Vox
Vinte e Oito
Morgan nos guia pelo corredor, bate na sala de Lorenzo e franze o nariz quando ele abre a porta.
— Que cheiro é esse? – pergunta.
— Não estou sentindo nada – responde Lorenzo de modo inexpressivo, mas seus olhos estão sorrindo para mim.
Lin entra no jogo.
— Também não estou sentindo.
— Hum. Bom, vamos, pessoal. Temos muito trabalho a fazer se quisermos cumprir o prazo.
É a primeira vez que ouço falar num prazo, e qualquer respeito que eu pudesse ter nutrido por Morgan encolhe e morre. Ele não faz ideia de que já descobrimos a cura para a afasia de Wernicke, e sabe-se lá o que prometeu ao presidente. Não é como se estivéssemos assando a porcaria de um bolo.
— Que prazo? – pergunto.
Morgan hesita, como se estivesse inventando uma história para nos contar. Quando fala, por fim, a frase parece bem ensaiada: – O presidente deve viajar à França no fim de junho, para a cúpula do G20. Ele precisa do irmão.
— Estamos em maio. Achei que tínhamos mais tempo. O contrato não diz nada…
Ele me interrompe:
— A senhora não leu de verdade seu contrato, Dra. McClellan. Se tivesse lido, teria visto o prazo claro, 24 de junho, uma semana antes de o presidente viajar para a Europa. Mais alguma pergunta?
— Nós somos cientistas. Não obedecemos a prazos.
Lorenzo, que estivera em silêncio até então, fecha a porta da sala.
— Eu explico para elas mais tarde, Morgan. Vamos cuidar da merda administrativa para podermos começar a abordar logo o seu problema.
Lanço um olhar de incredulidade para ele, assim como Lin, mas Lorenzo balança a cabeça como quem diz “mais tarde conversamos”.
Nossa primeira parada é no escritório de segurança, uma série de salas e cubículos onde trabalham vinte homens. Não fica na nossa seção do prédio, que está deserta a não ser por Lorenzo, Lin e eu, mas um andar abaixo. Aqui não há janelas, nem na porta principal, que Morgan abriu com o crachá que está pendurado em seu pescoço.
— Somos muito preocupados com segurança aqui – diz ele, levando-nos por um mar de computadores e equipamento de vigilância em direção a um dos cubículos menores.
Lin e eu trocamos um olhar.
— Segurança para quê? – pergunto.
Morgan não responde, mas sei que ele me ouviu.
Repito a pergunta.
— Só segurança geral, Dra. McClellan. Não é algo com que a senhora precise se preocupar. – Ele se vira para o homem que está no cubículo. – Vamos precisar de cartões-chave para minha equipe, Jack.
De novo o “minha”.
Jack resmunga, carrancudo. Acho que ele tem uns cinquenta anos, talvez sessenta. Seu paletó está pendurado na cadeira, amarrotado e gasto. A camisa branca se estica na ampla barriga de chope e há manchas amarelas sob as axilas. O colarinho tem um broche prateado com um P azul num círculo. Imagino se é casado, se alguma coitada precisa ficar deitada embaixo dele enquanto o sujeito grunhe e sua. Ou, se é solteiro, será que está suficientemente alto na hierarquia para ter acesso a um dos clubes privados masculinos da cidade? Pela segunda vez hoje, visualizo Sonia com vinte anos bancando a cortesã, satisfazendo o apetite de algum monstro.
— Sente-se – diz Jack, assentindo para mim e indicando a cadeira ao lado da sua mesa. – Mão direita aqui, palma para baixo. – Ele aponta para uma tela plana no tampo da mesa, polida até brilhar.
Ponho a mão na superfície de vidro. É fria, mas não tanto quanto Jack. A máquina zumbe e uma faixa de luz escaneia a palma da minha mão.
— Olhe para a frente. Não sorria – ordena ele.
A câmera tira uma foto.
— Acabou. Sua vez. – Jack aponta para Lin, e ela passa pelo mesmo procedimento.
Quando Jack resmunga outra ordem, ela se levanta.
— Você está tão perdida quanto eu, não é, Jean? – pergunta Lin.
— Fique quieta. – Jack se vira para Lorenzo. – Dr. Rossi, sente-se, por favor. Mão direita na tela.
Escroto, penso.
Não há fotos na mesa de Jack, nenhum retrato de família, nem imagens escolares de crianças contra um fundo de nuvens ou de floresta, nenhum enfeite. Seu almoço – ou o que acho que é seu almoço – está num saco de papel pardo amarrotado que parece não suportar ser esvaziado e cheio mais uma vez. Acho que Jack não é casado e gosto desse pensamento. É melhor sofrer alguns minutos de apertos, cutucões e respiração ofegante uma vez por semana do que viver com ele 24 horas por dia, sete dias por semana.
Lorenzo terminou, e a impressora atrás de Jack cospe três crachás de plástico. Jack estende a mão para Morgan, e eles se cumprimentam. Quando ele estende a mesma mão para Lorenzo, nada acontece.
— Melhor não – diz Lorenzo. – Posso contrair alguma coisa.
É por isso que amo Lorenzo, ou esse é um dentre mil motivos. Patrick teria apertado a mão daquele escroto. Patrick teria sorrido e dito “obrigado” quando Jack lhe entregasse o cartão-chave de plástico. Patrick estaria fumegando por dentro, mas entraria no jogo.
Saímos do cubículo de Jack, e Morgan nos leva para uma pequena sala de reuniões no complexo da segurança. Não está arrumada no estilo clássico: a mesa foi empurrada para o lado, com duas cadeiras posicionadas atrás dela e três dispostas à frente, como carteiras escolares. Morgan ocupa um lugar à mesa e sinaliza para nós três nos sentarmos nas cadeiras viradas para ele.
Troco um olhar com Lorenzo, mas ele balança a cabeça, quase imperceptivelmente.
E esperamos.
Depois de dez minutos ouvindo o tique-taque do relógio na parede, um homem sério, com uma cicatriz na bochecha direita e o charme de um veterano das Forças Especiais, entra pela porta.
— Bom dia, Morgan. Bom dia, equipe.
Ele não se senta, optando por ficar de pé atrás da mesa, olhando sua plateia de cima.
Um homem daquele tamanho teria feito pelo menos algum barulho no corredor, mas apenas se esgueirou até aqui. Demoro exatamente cinco segundos para perceber que não fui com a cara dele. Pela expressão azeda de Lin, ela demorou menos ainda para avaliar sua simpatia.
— Vou ser breve e ir direto ao ponto, porque vocês têm trabalho a fazer – diz ele. – Sou o Sr. Poe e estou encarregado da segurança deste projeto.
Seus lábios mal se movem enquanto ele fala; o peito amplo não parece subir e descer. Não creio que ele tenha piscado uma vez desde que entrou na sala.
— Vocês têm um serviço a fazer aqui. As palavras importantes são “um” e “aqui”. Isso quer dizer que vocês trabalham, vão embora e voltam no dia seguinte. Não quero nenhuma conversa sobre o trabalho feito aqui com o resto do pessoal do laboratório nem qualquer socialização entre vocês fora do horário de serviço. Está claro?
— Como água – diz Lorenzo, examinando as próprias unhas.
Poe o encara, sério.
— Vocês não devem falar com ninguém sobre o projeto fora destas paredes. Não levem trabalho para casa. Se precisarem trabalhar mais de oito horas por dia, farão isso aqui. O almoço é no refeitório do terceiro andar. – Ele verifica um horário impresso. – O almoço de vocês é uma da tarde.
Lin se remexe na cadeira, descruza as pernas e cruza de novo. Seu pé roça o meu, e eu o empurro de volta. É, isso é esquisito.
Falo primeiro:
— Com licença, Sr. Poe, mas e os assistentes de laboratório? Precisamos montar experiências e…
Poe me interrompe:
— Qualquer instrução ao pessoal do laboratório será feita através de Morgan. Além disso, vocês não levarão seus laptops para casa. Um dos meus homens vai se encontrar com vocês esta tarde para configurar a segurança de seus equipamentos eletrônicos e estabelecer a intranet para sua parte da equipe.
— Achei que nós éramos a equipe – diz Lorenzo um tanto secamente.
— É isso que o Sr. Poe quis dizer – observa Morgan. Seu olhar salta para o homenzarrão parado junto dele. – Certo, Sr. Poe?
— Exato. Mais alguma pergunta? – Ele não espera a resposta. – Cada um de vocês vai passar por uma verificação de segurança ao entrar e ao sair do prédio. Este edifício tem funcionários 24 horas por dia.
Poe assente uma vez para Morgan antes de nos dar as costas e sair por onde tinha entrado. Em silêncio.
— Certo. – Morgan bate palmas uma vez, como se estivesse pedindo silêncio a uma turma bagunceira. – Vamos trabalhar. Se me acompanharem, eu mostro o laboratório.
Saímos da sala de reuniões, passamos pelo gordo Jack, que está bebendo uma Coca-Cola, e voltamos pela porta principal, sem janela. Morgan a abre com seu crachá, que, diferentemente do meu, de Lorenzo e de Lin, é azul. Os nossos são brancos.
Lin e eu ficamos para trás enquanto seguimos em direção aos elevadores.
— Aquele tal de Poe. Silencioso, mas mortal – diz ela.
— Muito. Que negócio é esse de segregação e prazo?
— Não sei. Mas, se vamos almoçar sozinhos, teremos a chance de conversar. Parece que Lorenzo sabe de alguma coisa.
— Venham, senhoras! – grita Morgan, segurando a porta do elevador aberto.
Aceleramos o passo. Morgan entra primeiro, Lorenzo por último. Quando estamos lá dentro, ele estica a mão para trás e aperta a minha.
— Dia muito empolgante – diz Morgan.
É, sim.