Poe enfia o crachá numa fenda e aperta o botão do quinto andar. É a primeira vez que noto essa fenda e presumo que apenas os andares com nossas salas e o laboratório são acessíveis sem chave. A porta se abre e Poe estende a mão.

— Por aqui – diz.

O corredor do quinto andar é luxuoso, mais como um hotel cinco estrelas do que um prédio de pesquisa do governo. Meus sapatos não fazem som no carpete grosso – azul, naturalmente, a cor dos puritanos. Enquanto andamos, leio os nomes nas portas: General Fulano, Almirante Fulano, Dr. Fulano… Todos homens. Alguns me olham pelas portas semiabertas. Um deles faz uma carranca.

Morgan está sentado à mesa quando Poe bate. Ele grita numa vozinha que tenta fazer com que pareça retumbante: – Entre!

Sinto vontade dizer que isso não funciona.

— Onde você esteve hoje de manhã? – pergunta ele sem levantar os olhos do que quer que está lendo.

— Tive um problema familiar. Uma vizinha deveria cuidar da minha filha e…

Ele me interrompe, fechando o grosso fichário sobre a mesa, colocando um caderno vazio em cima para esconder a etiqueta. Então se recosta com as mãos atrás da cabeça, os cotovelos apontando para fora. Talvez pense que parece maior assim, mais poderoso.

— Veja bem, é por isso que o modo antigo não funcionava. Sempre há alguma coisa. Sempre alguma criança doente, uma peça de teatro na escola, cólicas menstruais ou licença-maternidade. Sempre havia um problema.

Abro a boca, mas não para falar. Fico de queixo caído, incrédula.

Só que Morgan não terminou. Ele pega uma caneta e começa a balançá-la.

— Você precisa colocar isso na cabeça, Jean. Vocês, mulheres, não são confiáveis. O sistema não funciona como antigamente. Veja os anos cinquenta. Tudo estava ótimo. Todo mundo tinha uma bela casa, um carro na garagem e comida na mesa. E as coisas ainda funcionavam bem! Não precisávamos de mulheres na força de trabalho. Você vai perceber isso assim que superar toda essa raiva. Vai ver que será melhor. Melhor para os seus filhos. – Ele baixa a caneta. – De qualquer modo, não vamos falar disso. Seja uma boa menina e chegue às nove a partir de agora, assim não preciso reportar nada.

— Eu tenho as sextas-feiras de folga – digo. – Está no meu contrato.

Preciso de todo o autocontrole para manter a voz firme e as mãos paradas.

— Bom, eu mudei seu contrato – replica ele, batendo numa pasta sobre a mesa. Ainda não pediu que eu me sentasse. – Antes de você assinar. E estamos adiantando o prazo final para a terceira semana de junho.

— Por quê?

Agora ele fala como um professor se dirigindo a uma criança pequena: – Jean, Jean, Jean…Você não precisa saber.

— Ótimo, Morgan. Que seja. Por sinal, nós vamos trabalhar no fim de semana e fazer um teste no primeiro paciente nesta segunda ou terça.

Eu me sento na cadeira diante dele.

Morgan parece chocado.

— Surpreso?

— É, estou. Eu não achava…

— Não achava o quê, Morgan? Que Lorenzo, Lin e eu poderíamos fazer com que isso desse certo? Qual é! Você trabalhou com a gente. Sabe que Lin é um gênio.

Não digo: você provavelmente precisou baixar a cadeira da sala dela para encostar os pés no chão. Não seria bom deixá-lo puto da vida quando eu precisava de um favor.

Ele me examina com aqueles olhos pequenos, brilhantes e alertas, como os de um terrier. Quer dizer, não, os terriers são inteligentes.

— Isso é fantástico, Jean. Simplesmente fantástico. – Ele se levanta, uma indicação de que a visita terminou. – Eu sabia que conseguiríamos.

Não o corrijo. Em vez disso, largo a bolsa. Quando me inclino para pegá-la, consigo ler a etiqueta na lombada do fichário que Morgan cobriu. Está de cabeça para baixo, mas as duas palavras são nítidas, letras de fôrma azuis em um fundo branco.

Está escrito PROJETO WERNICKE.