Um Curso de Cálculo, Volume 4
14 Teoremas de existência e unicidade de soluções para equações diferenciais de 1ª e 2ª ordens
14
TEOREMAS DE EXISTÊNCIA E
UNICIDADE DE SOLUÇÕES PARA
EQUAÇÕES DIFERENCIAIS DE 1.ª
E 2.ª ORDENS
14.1. TEOREMAS DE EXISTÊNCIA E UNICIDADE DE
SOLUÇÕES PARA EQUAÇÕES DIFERENCIAIS
DE 1.ª E 2.ª ORDENS
Teorema (de existência e unicidade para equação diferencial
de 1.ª ordem do tipo y′ = f (x, y)). Seja Ω um subconjunto aberto do 2 2 e seja f (x, y) definida em Ω. Suponhamos que f e sejam
contínuas em. Seja (x , y ) um ponto qualquer de Ω. Nestas 0 0
condições, a equação
admite uma solução y = y (x), x ∈I, que satisfaz a condição inicial
y (x ) = y , 0 0
onde I é um intervalo aberto contendo x . 0
Além disso, se y = φ (x) e y = α (x) forem soluções de , 1 2
definidas em intervalos abertos I e I contendo x , tais que 1 2 0
φ (x ) = φ (x ), 1 0 2 0
então, para todo x ∈ I ∩ I , 1 2
φ (x) = φ (x). 1 2
O teorema acima, cuja demonstração se encontra no Apêndice 1, conta-
nos que se f e forem contínuas em Ω, então, para cada (x , y ) ∈ Ω, a 0 0
equação admitirá uma solução cujo gráfico passa por (x , y ). O teorema 0 0 conta-nos, ainda, se os gráficos de duas soluções φ e φ , definidas em 1 2 intervalos abertos I e I , interceptam-se em algum ponto, então φ (x) = φ 1 2 12 (x) em I ∩ I . 1 2
EXEMPLO 1. Resolva a equação de Bernoulli
y′ + y = xy 2.
Solução
y′ + y = xy 2 2 ⇔ y′ = −y + xy.
Seja f (x, y) = − y + xy2. Temos
Assim, f e 2 são contínuas em Ω = . Segue que o teorema anterior se
aplica. A função constante
y = 0
é solução da equação dada. (Verifique.) Pelo teorema anterior, se y = y (x), x ∈ I, for solução e se, para algum x ∈ I, tivermos y (x ) = 0, então teremos 0 0 também
y (x) = 0
para todo x ∈ I. Assim, se y = y (x), x ∈ I, for solução da equação, teremos:
y (x) = 0 para todo x ∈ I
ou
y (x) ≠ 0 para todo x ∈ I.
Vamos, então, determinar as soluções y = y (x), com y (x) ≠ 0. Para y ≠ 0, a equação é equivalente a
Fazendo P (x, y) = y −1 −2 −x e Q (x, y) = y, vem:
Logo, e−x −x é um fator integrante para . Como e ≠ 0, para todo x, é equivalente a
(y−1 −x −x −x −2 e − x e ) dx + e y dy = 0,
que é uma equação diferencial exata. As soluções y = y (x) desta equação são dadas implicitamente pelas equações
y−1 −x −x −x e − xe −e = c,
ou seja,
Portanto,
y = 0
e
é a família das soluções da equação dada.
(Para outro modo de resolução, veja Seção 10.5).
Nosso objetivo, a seguir, é esboçar os gráficos das soluções acima.
Temos as soluções
e
(Lembre-se de que o domínio de uma solução é sempre um intervalo.)
1 + x + cex x = 0 ⇔ 1 + x = −ce.
Logo,
1 + x + cex > 0 para x > α e
1 + x + cex < 0 para x < α.
Observe que
e
Temos as soluções
e
Observe que, para todo c > 0, α < − 1.
1 + x + cex x = 0 ⇔ para 1+ x = −ce.
Temos
Temos as soluções
e
1 + x − ex < 0 para x ≠ 0.
Temos as soluções
e
1 + x + cex < 0 para todo x.
Temos as soluções
Observe que
e
EXEMPLO 2. Mostre que a equação
admite soluções distintas cujos gráficos se interceptam. Este fato contradiz o teorema de existência e unicidade? Explique.
Solução
A função constante y = 0 é solução. Separando as variáveis, obtemos as soluções
y = (x + c)3 (c ∈ )
(Verifique.) É claro que os gráficos de
y = 0 e y = (x + c)3
interceptam-se no ponto (−c, 0).
Este fato não contradiz o teorema anterior, pois
não é contínua em 2: é descontínua nos pontos (x, 0), com x ∈ R.
(Neste exemplo, f(x, y) = 3y2/3.) Observamos finalmente que
y = 0
e
y = (x + c)3 (c ∈R)
é uma família de soluções da equação dada. Entretanto, esta família não inclui todas as soluções de ! Por exemplo, a função y = φ(x), x ∈ R, dada por
é solução da equação dada (verifique) e não está incluída na família acima. Fica a seu cargo determinar outras soluções que não estão incluídas em tal família.
■
EXEMPLO 3. Resolva a equação
Solução
Agora, Ω = {(x, y) 2 ∈, y > 0}.
são contínuas em Ω. A equação dada é equivalente a
y−2/3 dy = 3 dx
cuja solução geral é
y = (x + c)3, x > −c (c ∈ ).
Consideremos a equação
y′ = x2 2 + y.
Como f(x, y) = x 2 2 2 + y e = 2y são contínuas em , para cada ponto (x ,
0
y 2 ) ∈ existe uma solução satisfazendo a condição inicial y (x ) = y .
0 0 0
Entretanto, como não sabemos resolver tal equação, qualquer informação numérica sobre tais soluções deve ser obtida utilizando métodos de Cálculo Numérico. O que faremos nos próximos exemplos é obter algumas informações qualitativas sobre a solução que satisfaz a condição inicial y (0) = 0.
EXEMPLO 4. Considere a equação
y′ = x2 2 + y.
Seja y = φ(x), x ∈ ] r, r[, r > 0, uma solução que satisfaz a condição inicial φ(0) = 0. Determine o polinômio de Taylor de ordem 3 de φ, em volta de x0 = 0.
Solução
O polinômio pedido é
Vamos, então, calcular φ′ (0), φ″ (0) e φ′″ (0). Para todo x no domínio de φ,
φ' (x) = x2 2 +φ(x).
Logo, φ′(0) = 0, pois φ (0) = 0.
φ″ (x) = 2x + 2φ (x) φ′ (x)
e
φ′′(x) = 2 + 2 φ′ (x) φ′ (x) + 2φ (x) φ″ (x).
Segue que φ″ (0) = 0 e φ′″ (0) = 2. Então
Assim, para | x | suficientemente pequeno,
EXEMPLO 5. Seja y = φ (x), x ∈ ] r, r[, a solução do exemplo anterior. Prove que, para todo x ∈]0, r[,
Solução
Seja
Temos g (0) = 0. Basta provarmos, então, que
g′ (x) > 0 em ]0, r[.
Temos
g′ (x) = φ′ (x) x2
e
φ′ (x) = x2 2 + φ (x)
Logo,
g′ (x) = φ2 (x) > 0 em ]0, r[.
Observação. Como φ′ (x) > 0 em ]0, r[ e φ (0) = 0, resulta φ(x) > φ (0) = 0 em ]0, r[.
■
EXEMPLO 6. Seja y = φ (x), x ∈ ] −r, r[, a solução do Exemplo 4. Prove que φ é uma função ímpar, isto é,
φ (−x) = − φ (x)
para todo x ∈ ] −r, r[.
Solução
Como é solução, para todo x ∈ ] −r, r[,
φ′ (x) = x2 2 + φ (x).
Segue que, para todo x ∈ ] −r, r[,
φ′ (−x) = (−x)2 2 [ + φ (− x)].
Consideremos a função φ definida em ] −r, r[ e dada por φ (x) = −φ (−x). 1 1 Temos
φ′ (x) = φ′ (−x) (Verifique.) 1
Como
[ φ (−x)] 2 2 2 = [ −φ(− x)] = [ φ (x)]
1
e
(−x) 2 2 = x,
resulta que, para todo x ∈ ] −r, r[,
φ′ (x) = x2 2 + φ (x).
1
Temos, ainda, φ (0) = −φ(−0) = 0. Segue que y = φ (x) é solução de 1 1
y′ = x2 2 + y,
satisfazendo a condição inicial φ (0) = 0. Segue do teorema de existência a 1 unicidade que, para todo x ∈ ] −r, r[,
φ (x) = φ (x), 1
ou seja,
φ (x) = − φ (−x).
Logo, φ é uma função ímpar.
■
EXEMPLO 7. Seja y = φ (x), x ∈ ] −r, r[, a solução do Exemplo 4. a) Prove que é estritamente crescente em ] −r, r[. b) Prove que φ tem a concavidade para baixo em ] −r, 0[ e para cima em
]0, r[.
Solução
φ′ (x) = x2 2 + φ (x) em ] −r, r[.
a) é contínua em ] −r, r[ e φ′ (x) > 0 em ] r, 0[ e em ]0, r[. Logo, φ é estritamente crescente em ] −r, r[.
b) φ″ (x) = 2x + 2φ (x) φ′ (x).
Segue que
φ″ (x) < 0 em ] −r, 0[
e
φ″ (x) > 0 em ]0, r[.
(Observe que φ (x) < 0 em ] −r, 0[ e φ (x) > 0 em ]0, r [.) Logo, φ tem a concavidade para baixo em ] −r, 0[ e para cima em ]0, r[.
■
EXEMPLO 8. Seja y = φ(x), x ∈ ] −r, r [, a solução do Exemplo 4. Seja x0 ∈ ]0, r[, com x fixo. Prove que 0
Solução
φ' (x) = x 2 2 + φ (x) em ]−r, r[.
Daí
φ' (x) ≥ φ2 (x) em ]−r, r[.
Segue que, para todo x ∈ [x , r[, 0
Daí
para x ≤ x < r. Logo, para x ≤ x < r, 0 0
ou seja,
Observe que o gráfico de
é
Portanto, Concorda?
■
Observação. O exemplo anterior nos diz que se y = φ (x), x ∈ ] −r, r[, for solução de
y' = x2 2 + y,
satisfazendo a condição inicial φ (0) = 0, então r não pode ser igual a + ∞.
Segue dos exemplos anteriores que o gráfico da solução do Exemplo 4 tem o seguinte aspecto.
EXEMPLO 9. Resolva a equação
y″ = 2yy'.
Solução
Observamos, inicialmente, que se trata de uma equação diferencial de 2.ª ordem e não linear. Como
(y 2)' = 2yy',
a equação dada é equivalente a
y″ = (y 2)'
e, portanto, equivalente à família de equações diferenciais de 1.ª ordem
Seja f (x, y) = y 2 + c. Temos: Assim, para cada c ∈ , f e
são contínuas em Ω = 2. Logo, o teorema anterior se aplica às
equações .
y' = y 2.
A função constante y = 0 é solução. Para y ≠ 0, a equação é equivalente a
e, portanto, ou seja,
y = 0
e
é a família das soluções de y' = y2. (Por quê?)
A equação é equivalente a
e, portanto,
ou seja,
As funções constantes
são soluções. Para y2 + c ≠ 0, é equivalente a
e, portanto,
ou seja,
e, portanto,
Conclusão
é a família das soluções da equação
y″ = 2yy'.
■
Sejam φ e φ duas soluções da equação do exemplo anterior e definidas em 1 2
intervalos abertos I e I contendo x . Observe que φ (x ) = φ (x ) não 1 2 0 1 0 2 0 implica φ (x) = φ (x) em I ⋂ I . Por exemplo, as funções 1 2 1 2
são soluções de y″ = 2yy' tais que
Entretanto, φ (x) ≠ φ (x) para todo x em Contudo, se 1 2
além da condição
φ (x ) = φ (x ), 1 0 2 0
tivéssemos, também,
φ' (x ) = φ' (x ), 1 0 2 0
então teríamos φ (x) = φ (x) em I ⋂ I , como nos conta o próximo 1 2 1 2 teorema, cuja demonstração omitiremos. (Para demonstração veja referências bibliográficas 26 e 29.)
Teorema (de existência e unicidade para equação diferencial
do tipo y″ = f (x, y, y')). Seja f (x, y, z) definida no aberto Ω 3 ⊂ tal
que f, sejam contínuas em Ω. Seja (x , y , y ) um ponto 0 0 1 qualquer de. Nestas condições, a equação
admite uma solução y = y (x), x ∈ I, satisfazendo as condições iniciais
y (x ) = y e y' (x ) = y , 0 0 0 1
onde I é um intervalo aberto contendo x . 0
Além disso, se y = φ (x) e y = φ (x) forem soluções de , 1 2
definidas em intervalos abertos I e I contendo x e tais que 1 2 0
φ (x ) = φ (x ) e φ ' (x ) = φ ' (x ) 0 2 0 1 0 2 0
então φ (x) = φ (x) em I ⋂ I . 1 2 1 2
Exercícios 14.1
1. Resolva a equação de Bernoulli dada. Esboce os gráficos das
soluções.
a) 3 y' + y = xy
b) −1 y' + y = xy, y > 0
2. Seja y = φ(x), x ∈ ] −r, r[ uma solução da equação
y' = x 2 + cos y
satisfazendo a condição inicial φ (0) = 0. Prove que φ é uma função ímpar.
3. Seja y = φ(x), x ∈ ] −r, r[, uma solução da equação
y' = xe 2 y
satisfazendo a condição inicial φ(0) = y , onde y é um real dado. 0 0 Prove que φ é uma função par.
4. Seja y = φ(x) uma solução da equação
y' = x 2 + cos y
satisfazendo a condição inicial φ (0) = 0. Determine o polinômio de
Taylor de ordem 5 de φ, em volta de x = 0. 0
5. Pode φ ser provado que a equação
y' = x 2 + cos y
admite uma solução y = φ (x) definida no intervalo e
satisfazendo a condição inicial φ (0) = 0. Utilizando a fórmula de Taylor com resto de Lagrange, mostre que, para todo x em
Avalie φ (x) para x = 0,01. Estime o erro.
Observação. Suponha que f e sejam contínuas no aberto Ω ⊂
2 e seja (x , y ) um ponto de Ω. Sejam a > 0 e b > 0 tais que o
0 0
retângulo
esteja contido em Ω. Seja M > 0 tal que, para todo (x, y) em 2,
Seja r > 0 tal que
r ≤ a, Mr ≤ b.
Pode ser provado (veja Apêndice 1) que a equação
y' = f (x, y)
admite uma solução definida no intervalo [x − r, x + r] e 0 0 satisfazendo a condição inicial y(x ) = y . 0 0
6. Seja y = φ (x), x ∈] −r, r[, uma solução da equação
y' = x2 2 + y
satisfazendo a condição inicial y(0) = y , com y > 0. Prove que 0 0
7. 2 Suponha f : Ω → contínua no aberto contido em . Seja y = φ (x)
definida no intervalo I e com gráfico contido em Ω. Seja (x , y ) ∈ Ω, 0 0 com x ∈ I. Prove que y = φ (x), x ∈ I, será solução da equação 0
y' = f (x, y)
e satisfazendo a condição inicial φ (x ) = y se, e somente se, 0 0
8. Determine φ.
9. (Sequência de Picard.) Considere a equação diferencial
y' = f (x, y)
com a condição inicial y (x ) = y . Seja φ uma função constante 0 0 0 definida no intervalo I, com x ∈ I, e dada por φ (x) = y . 0 0 0 Consideremos a sequência de funções
definidas em I. Suponhamos que tais funções sejam obtidas pelo seguinte processo de recorrência:
Uma tal sequência denomina-se, então, sequência de Picard para o problema
a) Determine a sequência de Picard para o problema y' = y, y (0) = 1. b) x Verifique que tal sequência converge para a solução y = e.
10. Seja φ , φ , φ , ..., φ , ... a sequência de Picard para o problema 0 1 2 n
y' = x2 2 + y, y (0) = 0.
Determine φ , φ , φ e φ . 0 1 2 3
Observação. Suponha que f e sejam contínuas no aberto Ω e veja
(x , y ) ∈ Ω. Sejam a > 0 e b > 0 dois reais tais que o retângulo 0 0
x − a ≤ x ≤ x + a e y − b ≤ y ≤ y + b 0 0 0 0
esteja contido em Ω. Seja M > 0 tal que
no retângulo citado. Seja r > 0 tal que
r ≤ a e Mr ≤ b.
Pode ser provado (veja Apêndice 1) que a sequência de Picard
φ (x) = y 00
converge uniformemente em [x − r, x + r]. Pode ser provado, ainda, 0 0 que a função y = φ (x), x ∈ [x − r, x + r], dada por 0 0
é solução da equação
y' = f (x, y)
satisfazendo a condição inicial φ (x ) = y . 0 0