Um Curso de Cálculo, Volume 4
12 Sistemas de duas e três equações diferenciais lineares de 1ª ordem e com coeficientes constantes
12
SISTEMAS DE DUAS E TRÊS
EQUAÇÕES DIFERENCIAIS
LINEARES DE 1.ª ORDEM E COM
COEFICIENTES CONSTANTES
12.1. SISTEMA HOMOGÊNEO DE DUAS EQUAÇÕES
DIFERENCIAIS LINEARES DE 1a ORDEM,
COM COEFICIENTES CONSTANTES
Um sistema de duas equações diferenciais lineares de 1.ª ordem, homogêneo, com coeficientes constantes, é um sistema do tipo
onde os a são reais dados. Uma solução de é um par de funções ij
tal que, para todo t ∈ I,
EXEMPLO 1. O par de funções x = cos t e y = sen t, t ∈ , é uma solução do sistema
pois, para todo t ∈ ,
Sejam
soluções de . Deixamos a seu cargo verificar que, quaisquer que sejam os números reais k e k , 1 2
também será solução de . Utilizando vetores-colunas, pode ser reescrita na forma vetorial
A expressão acima nos diz que se
são soluções de , então qualquer combinação linear delas também será solução. Os dois exemplos que apresentaremos a seguir mostram que existem soluções tais que qualquer outra solução de é da forma .
Primeiro estudaremos o caso em que a ≠ 0 ou a ≠ 0 e, em seguida, o caso 12 21 a = a = 0. 12 21
EXEMPLO 2. Resolva o sistema
supondo a ≠ 0 ou a ≠ 0. 12 21
Solução
Vamos mostrar que resolver este sistema é equivalente a resolver uma equação diferencial linear de 2.ª ordem, homogênea e com coeficientes
constantes. Para fixar o raciocínio, vamos supor a ≠ 0. Façamos a 12 mudança de variável
Daí
Agora, multiplicando a 2.ª equação do sistema dado por a12 e substituindo
e no sistema obtido, resulta
e, portanto,
Da 1.ª equação, segue
Substituindo na 2.ª, obtemos
Assim, se x = x (t) e u = u (t) for solução de , então x = x (t) será solução da equação diferencial linear de 2.ª ordem, homogênea e com coeficientes constantes
Por outro lado, se x = x (t) for solução de , então x = x (t) e u = (t) será solução de . Observamos que a equação característica de é
onde o 1.º membro é o determinante da matriz Sejam λ e λ as raízes (reais ou complexas) da equação acima. Então, a 1 2
solução geral de ; será
ou
ou
Se λ ≠ λ e reais, teremos 1 2
De a y = u − a x, resulta 12 11
Por outro lado, se λ = λ , teremos 1 2
Fazendo c = a k e c = a k , resulta 1 12 1 2 12 2
Se λ ≠ λ e reais, a solução geral será 1 2
Se λ = λ , a solução geral será 1 2
Deixamos a seu cargo verificar que, se λ = α ± iβ, β ≠ 0, a solução geral será
onde m = α − a . 11
■
Observação. Como sabemos, dados os números reais t , x e y , a equação 0 0 0
admite uma, e somente uma, solução x = x (t), t ∈ , satisfazendo as
condições iniciais x (t ) = x e (t ) = y . (Confira.) Segue que o sistema 0 0 0 0 dado admite uma, e somente uma, solução x = x (t) e y = y (t), t ∈ , satisfazendo as condições iniciais x (t ) = x e y (t ) = y . 0 0 0 0
EXEMPLO 3. Resolva
Solução
e
A solução geral é então
Observe que λ = a e λ = a são as raízes da equação 1 11 2 22
A solução geral pode então ser colocada na forma
■
Observação. Fazendo, em , , obtemos a única
solução do sistema que satisfaz as condições iniciais x (t ) = x e y (t ) = y . 0 0 0 0
O importante teorema que destacaremos a seguir é consequência dos Exemplos 2 e 3 e das observações que seguem estes exemplos. (Verifique.)
Teorema (de existência e unicidade). Dados os números reais t , x 00 e y , o sistema admite uma solução 0
satisfazendo as condições iniciais
x (t ) = x e y (t ) = y . 0 0 0 0
Além disso, se
for outra solução tal que
x (t ) = x e y (t ) = y , 1 0 0 1 0 0
então, para todo t ∈ I,
x (t) = x (t) e y (t) = y (t). 1 1
Uma pergunta que surge naturalmente é a seguinte: sabendo que
são duas soluções de , que condições elas devem satisfazer para que
seja a solução geral de ? Tendo em vista o teorema anterior, para que a
expressão acima seja a solução geral basta que, para quaisquer reais t , x e 0 0 y dados, existam k e k tais que para estes k e k a solução acima satisfaça 0 1 2 1 2 as condições iniciais
x (t ) = x e y (t ) = y . 0 0 0 0
Basta, então, como se verifica facilmente, que, para todo t , 0
Conclusão
Sendo
duas soluções de tais que, para todo t real,
então
é a solução geral de .
Sendo soluções de , a função W = W (t), t ∈ dada pelo determinante
denomina-se wronskiano de tais soluções. O resultado acima nos diz simplesmente que se o wronskiano W (t) for diferente de zero para todo t, então
será a solução geral de . Abel e Liouville descobriram que, para se ter W (t) ≠ 0, para todo t, basta que se tenha W (0) ≠ 0, como mostra o próximo teorema.
Teorema (de Abel-Liouville). Seja W (t) o wronskiano das
soluções
do sistema . Então, para todo t real,
Em particular, se W (0) ≠ 0, então, para todo t real, W (t) ≠ 0.
Demonstração
Derivando em relação a t, obtemos
Como são soluções de , resulta
Segue que
e, portanto,
(t) = (a + a ) W (t). 11 22
Assim, W = W (t) é uma solução da equação diferencial linear de 1.ª ordem
Logo, existe uma constante k tal que
Como k = W (0), resulta