Um Curso de Cálculo, Volume 4
10.8 Equações diferenciais exatas
R o raio da terra, o peso do corpo à distância x da terra será ,
K constante. Como, ao nível do mar, ou seja, para x = 0, o peso é mg, onde g é aceleração gravitacional ao nível do mar e suposta constante, segue que o valor da constante K é determinado fazendo x = 0 na expressão do peso e igualando a mg, para se obter K = mgR2. Dessa forma, o movimento do corpo é regido pela equação
Suponha que o corpo é lançado com uma velocidade inicial v(0)= α. a) Determine a relação entre v e x.
b) Qual o menor valor de (velocidade de escape) para que o corpo não retorne à terra?
10.8 EQUAÇÕES DIFERENCIAIS EXATAS
Em muitas ocasiões é conveniente trabalhar com as equações diferenciais de primeira ordem na forma
A função y = y(x) (x = x(y)) será uma solução desta equação se o for de
Podemos, também, buscar solução na forma paramétrica, assim, x = x(t) e y = y(t), t num intervalo I, será solução se, para todo t em I,
Se temos uma solução na forma paramétrica, naqueles intervalos em que
podemos inverter x = x(t) e então a função y = y(x) dada por y = y(t),
com t = t(x), será solução da equação.
Suponhamos que a função y = y(x) seja dada implicitamente pela equação φ (x, y) = c, c constante. A derivada desta função obtém-se derivando os dois membros da equação em relação a x. Temos
Pela regra da cadeia,
Como , pois c é constante, resulta
Desse modo, se então, a função y = y(x) dada
implicitamente pela equação φ (x, y) = c, será solução da equação
P(x, y)dx + Q(x, y)dy = 0.
Pois bem, diremos que a equação acima é uma equação diferencial exata se existir uma função φ = φ(x, y) tal que . Neste caso,
as suas soluções serão dadas implicitamente pelas equações φ(x, y) = c.
Equação diferencial exata
Sejam P(x, y) e Q(x, y) contínuas no aberto Ω. A equação diferencial
P(x, y)dx + Q(x, y)dy = 0
será exata se existir φ = φ(x, y), (x, y) ∈ Ω, tal que
Neste caso, as funções y = y(x) ou x = x(y) dadas implicitamente pelas equações
φ(x, y) c, c constante,
são soluções da equação dada.
EXEMPLO 1. A equação x dx + y dy = 0 é exata, pois, para ,
temos
Segue que as funções y = y(x) ou x = x(y) dadas implicitamente pelas equações
x2 2 y = c, c constante,
são soluções da equação dada.
Suponhamos que
Sendo P(x, y) e Q(x, y) de classe C1 2 em Ω, então será de classe C em Ω, pelo teorema de Schwarz (Vol. 2), teremos
Por outro lado,
O que significa que, sendo P(x, y) e Q(x, y) de classe C 1 em Ω, então
em Ω é uma condição necessária para a equação ser exata. Como
vimos no Vol. 3 esta condição será, também, suficiente se for uma bola aberta. Quando estivermos resolvendo uma equação poderemos sempre supor uma bola aberta, pois, de início estaremos supondo sempre que (x, y) esteja próximo da condição inicial (x , y ). 0 0
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Condição necessária e suficiente para a equação ser localmente
exata
Sendo P e Q de classe C 1 na bola aberta Ω, a condição
é necessária e suficiente para a equação
P(x, y)dx + Q(x, y)dy = 0
ser exata em Ω.
EXEMPLO 2. A equação (x − y)dx + (x + y)dy = 0 não é exata, pois,
EXEMPLO 3. Determine uma solução y = y(x) da equação
x dx + 2 y dy = 0
que satisfaz a condição inicial y(1) = 2.
Solução
A equação é exata, pois, para , temos
A solução que queremos é dada implicitamente por ; tendo em
vista a condição inicial, segue . Assim,
■
é uma solução do problema.
EXEMPLO 4. Determine uma função y = y(x), cujo gráfico γ(x) = (x, y), y = y(x), passe pelo ponto (1, 2) e seja normal ao campo
Solução
A condição para γ que seja normal ao campo no ponto γ(x) = (x, y) é que o vetor tangente a γ no ponto (x, y), seja ortogonal ao
campo neste ponto, ou seja, é preciso que o produto escalar de γ'(x) por
seja nulo. Como
devemos ter
Assim, a curva γ(x) = (x, y), y = y(x), será ortogonal ao campo for solução da equação
x dx + 2y dy = 0.
Tendo em vista o exemplo anterior, a solução y = y(x) é dada implicitamente pela equação
Assim, a curva γ dada por
resolve o problema. Por outro lado, observando que a equação anterior é equivalente a
a curva, que é uma elipse, dada na forma paramétrica por
é, também solução.
■
Observe que a equação do exemplo anterior é uma equação de variáveis separáveis e poderia ter sido resolvida pela técnica da Seção 10.3 e que na verdade não difere em nada da técnica utilizada nesta seção.
EXEMPLO 5. Determine uma solução y = y(x) da equação
que satisfaz a condição inicial y(1) = 1.
Solução
A função y = y(x) procurada é a solução que passa pelo ponto (1, 1) da equação
2x dx − y dy = 0.
A solução que queremos é
dada implicitamente pela equação
Então é uma solução do problema. (Observe que o
domínio de uma solução é sempre um intervalo, tomamos para que
o domínio contenha 1.)
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EXEMPLO 6. Determine uma função y = y(x) cujo gráfico passe pelo ponto (1, 1) e tal que a reta tangente no ponto genérico (x, y) tenha coeficiente angular
Solução
A solução da equação que satisfaz a condição inicial y(1) = 1 resolve o problema. Como queremos uma solução que passa pelo ponto (1, 1), podemos nos restringir ao semiplano y < 2x que contém este ponto. Neste semiplano a equação é equivalente a
(x + 2y)dx + (2x − y)dy = 0
que é uma equação diferencial exata (verifique). Vamos, agora, determinar φ tal que
Integrando a 1.ª equação em relação a x, vem
onde k = k(y) é uma função a ser determinada e que só depende de y. Temos, então, que determinar k de modo que a derivada de φ em relação a y dê 2x − y. Olhando atentamente para a expressão de φ, conclui-se que devemos ter concorda? Assim,
resolve o problema. Como φ(1, 1) = 2, a função que queremos é dada implicitamente pela equação
Resolvendo esta equação do 2.º grau na incógnita y obtemos a função
que resolve o problema. Observamos que o sinal negativo antes do radical é para que a condição inicial y(1) = 1 seja satisfeita.
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A seguir, vamos destacar um procedimento prático para a determinação de supondo que a condição necessária
esteja verificada.
Procedimento prático para a determinação de φ
Integra-se a primeira equação em relação a x:
Para obter k(y), deriva-se o 2.º membro da equação anterior em relação a y e iguala-se a Q(x, y):
Observação. Às vezes é preferível começar integrando a 2.ª equação. Você é quem decide!
EXEMPLO 7. Resolva a equação y dx + (x + 2y)dy = 0.
Solução
Trata-se de uma equação exata, pois
Vamos, então, determinar φ tal que
Integrando a 1.ª equação em relação a x, obtemos
φ = xy + k(y).
Derivando o 2.º membro em relação a y e igualando a x + 2y, resulta
x + k' (y) = x + 2y e, portanto, k' (y) = 2y.
Podemos tomar, então φ = xy + y2. As soluções da forma y = y(x) ou x = x(y) são dadas implicitamente pelas equações
xy + y2 = c, c constante.
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Vejamos, agora, como se faz para determinar uma família de curvas que sejam ortogonais a um campo vetorial Para
que a curva γ(t) = (x, y), suposta diferenciável num intervalo I, seja ortogonal a este campo no ponto (x, y), o vetor tangente
deverá ser ortogonal ao campo neste ponto, ou seja, o produto escalar deste vetor tangente com o campo deverá ser nulo:
que é equivalente a
Deste modo, a curva γ(t) = (x, y) será ortogonal ao campo se for solução da equação
P(x, y)dx + Q(x, y)dy = 0.
Se esta equação for exata e
então a curva γ(t) = (x, y) será ortogonal ao campo se e somente se existir uma constante c tal que
pois, pela regra da cadeia,
e, deste modo, se γ(t) = (x, y) for solução o último membro da expressão anterior será igual a 0 em I, e daí em I, logo, existirá uma
constante c tal que se verifica. Por outro lado, se se verifica teremos
será ortogonal ao campo .
No que segue, a palavra trajetória tanto pode estar indicando uma curva como sua imagem.
Trajetórias ortogonais a um campo vetorial
As trajetórias ortogonais ao campo
são as soluções da equação
Se tal equação for exata e φ for tal que
então, γ = γ(t), t ∈ I, diferenciável no intervalo I, será ortogonal ao campo se e somente se, para alguma constante c, a sua imagem estiver contida na curva de nível
Podemos, então, olhar para estas curvas de nível como uma família de trajetórias ortogonais ao campo .
EXEMPLO 8. Determine uma família de trajetórias ortogonais ao campo vetorial
Solução
As trajetórias ortogonais a este campo são as soluções da equação
x dx + y dy = 0
Integrando, obtemos a família de circunferências
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Exercícios 10.8
1. Verifique que é exata e resolva.
2. Determine uma solução que satisfaz a condição inicial dada.
3. Determine uma curva γ(t), t ∈ I, que passa pelo ponto dado e tal que,
para todo t ∈ I, γ′(t) seja ortogonal a é o campo
vetorial dado.
4. Uma partícula desloca-se sobre o eixo x de modo que o produto da
velocidade pela diferença entre a posição e o tempo é igual à soma da posição com o tempo. Sabe-se que no instante t = 0 a partícula encontra-se na posição x = 1. Determine a posição x = x (t) da partícula no instante t > 0.
5. Determine uma função y = y (x) cujo gráfico passe pelo ponto (2, 1) e
tal que o produto da função pela sua derivada seja igual à metade da soma da função com sua derivada.
6. O movimento de uma partícula no plano é regido pelo sistema de
equações
Suponha que no instante t = 0 a partícula encontra-se na posição (1, 1), isto é, x (0) = 1 e y (0) = 1. Mostre que a partícula desloca-se sobre a elipse
(Sugestão: Verifique que