Vox
Trinta e Cinco
Cinco minutos horríveis se passam antes que Patrick volte correndo pelo corredor.
— Parece ruim – diz ele. – O que quer que seja, parece ruim.
Seu rosto é um mapa de preocupações, linhas numa paisagem pálida como pergaminho.
Mas a campainha não tocou.
Pego Sonia no colo e sigo Patrick até a cozinha. O cortejo de carros ainda está na rua, ainda com as sirenes berrando e poluindo a noite com azul e vermelho. Seis homens montam guarda na varanda da frente da casa dos King, com outros dois junto à porta dos fundos.
Não sou eu, penso. Não sou eu. Não sou eu. Não sou eu.
Um grito feminino rasga a noite até nossa cozinha e eu me arrisco a olhar pela janela.
Leo faz menção de acender a luz.
— Não. Deixe apagada. Deixe tudo escuro – digo.
O que Olivia King pode ter feito?
Se alguém que você conhece, talvez alguém que você ame de verdade, fizesse uma merda, você deduraria?
E então percebo que aqueles homens não estão ali para Olivia e, sim, para Julia.
Dou as costas para a janela. Ali está Patrick ao meu lado, ainda pálido como um fantasma. Sonia, sentada numa banqueta perto da ilha da cozinha. Sam e Leo espiando a cena na casa ao lado com olhos arregalados como pires.
Só Steven não está aqui.
Lá fora a gritaria piorou. Olivia – deve ser Olivia, das echarpes cor-de-rosa, Bíblias cor-de-rosa e o copo medidor vazio na mão – escancarou as portas do inferno.
— Vocês não podem levá-la! Evan! Faça alguma coisa! Pelo amor de Deus, não fique aí parado com as porras das mãos nos bolsos só olhando. Mate esses caras. Atire nesses filhos da puta escrotos. Diga a eles que não foi culpa dela! Não foi…
O jorro de palavras é interrompido por um grito de dor, mas só por um momento, um segundo. Então ela retoma, meio gritando, meio uivando enquanto dois homens arrastam Julia King para fora de casa, enquanto Evan fica parado em silêncio, com as mãos nos bolsos e a luz da varanda lançando uma claridade amarelada em seu rosto.
Antes que Patrick possa me impedir, saio pela porta dos fundos, ignorando a chuva de maio que começou a cair, correndo descalça pela nossa entrada de veículos e indo até o quintal dos King.
— Parem! Tirem o contador dela! – grito.
Todas as cabeças, menos a de Olivia, se viram para mim.
Olivia continua, agora implorando e chorando: – Por favor, não levem ela. Por favor. Me levem no lugar dela. Por favor.
Cada palavra é pontuada pelo zumbido nauseante de um choque elétrico e um grito.
— Tirem a porra do contador dela!
— Volte para dentro, senhora. – Reconheço a voz de Thomas do terno escuro e da alma mais escura ainda. Então, para um dos outros, ele diz: – Coloque-a no furgão.
Estão falando de Julia, que não disse uma única palavra. Ainda não. Quando ela se vira sob a claridade fraca da luz da varanda, seu rosto está completamente inexpressivo. Está em choque. Em volta do pulso esquerdo há uma larga algema metálica. Julia vai se juntar às mulheres do mercado, a Jackie e a só Deus sabe quantas outras naquela versão deturpada do confinamento solitário. Nenhuma palavra por dia, garotas. Vamos ver quanto tempo demora para entrarem na linha.
Nunca gostei muito de Olivia, mas meus pés me levam para seu quintal, até o corpo dobrado e convulsivo em sua camisola de cetim cor de pêssego, agora grudada nela como uma película, assim como a minha está grudada em mim. Deve ser de suor, já que a varanda dos King é coberta e não está ventando. Thomas sinaliza para um dos outros homens que vem na minha direção, a mão posicionada perto da arma no cinto.
— Vá para casa, senhora. Não há nada para ver aqui.
— Mas eu…
A mão chega dois centímetros mais perto do cinto.
Agora estou testemunhando o evento mais terrível da minha vida enquanto Julia King é levada da varanda para longe da mãe, em direção ao furgão escuro. O homem que a acompanha, que na verdade está segurando de pé seu corpo frouxo, lê seus direitos.
Só que não são direitos. Não há nada do tipo “Você tem o direito de”, apenas a repetição monótona de frases que começam com “Você irá”.
Meu pé chuta um pedaço de cascalho enquanto volto para nossa porta dos fundos. Há pedrinhas demais, muitos pedaços de pedra, e quero enfiá-las aos montes nos olhos para apagar tudo que vi e tudo que vou ver.
Por exemplo, Patrick parado na cozinha, sem fazer nada. Steven, que saiu de seu quarto quando piso pingando no capacho, e agora me espia com olhos inexpressivos – olhos de boneco – enquanto o furgão que não é uma ambulância leva Julia King para seu novo lar, seu lar permanente.
Sam e Leo me trouxeram toalhas. Pego-as e mando os gêmeos e Sonia para a cama. Depois parto para o ataque.
— Que merda você fez, Steven?
Ele se encolhe ao som da minha voz, não mais o adolescente presunçoso que era ontem no jantar.
— Nada.
— O que você fez?
— Me solta, mãe!
Estou segurando meu filho de dezessete anos pelo colarinho e sinto que posso apertar e apertar seu pescoço até ele ficar vermelho, suando. Mas não é assim que desejo estar. Essa não é a imagem que quero ver no espelho amanhã de manhã. Baixo a voz: – O que você fez, garoto?
Steven parece diminuir de tamanho, encolhendo-se no canto da cozinha perto da geladeira e da estante onde antes ficavam meus livros de culinária, mil ou um milhão de anos atrás. Meu olhar vai até Patrick. Preciso de você agora, é o que meus olhos dizem.
— Eu n-não – gagueja Steven. – A coisa não foi minha culpa!
A coisa. O que é a coisa? Então eu compreendo.
— Ah, Steven…
— Ela só disse que queria beijar, tentar alguma coisa. E… – Steven olha para Patrick, procurando apoio. Quando não encontra nada além de um balanço silencioso de cabeça, ele continua: – Aquela coisa não deveria acontecer.
Coisa.
Faço uma promessa silenciosa de nunca mais usar essa palavra.
Lá fora, sob a luz da varanda dos King, Evan está gritando algo que não consigo entender enquanto Olivia desmorona sobre a parede de tijolos.
— Ela nunca vai superar isso – digo, para ninguém em particular. Depois, virando-me para Patrick, acrescenta: – Você pode ajudar? Pode falar com Carl Corbin ou Myers?
As palavras de Patrick saem rançosas: – O que eu diria?
— Meu Deus. Não sei. Você é inteligente. E se dissesse que foi culpa do Steven? Que ele começou e Julia disse não, e ele continuou mesmo assim? Que eles ficaram confusos. Ou que a coisa não aconteceu de verdade. – Aí está, a coisa de novo. – Que eles não transaram. Você pode fazer isso?
— Seria mentira – intervém Steven antes que Patrick possa responder.
— Não estou nem aí – reajo. – Você sabe o que vai acontecer com a Julia? Sabe?
Ela surge na minha visão, como num velho filme de família, andando de skate ou bicicleta na rua, com a blusa curta e a música, falando por cima da cerca enquanto eu podava as roseiras da Sra. Ray, segurando a mão de Steven. Agora a vejo na televisão, vestida com um hábito cinza, encolhendo-se sob os flashes de uma centena de máquinas fotográficas, em silêncio enquanto o reverendo Carl lê frases de seu manifesto dos Puros. Avanço rapidamente alguns anos e Julia está cansada e encurvada, fina como um junco, arrancando ervas daninhas ou limpando peixes.
E ninguém nesta casa pode fazer nada.
Como eu disse: a insensatez dos homens.