Um Curso de Cálculo, Volume 4
10.10 Exemplos diversos
Utilize, então, o Exercício 12 para determinar uma família de soluções da equação dada.
10.10 EXEMPLOS DIVERSOS
EXEMPLO 1. O movimento de uma partícula no plano é regido pela equação
Suponha que no instante t = 0 a partícula encontra-se na posição (x (0), y (0)) = (1, 0). Mostre que a partícula desloca-se sobre a elipse
(x − y) 2 2 + y = 1.
Solução
Seja onde I é um intervalo contendo 0, a posição da partícula no instante t. Multiplicando-se a 1.ª equação de por x − y e a 2.ª por −x + 2y e
somando membro a membro, obtemos
Segue que, sendo solução de , será também solução de
(x − y) dx + (−x 2y) dy = 0,
que é uma equação diferencial exata. A função
é tal que segue que, para todo
t ∈ I, o ponto (x (t), y(t)) pertence à curva de nível
Portanto, o movimento da partícula realiza-se sobre a elipse
EXEMPLO 2. Considere um fluido em escoamento bidimensional, com campo de velocidade
Mostre que as trajetórias descritas pelas partículas do fluido são elipses.
Solução
Consideremos uma partícula qualquer do fluido e suponhamos que no instante t sua posição seja dada por
Na posição (x (t), y (t)) a velocidade da partícula é igual a Segue que o movimento das partículas é regido pela equação
Procedendo como no exemplo anterior, resulta que é solução de
(x − y) dx + (−x + 2y) dy = 0,
cuja solução é a família de elipses
(x − y)2 2 + y = k.
Deste modo, as partículas do fluido deslocam-se sobre elipses.
■
EXEMPLO 3. Determine uma solução do sistema
que passa pelo ponto (1, 0).
Solução
Seja
uma tal solução. Procedendo-se como nos exemplos anteriores, resulta que, para todo t ∈ I,
(x − y) 2 2 + y = 1.
Como estamos interessados numa solução que passa pelo ponto (1, 0), podemos, então, supor x (t) − y (t) > 0 para todo t ∈ I. Da equação anterior obtemos
Substituindo na 2.ª equação do sistema dado, resulta
Separando as variáveis, vem:
e, portanto, arc sen y = −t + k . Supondo que no instante t = 0 temos y = 0, 1
resulta
Substituindo na equação , obtemos
x = −sen t + cos t.
Portanto,
satisfaz as condições dadas. Deixamos a seu cargo verificar que a restrição
pode ser eliminada. Isto é,
é, também, solução do problema.
■
Sejam φ(x, y) e φ 1 (x, y) definidas e de classe C no aberto Ω;
1
suponhamos que seus gradientes nunca se anulam em Ω. Dizemos que as famílias de curvas
são ortogonais se, para todo (x, y) ∈ Ω,
o que significa que as curvas da família φ(x, y) = c interceptam
ortogonalmente as da família φ(x, y) = c . 1
EXEMPLO 4. Determine uma família de curvas que seja ortogonal à família
Solução
Seja φ(x, y) = x2 2 + 4y. Temos
A família que queremos deverá, então, ser ortogonal ao campo
As curvas desta família são as soluções da equação
−8y dx + 2x dy = 0.
(Veja a Seção 10.8 deste volume.)
Separando as variáveis, vem
Portanto,
−4 ln x + ln y = k . 1
Segue que
y = cx4 (c > 0)
é uma família ortogonal à família dada.
■
EXEMPLO 5. Determine uma solução da equação
que satisfaça as condições .
Solução
Seja x = x (t), t ∈ I, uma tal solução. (I é um intervalo contendo 0.) Temos:
Portanto, para todo t ∈ I,
logo, existe uma constante c tal que
Tendo em vista as condições iniciais dadas, resulta
ou seja,
Separando as variáveis, vem
e, portanto,
arc tg x = t + k.
Sendo k = 0, pois x (0) = 0, resulta
EXEMPLO 6. O movimento de uma partícula sobre o eixo x é regido pela equação
Sabe-se que . Determine a posição x = x (t) da
partícula.
Solução
Multiplicando por , obtemos
Temos:
Seja x = x (t), t ∈ I, a posição da partícula no instante t. (I é um intervalo contendo 0). Segue do que vimos acima que, para todo t ∈ I,
logo, existe uma constante c tal que, para todo t ∈ I,
Tendo em vista as condições iniciais, resulta c = 0. Assim, para todo t ∈ I,
Como nunca se anula, resulta que x > (t) 0 para todo t ∈ I. (Observe que é contínua.) Então
Separando as variáveis, vem
e, portanto,
Tendo em vista a condição x (0) = 1, resulta Portanto,
ou seja,
EXEMPLO 7. Seja f (x) uma função definida e contínua no intervalo J e seja U (x) uma primitiva de −f (x) em J, isto é, U' (x) = −f (x) para todo x ∈ J. Prove que se x = x (t), t ∈ I for uma solução da equação
então existirá uma constante c tal que, para todo t ∈ I,
Solução
Basta mostrar que
Temos
e
Daí e pelo fato de resulta
Logo, existe uma constante c tal que, para todo t ∈ I,
(Veja também Seção 15.11 deste volume.)
■
Observação (conservação de energia). Suponhamos que uma partícula de massa m = 1 desloca-se no eixo Ox sob a ação da força resultante f (x) , onde f (x) é suposta definida e contínua no intervalo J. Seja U (x) uma primitiva de −f (x) em J. (Neste caso, a função U (x) denomina-se uma função energia potencial para f.) Pela 2.ª lei de Newton (massa × aceleração = resultante) temos
que é a equação que rege o movimento da partícula. Pelo exemplo anterior
o que significa que a soma da energia cinética com a energia potencial permanece constante durante o movimento.
EXEMPLO 8. Seja θ = θ (t) solução da equação
onde c é uma constante conveniente, θ(t ) = θ e θ (t ) = θ . 0 0 1 1
Solução
Segue, do exemplo anterior, que existe uma constante c tal que, para
todo t ∈ [t , t ], 1 0
Segue da hipótese em [t , t ] que 0 1
No intervalo [t , t ] a função θ = θ (t) é estritamente crescente, logo, 0 1
inversível. Seja t = t (θ) a sua inversa. Temos
Portanto,
Como t (θ ) = t e t (θ ) = t , resulta 0 0 1 1
EXEMPLO 9. O movimento de uma partícula no plano é regido pela equação
Determine a trajetória descrita pela partícula, supondo que ela parta do
ponto (x , y ) dado. 0 0
a) (1, 1)
b) (0, 1)
c) (1, 0)
d) (−1, −1)
e) (−1, 0)
f) (0, −1)
g) (−1, 1)
h) (1, −1)
Solução
Multiplicando a 1.ª equação por x e a segunda por −y e somando membro a membro, obtemos
Segue que toda solução
do sistema dado é, também, solução da equação , ou seja, da equação
x dx − y dy = 0.
Integrando, resulta
ou
x2 2 − y = c (c = 2k).
Segue que, para toda solução
do sistema dado, existe uma constante c tal que, para todo t ∈ I, o ponto (x (t), y (t)) permanece sobre a curva de nível
x2 2 − y = c, que é uma família de hipérboles (c ≠ 0) ou um par de retas (c = 0). A partícula que parte da posição (1, 1) descreve o movimento sobre a reta y = x (c = 0, neste caso); esta situação e as outras estão representadas na figura ao lado. As setas indicam o sentido de percurso. Observe que o sistema dado nos conta que a velocidade da partícula depende de sua posição e que na posição (x, y) a velocidade é
Por exemplo, na posição (1, 1) a velocidade é na posição (−1, 1) é
etc.
■
EXEMPLO 10. Com relação ao exemplo anterior, determine a posição, no
instante t, da partícula que parte da posição (x , y ) dada. 0 0
Solução
Como vimos, a partícula descreve o movimento sobre a reta y = x. Sendo, então, (x (t), y(t)) a posição da partícula no instante t, com t ∈ I, teremos, para todo t ∈ I,
y (t) = x (t).
Substituindo na 1.ª equação do sistema dado, obtemos
e, portanto, x = ket. Devemos tomar k = 1, pois, para t = 0, x = 1. Logo,
é a posição da partícula no instante t. (Observe que
é solução do sistema dado no exemplo anterior; quando t percorre o intervalo ] −∞, +∞[, o ponto (e t t , e) descreve a semirreta
A partícula descreve o movimento sobre o ramo de hipérbole x2 2 − y
=−1, y > 0. Segue que
Substituindo na 1.ª equação do sistema, obtemos
Separando as variáveis e integrando, resulta
Fazendo a mudança de variável x = tg θ,
e, portanto,
(Estamos omitindo a constante, pois ela já foi considerada em .) Como x = 0 para t = 0, devemos tomar k = 0; assim,
ou seja,
Daí,
1 + x 2 2 t 2 = e − 2xe + x t
e, portanto,
Substituindo em , obtermos
Deste modo,
fornece-nos a posição, no instante t, da partícula que, no instante t = 0, ocupa a posição (0, 1).
O movimento se realiza sobre a reta
y = −x (verifique).
Substituindo na 1.ª equação do sistema, obtemos
Portanto, x = ke−t. Para se ter x (0) = −1, devemos tomar k = −1. Portanto,
fornece-nos a posição no instante t da partícula que parte de (−1, 1). Observe que, para t → +∞, a posição da partícula tende para a origem (0, 0).
Os demais casos ficam para o leitor.
■
EXEMPLO 11. (Mudança de variáveis.) Considere a equação
Sejam x = f (u, v) e y = g (u, v) duas funções de classe C1 no aberto Ω , tais
1
que, para todo (u, v) ∈ Ω , (f (u, v), g (u, v)) ∈ Ω. Prove que se 1
for solução da equação
então
será solução de .
Observação. Na equação acima
P (u, v) = P (f (u, v), g (u, v)) 1
e
Q (u, v) = Q (f (u, v), g (u, v)). 1
Solução
Segue de que
Basta, então, substituir e em
e observar que, por hipótese,
é solução de .
■
EXEMPLO 12. Considere a equação
Determine uma solução y = y (x) cujo gráfico passe pelo ponto (2, 1).
Solução
A equação dada é equivalente a
(x − y) dx + (x + y − 2) dy = 0, x + y − 2 ≠ 0.
Façamos a mudança de variáveis
Temos
dx = du e dy = dv.
Substituindo na equação dada, vem
Como estamos interessados numa solução que passa pelo ponto (2, 1), podemos trabalhar com u > 0. Dividindo os dois membros de por u, obtemos
Consideremos, então, a equação
Façamos, agora, a mudança de variável
Temos
Substituindo na equação acima, obtemos
que é equivalente a
e, portanto,
ou seja,
Tendo em conta e , resulta Para x = 2 e y = 1 resulta c = 0. Uma solução y = y (x) do problema é, então, dada implicitamente pela equação
(Sugerimos ao leitor esboçar o gráfico de uma tal solução; para isto passe a equação acima para coordenadas polares, fazendo
Sugerimos, ainda, verificar que
com ρ = k e − , onde k ≥ 0 é uma constante, é solução da equação θ
(x − y) dx + (x + y − 2) dy = 0.
Desenhe tais soluções.) Veja, também, Exercício 30 da Seção 10.5.
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EXEMPLO 13. Considere a equação
Determine uma solução que passe pelo ponto (0, 1).
Solução
Vamos passar para coordenadas polares. Façamos
Como estamos interessados numa solução que passe pelo ponto (0, 1) podemos trabalhar com ρ > 0 e θ no intervalo ]0, π[. Temos
ou seja,
Substituindo e na equação dada e simplificando, obtemos
(cos θ − 1) dρ + ρ sen θ dθ = 0,
que é equivalente a
e, portanto,
In ρ − In (1 − cos θ) = c.
Para resulta c = 0. Logo,