Um Curso de Cálculo, Volume 4
11.6 Determinação de solução particular através da transformada de Laplace
Exercícios 11.5
Determine uma solução particular.
11.6. DETERMINAÇÃO DE SOLUÇÃO PARTICULAR
ATRAVÉS DA TRANSFORMADA DE LAPLACE
Antes de iniciar a leitura desta seção, sugerimos ao leitor rever o Cap. 3 do Vol. 2, principalmente, os Exercícios 7 e 8 da Seção 3.1.
Seja f definida em [0, +∞[. A função g dada por
denomina-se transformada de Laplace de f. Evidentemente, o domínio de g é o conjunto de todos os s para os quais a integral imprópria é convergente.
EXEMPLO 1. Determine a transformada de Laplace de f (t) = t.
Solução
Como sabemos,
Integrando por partes, vem
Para s > 0,
Assim,
Portanto, a transformada de Laplace de f (t) = t é a função
EXEMPLO 2. Determine a transformada de Laplace de
Solução
Como f (t) = 0 em ]0, a[, resulta
Como
resulta, para s > 0,
Logo, a transformada de Laplace da função dada é
Vamos apresentar, a seguir, uma pequena tabela de transformadas de Laplace, cuja verificação deixamos a seu cargo.
f (t)
1
eαt
tn
sen αt
cos αt
eαt cos βt
eαt sen βt
tn eαt
t sen βt
t cos βt
Seja f uma função definida em [0, +∞[. Dizemos que f é de ordem exponencial γ se existirem constantes M > 0 e γ > 0 tais que, para todo t ≥ 0.
EXEMPLO 3. Seja f definida em [0, +∞[. Suponha que f seja limitada em [0, α], para todo α > 0, e que existe γ > 0 tal que
Prove que f é de ordem exponencial γ.
Solução
Segue de que, tomando-se = 1, existe r > 0 tal que Portanto,
Por outro lado, como f é, por hipótese, limitada no intervalo [0, r[, existe uma constante M ≥ 1 tal que
| f (t) | ≤ M, 0 ≤ t ≤ r.
Como eγi ≥ 1 para t ≥ 0, resulta
Tendo em vista e pelo fato de M ≥ 1, resulta
Segue de e que
| f (t) | ≤ M eγt, t ≥ 0.
Logo, f é de ordem exponencial γ.
■
Segue, do Exemplo 3, que as funções constante, sen t, cos t, e αt n αt , t e cos t são de ordem exponencial. Seja f (t) = P (t) e αt (cos βt + sen βt), onde P é um polinômio e α e β, reais dados. Do que vimos nas seções anteriores, resulta que as soluções da equação linear de 2.ª ordem com coeficientes constantes
são de ordens exponenciais.
O próximo teorema nos conta que a transformada de Laplace destrói derivadas.
Teorema 1
a) Se f for de classe C1 em [0, +∞[ e de ordem exponencial γ, então
b) Se f for de classe C 2 em [0, +∞[ e se f e f' forem de ordem exponencial γ, então
Demonstração
a) Suponhamos que f seja de ordem exponencial γ; assim, existe M > 0 tal que
| f (t) | ≤ M eγt, para t ≥ 0.
Segue que
Logo, para s > γ, a integral imprópria
é absolutamente convergente e, portanto, convergente. (Utilizamos aqui o critério de comparação: para s > γ,
é convergente.) Integrando por partes,
Como, para s > γ,
resulta de que
Logo, para s > γ,
b) Fica a seu cargo.
■
O próximo teorema, cuja demonstração é deixada para o final da seção, conta-nos que se duas funções definidas em [0, +∞[, contínuas e de ordens exponenciais, tiverem transformadas de Laplace iguais, então serão iguais.
Teorema de Lerch. Sejam f e f contínuas em [0, +∞[ e de 1 2
ordens exponenciais. Se existe s tal que 0
então
f (t) = f (t) em [0, +∞[. 1 2
Antes de passarmos aos exemplos, observamos que
e
onde k é uma constante.
EXEMPLO 4. Determine uma solução particular da equação
Solução
Vamos procurar a solução particular que satisfaz as condições iniciais x (0) = 0 e (0) = 0. Sabemos que esta solução é de ordem exponencial. Vamos então calcular sua transformada de Laplace. Aplicando a transformada de Laplace aos dois membros, vem:
ou seja,
Pelo teorema 1, parte b,
pois x (0) = 0 e (0) = 0. Temos, também,
Substituindo em , obtemos
ou seja,
Vemos, pela tabela, que a função que admite como
transformada de Laplace (Confira!) Logo,
é uma solução particular. (Observe. é a transformada de Laplace
da solução procurada. Pelo Teorema de Lerch, é a única
função contínua de ordem exponencial cuja transformada de Laplace é a função acima. Todas as soluções da equação dada são contínuas e de ordens exponenciais. Conclusão: é a solução que satisfaz as
condições iniciais x (0) = 0 e (0) = 0.)
Fica a cargo do leitor verificar, por substituição direta na equação, que
t sen t, t ∈ , é uma solução particular da equação
■
EXEMPLO 5. Calcule a função contínua, de ordem exponencial, x = x (t), t ≥ 0, tal que
Solução
A expressão não aparece na tabela, mas expressões da forma
Vamos, então, decompor em expressões destes tipos:
Segue que A = 1 e B = −1. Então
Pela tabela, é a transformada de Laplace da função constante 1 e da
função e−t. Assim,
x = 1 − e−t.
■
EXEMPLO 6. Determine a solução do problema
Solução
Temos:
ou seja,
(Pela tabela, a transformada de Laplace da função constante 1 é .) Temos:
Substituindo em e levando em conta as condições iniciais, resulta:
ou seja,
e, portanto,
Como
resulta
x = −1 + et,
que é a solução procurada. (Verifique.)
■
Para demonstrar o teorema de Lerch vamos precisar do seguinte
Lema. Seja G: [0, 1] → contínua. Se, para todo polinômio P (t),
então
G (t) = 0 em [0, 1].
Demonstração
Suponhamos que exista c em [0, 1], com G (c) ≠ 0. Podemos supor G (c) > 0. Pelo teorema da conservação do sinal, existe um intervalo [a, b] contido em [0, 1], com c ∈ a, b], tal que
Para todo natural n ≥ 1, seja P (t) o polinômio dado por n
P n (t) = [1 + (t − a) (b − t)].
n
Observe que, para t ∈ [0, a] ∪ [b, 1],
0 ≤ P (t) ≤ 1. n
Segue que
e
Por outro lado, tendo em vista que
(t − a)(b − t) ≥ 0 em [a, b],
resulta, para todo t ∈ [a, b] e todo natural n ≥ 1,
De e resulta, para todo natural n ≥ 1,
Como
obtemos
Portanto, existirá um natural n tal que 1
que está em contradição com a hipótese. (Seja H (t) = G (t) P (t); veja: n n
onde
Portanto,
G (t) = 0 em [0, 1].
■
Vamos, agora, demonstrar o teorema de Lerch.
Demonstração do teorema de Lerch
Façamos h (t) = f (t) − f (t), t ≥ 0. Segue da hipótese que 1 2
Vamos provar, então, que
h (t) = 0 em [0, +∞[.
Segue de que, para todo natural k,
Fazendo a mudança de variável x = e −t, obtemos
ou seja,
(Observe que, para u → +∞, e −u → 0.)
Consideremos a função G: [0, 1] → dada por
Vamos mostrar que, para um s suficientemente grande (com s > s ), G é 0 contínua em x = 0.
Como as funções f e f são de ordens exponenciais, a função h também 1 2
será. Logo, existem constantes M > 0 e γ > 0 tais que
| h (t) | ≤ M e γt, t ≥ 0.
Segue que, para todo 0 < x ≤ 1,
| G (x) | = | xs − 1 s − − 1 h (−ln x) | ≤ M x. γ
Seja s máx {s , 1 + γ}. Tomemos s > s . Para este s, G é contínua em x = 0. 1 0 1 De fato, para s > s , 1
logo, pelo teorema do confronto,
Segue que G é contínua em x = 0. Como G é contínua em ]0, 1] (por quê?), resulta que G é contínua em [0, 1].
Seja s > s como acima. De e resulta, para todo natural k, 1
Portanto, para todo polinômio P (x),
Pelo Lema,
G (x) = 0 em [0, 1].
Logo,
Para mais informações sobre transformada de Laplace, veja referências bibliográficas 9 e 17.
Exercícios 11.6
Utilizando transformada de Laplace, determine a solução do problema dado. Verifique sua resposta por substituição na equação. (Suponha t ≥ 0.)