Vox
Dezessete
Steven é o primeiro a acordar e sai de casa antes que Patrick ou eu comecemos nossa rotina matinal. Os gêmeos, num raro feito de autossuficiência – ainda que não de coordenação de cores –, se vestiram e agora colocam o resto do leite em tigelas cheias de torrões de açúcar multicoloridos feitos para apodrecer dentes. Leo está com o suéter pelo avesso e Sam o arruma. Nenhum dos dois diz muita coisa enquanto comem o cereal.
— O que aconteceu ontem foi só uma discussão – digo.
— É estranho ouvir você falar, mãe – observa Leo.
Acho que deve ser, depois de um ano.
Quando Patrick entra, aparentando ter dormido menos do que dormiu, os gêmeos estão a caminho do ponto de ônibus e estou vestindo Sonia, enfiando um braço de cada vez no agasalho. Minha mão se demora em seu bracelete vermelho, e ela puxa o pulso, com a mãozinha escapando da minha.
— Sinto muito pelo que você precisou ver ontem. Com o Steven.
Ela assente, como se também lamentasse ter visto aquilo.
Vamos até o ônibus juntas, silenciosas como em todos os outros dias. Agora tenho palavras, mas nenhuma ideia de como usá-las, nenhuma pista de como fazer a vida da minha filha um pouco melhor, nem que seja por pouco tempo.
— Não teve mais pesadelos, não é?
Sonia assente de novo. Claro, ela não teria nenhum pesadelo na noite passada, não com a pequena dose de sonífero que coloquei em seu chocolate quente. Patrick ainda não sabe disso e não sei se vou contar.
— Seja boazinha na escola – digo, e a ajudo a entrar no ônibus.
Seja boazinha na escola. Que monte de bosta.
Imagino minha filha sentada numa carteira, daquele tipo que tem um nicho embaixo, onde livros, estojos de lápis coloridos da Hello Kitty e, mais tarde, bilhetinhos secretos dizendo Você gosta do Tommy? Acho que o Tommy gosta de você! ficariam escondidos. Tampos de fórmica onde a gente riscava corações e iniciais, ou onde a gente acompanhava as gravações feitas por algum outro garoto ou garota em outro ano, imaginando se BL chegou a se casar com KT ou se o Sr. Pondergrass, professor de álgebra, era mesmo um monstro com remela nos olhos. Cadernos com capa em preto e branco, que mais tarde ficavam mais finos e mais azuis quando as tarefas de redação mudavam de “O que eu fiz nas férias de verão” para “Compare e contraste Hamlet com Macbeth, de Shakespeare”. Todas essas coisas, simples e corriqueiras, que presumimos que nunca iríamos perder.
O que nossas meninas estudam agora? Um pouco de soma e subtração, ver as horas, saber contar o troco. Contar, claro. Devem aprender a contar primeiro. Até cem.
Quando Sonia entrou no primeiro ano, no outono passado, a escola era aberta. Patrick e eu entrávamos, junto com os outros pais. Não cheguei a ver o aviso que foi mandado aos pais – não às mães – ou aos avôs, no caso de uma das meninas ter duas mães. Claro, não existe mais nenhuma família com duas mães ou dois pais; as crianças dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo foram postas para morar com seu parente do sexo masculino mais próximo – um tio, um avô, um irmão mais velho – até o pai biológico se casar do modo adequado. Engraçado, com todo o papo anterior de terapia de conversão e cura da homossexualidade, ninguém jamais pensou no modo perfeito de colocar os gays na linha: tirar seus filhos.
Imagino que o comparecimento naquela noite tenha sido obrigatório, se bem que Patrick não disse isso, só me instigou a verificar as instalações, que supostamente eram de última geração.
— Como assim “de última geração”? – perguntei, olhando meu contador antes de falar.
Descobrimos uma hora depois. Ainda existiam salas de aula, com carteiras e telas de projeção. Os quadros de avisos estavam cobertos de desenhos: uma família fazendo piquenique aqui, um homem de terno segurando uma pasta ali, uma mulher com chapéu de palha plantando um canteiro de flores roxas em outro canto. Crianças num ônibus escolar, meninas brincando de boneca, meninos organizados num campo de beisebol. Não vi nenhum livro, mas, claro, não esperava ver.
Não passamos muito tempo nas salas de aula até que os professores, cada qual usando um pequeno broche com o P na gola, nos levaram pelo corredor para a visita.
— Aqui é a sala de costura – disse o líder do nosso grupo, abrindo uma porta dupla e nos levando para dentro. – Cada menina, assim que tiver idade para usar as máquinas sem dar uma de Bela Adormecida – ele riu da própria piada –, terá sua própria Singer digital. É de fato um equipamento incrível. – Ele acariciou uma das máquinas de costura como se fosse um bichinho de estimação. – Agora, se me acompanharem, daremos uma espiada na cozinha antes de irmos para a área de jardinagem.
Era um curso de economia doméstica metido a besta, não muito mais que isso.
Aceno para Sonia enquanto o ônibus se afasta do meio-fio. Hoje ela vai estar numa sala com 25 outras meninas do primeiro ano. Vai ouvir histórias, treinar contas, ajudar os outros alunos na cozinha a cortar biscoitos, misturar massa e assar tortas. É isso que a escola é agora, e o que vai ser por algum tempo. Talvez para sempre.
A memória é uma maldição.
Sinto inveja da minha filha; ela não precisa se lembrar da vida antes das cotas nem dos dias de escola antes que o Movimento Puro decolasse. É uma dificuldade me lembrar da última vez que vi um número maior do que quarenta em seu pulso frágil. A não ser, claro, há duas noites, quando vi o número subir até cem. Para o resto de nós, minhas ex-colegas e alunas, para Lin, para minhas amigas do clube de leitura, a mulher que era minha ginecologista e a Sra. Ray, que nunca mais vai fazer paisagismo em outro jardim, a memória é tudo que existe.
Não posso vencer de jeito nenhum, mas há um modo de me sentir vitoriosa.
No minuto que demoro para atravessar a rua de volta e subir os degraus da nossa varanda, eu me decido.
Patrick está assistindo a uma entrevista coletiva do reverendo Carl na TV. A sala na Casa Branca tem a mesma aparência de sempre, só que não há mulheres, apenas um mar de ternos escuros e gravatas imponentes. Todos os repórteres assentem ouvindo as últimas informações do reverendo Carl sobre o estado de Bobby Myers.
— Temos alguém que pode ajudar – diz Carl.
Um coro de “Quem?” e “Onde o senhor o encontrou?” e “Que notícia maravilhosa!” se irradia pela sala de imprensa. Patrick se vira para mim.
— É você, amor. De volta à ação.
Mas não quero estar de volta à ação, não por Bobby Myers, pelo presidente ou por qualquer um dos homens naquela sala.
O reverendo Carl faz seu gesto usual de comprimir o ar com as duas mãos, como se estivesse esvaziando um colchão de ar. Ou espremendo algum objeto mais fraco.
— Bom, ouçam. O que vamos fazer é um pouquinho não convencional, até mesmo radical, mas tenho certeza de que a Dra. Jean McClellan é a pessoa certa para o serviço. Como muitos de vocês sabem, o trabalho dela sobre a reversão da… – Ele verifica suas anotações para acertar os termos técnicos – afasia fluente, também conhecida como afasia de Wernicke, foi revolucionário. Claro, esse trabalho foi pausado temporariamente até resolvermos as coisas, mas quero dizer…
Desligo a TV. Não estou nem aí para o que o reverendo Carl quer dizer. Nunca vou ligar.
— Não vou fazer – aviso a Patrick. – Portanto, ligue para o reverendo Carl antes de sair para o trabalho.
— O que devo falar?
Olho para meu pulso, sem a queimadura, sem a coleira prateada.
— Diga que eu recusei.
— Jean. Por favor. Você sabe o que vai acontecer se você não concordar.
Talvez seja o modo como ele diz isso. Talvez seja seu olhar, aquele olhar cansado, derrotado feito um cachorrinho desobediente. Talvez seja o cheiro azedo de leite e café em seu hálito quando ele fala. Pode ser uma combinação das três coisas, mas nesse momento, na casa onde concebemos quatro filhos, percebo que não o amo mais.
Penso se algum dia amei.