Vox
Cinquenta e um
A ideia de Lorenzo é arriscada, mas necessária.
Depois de ligarmos solicitando um assistente para limpar o laboratório e preencher um relatório para Morgan, eu saio primeiro, voltando pelo posto de segurança. Há uma nova dupla de soldados de guarda no turno da tarde, com os vincos dos uniformes bem passados, as botas com um brilho que reflete as luzes fluorescentes do vestíbulo de entrada. Minha bolsa volta à esteira para ser escaneada enquanto um dos soldados me revista, as mãos fazendo arcos curtos e rápidos nos meus quadris, nas costas, na barriga, nos seios. Assim que sou liberada, saio ao sol de maio.
Hoje é dia 31, penso, meu aniversário, o dia em que Steven fugiu com um maço de notas da carteira de Patrick e o dia em que terei um encontro secreto com Lorenzo na Cabana do Caranguejo, em Maryland.
Decidimos pegar rotas opostas saindo da cidade, por isso sigo o tráfego para o sul em direção à via expressa que corta Washington, passando pelo mercado de peixes que ainda existe à beira do rio. Imagino de onde vêm os peixes. Do Maine? Da Carolina do Norte? Provavelmente dos dois lugares. Não penso em quem trabalha nas fábricas de processamento, tirando tripas e escamas, empacotando e congelando. Talvez um dia eu tenha um trabalho fazendo a mesma coisa. Longas horas. Sem pagamento. Fedor de peixe que não sai da pele.
Lin estava errada com relação ao desmoronamento da economia. Ela pode não estar prosperando, mas a máquina funciona numa velocidade constante. Nossa força de trabalho não foi cortada ao meio, só foi remontada e redistribuída. Homens que realizavam trabalhos sem especialização foram substituídos pelos que os Puros consideravam indignos de permanecer na sociedade. As indústrias – e aquela indústria que tudo abarca, o governo – escolheram homens recém-formados nas principais universidades do país para preencher as lacunas deixadas pelas mulheres: executivos, médicos, advogados, engenheiros.
Foi uma reforma eminentemente viável do sistema.
Estive afastando Steven do pensamento durante todo o dia, e agora a tristeza é desarrolhada e se derrama de mim. Houve muitas vezes em que eu quis culpá-lo, mas não posso. Os monstros não nascem assim, nunca. Eles são feitos, pedaço por pedaço e membro por membro, criações artificiais de loucos que, como o equivocado Dr. Frankenstein, sempre acham que sabem mais.
Mas ele não vai chegar longe, nem com o dinheiro. Steven achará o caminho de volta para casa. Preciso acreditar nisso.
O tráfego diminui ao mesmo tempo que minhas lágrimas secam, quando levo o Honda para a saída da rodovia e viro para o leste, na direção da baía de Chesapeake, a terra do escritor William Styron, com caranguejos-azuis e veleiros deslizando em águas calmas. É uma viagem longa, mas calma, e me dá tempo para pensar.
Se a cura para a afasia de Wernicke funcionar, e acho que isso vai acontecer, pedirei a Morgan que mande uma dose para minha mãe no hospital italiano. Esse pequeno benefício é o único raio luminoso de sol numa paisagem estéril. Não é grande coisa, mas é algo em que me agarrar.
O carro de Lorenzo está na entrada de veículos da cabana, irradiando ondas distorcidas de calor do capô. Claro que ele chegou primeiro: você pode tirar o motorista italiano maluco da Itália, mas não pode tirar a loucura dele. Passo pelo automóvel, indo até o terreno seguinte, que permaneceu vazio desde que Lorenzo alugou o lugar. A regra é: o primeiro a chegar estaciona diante da cabana; o segundo, no terreno vazio. Nunca fui a primeira.
Ele está na cozinha, ou no que seria uma cozinha se contivesse mais do que uma pia, um fogão de duas bocas e uma geladeira em forma de cubo, para água e vinho. Nunca perdemos tempo cozinhando neste lugar.
Eu tinha planejado tudo durante a viagem: entrar, conversar e sair. Mas, quando ele toca minha bochecha direita, todos os planos vão para o inferno. Não é Lorenzo que me leva da cozinha para o quarto pequeno, escuro, forrado de madeira, com uma única janela que nunca abrimos. Sou eu que pego a mão dele e o levo.
Na última vez não houve conversa. Eu ainda estava com o contador de pulso e Lorenzo ficou em silêncio, talvez por solidariedade. Não sussurrou meu nome, como Patrick, e não disse palavras de piedade. Simplesmente não falou enquanto se mexia em cima de mim e dentro de mim. Hoje ainda estamos silenciosos, as mãos e os corpos recitando as palavras para nós, mas dentro de mim estão os pratos e as trombetas de uma orquestra tocando a todo volume.
Depois de uma rodada de amor, recomeçamos, desta vez devagar e sem pressa, como se tivéssemos dias ou anos, e não horas. Não frações de horas.
Quando Lorenzo finalmente amolece (em todos os sentidos da palavra), ele se deita sobre mim, me cobrindo com o corpo como um escudo que deixa o mundo longe.
— Posso tirar você daqui – diz ele.
Por um momento, não tenho certeza do que Lorenzo quer dizer, mas ele estende a mão até onde sua calça jeans está junto da minha, duas poças de brim no chão de pinho, e exibe uma fina caderneta vermelha.
Reconheço aquilo imediatamente, a roda dentada e a estrela de cinco pontas cercada por galhos – oliveira para a paz, carvalho para a força.
— Como você conseguiu isso? – digo, folheando o passaporte novo. A página dois tem minha foto, mas com o nome de outra mulher: Grazia Francesca Rossi. A data de nascimento combina com minha idade mais ou menos.
— Tenho amigos – diz ele. – E amigos podem ser convencidos pelo valor certo.
— Quem é Grazia? – Rossi é um sobrenome comum na Itália, mas a coincidência parece exagerada. – Sua irmã?
Lorenzo balança a cabeça.
— Não. Não tenho irmã. Grazia é… era… minha esposa. – Ele não espera que eu pergunte e explica: – Ela morreu há cinco anos.
— Ah – digo, como se ele tivesse me dado uma notícia comum, uma previsão do tempo, o resultado do torneio de beisebol, onde acontecerão as próximas Olimpíadas. Não faço perguntas e ele não oferece respostas. – Não posso ir embora, você sabe.
Não há argumento, apenas sua mão percorrendo meu corpo, começando na clavícula e parando dois centímetros acima do meu sexo.
— E se for uma menina, Gianna?