Um Curso de Cálculo, Volume 4
12.2 Método prático: preliminares
Na Seção 12.3, estabeleceremos um método prático para determinar duas soluções de com W (0) ≠ 0. Na próxima seção, vamos preparar o terreno para o estabelecimento de tal método.
Para finalizar a seção, vamos mostrar que a definição de wronskiano, apresentada nesta seção, engloba aquela que aparece na Seção 11.5. Consideremos, então, a equação
Como vimos no Exemplo 3, esta equação é equivalente ao sistema
Sendo x (t) e x (t) soluções de , então 1 2
serão soluções de e o wronskiano destas soluções é
que concorda com aquela definição de wronskiano que aparece na Seção 11.5.
12.2. MÉTODO PRÁTICO: PRELIMINARES
O objetivo desta seção é introduzir algumas notações e alguns resultados sobre matrizes. Consideremos então o sistema
A matriz deste sistema será indicada por A:
Um vetor-coluna será indicado por uma letra em negrito:
Com estas notações, o sistema se escreve
Como se aprende no estudo de matrizes, se α e β são números reais e u e υ dois vetorescolunas, então tem-se
A(αu) + βυ) = α Au + β Aυ. (Confira.)
Indicando por I a matriz unitária de ordem 2
temos
e, portanto,
onde λ é um número real. O determinante da matriz A − λI será indicado por det (A − λI). Assim,
As raízes da equação característica
det (A − λI) = 0
denominam-se autovalores da matriz A. Seja λ um autovalor da matriz A. 1 Um vetor-coluna não nulo υ denomina-se autovetor associado ao autovalor
λ se, e somente se, 1
Aυ = λ υ. 1
A equação acima é equivalente a
(A − λ I) υ = 0, 1
onde 0 = é o vetor-coluna nulo.
Tudo o que dissemos acima aplica-se quando A é uma matriz quadrada de ordem n e I, a matriz unitária de ordem n.
EXEMPLO 1. Considere a matriz
a) Determine os autovalores de A.
b) Determine os autovetores associados aos autovalores de A.
Solução
a) Os autovalores são as raízes da equação característica
Esta equação é equivalente a
λ2 − 3λ − 4 = 0.
Assim, os autovalores são: λ = −1 e λ =4. 1 2 b) Primeiro vamos determinar os autovetores associados ao autovalor λ . 1 Tais vetores são as soluções não nulas do sistema
(A − λ I) υ = 0, 1
que é equivalente a
onde υ = Como λ = −1, resulta 1
que é equivalente a
Por sua vez, este sistema é equivalente a
3m + n = 0.
Daí, n = −3 m. Os autovetores associados ao autovalor λ = −1 são: 1
Os autovetores associados ao autovalor λ = 4 são as soluções não nulas do 2 sistema
Como λ = 4, resulta 2
que é equivalente a
−2m + n = 0.
Daí, n = 2m. Os autovetores associados ao autovalor λ = 4 são 2
Consideremos, novamente, o sistema e seja λ um autovalor da matriz A deste sistema. Conforme aprendemos na seção anterior, o sistema admite uma solução do tipo λ e . A pergunta que se coloca naturalmente é a t
seguinte: que relação existe entre o vetor υ = e o autovalor λ? O
próximo exemplo nos diz que υeλ será solução de se, e somente se, υ for t
um autovetor associado ao autovalor λ.
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EXEMPLO 2. Considere o sistema
= Ax
e seja λum autovalor da matriz A. Prove que x (t) = υe λ , onde υ é um vetor-t
coluna constante, será solução do sistema acima se, e somente se, υ for um autovetor associado ao autovalor λ.
Solução
x(t) = υeλ λ ⇒ (t) = λυe t t
pois υ é constante. Supondo então que x(t) = υe λ é solução e substituindo t
no sistema, devemos ter, para todo t real,
λυe λ λ ) = A (υe. t t
Como A(υeλ λ λ ) = e Aυ, pois e é escalar, resulta t t t
λυeλ λ = e Aυ t t
e, portanto, Aυ = λυ. Por outro lado, se Aυ = λυ, então υeλ será solução. t
(Verifique.) Logo υe λ será solução se, e somente se, υ for autovetor t
associado ao autovalor λ. (Observe que esta prova é válida mesmo se supusermos λ complexo e permitirmos que as soluções assumam valores complexos.)
■
Vimos na seção anterior que se a matriz A do sistema admite
autovalores iguais, λ = λ , e se a ≠ 0 ou a ≠ 0, então o sistema admite, 1 2 12 21 também, solução do tipo
com (Veja exemplo 2 da seção anterior.) O próximo exemplo nos
diz que
x (t) = (υ + t u) e λ , t
1
onde será solução do sistema se, e somente se, u e υ
satisfizerem as condições
(A − λ I) υ = u 1
e
(A − λ I) u = 0. 1
Observe que a 2.ª condição nos diz que u deve ser um autovetor associado
ao autovalor λ . Observe, ainda, que as condições acima são equivalentes a 1
e
EXEMPLO 3. Considere o sistema
= Ax
e seja λ um autovalor da matriz A. Prove que x (t) = (υ + tu) eλ , onde u e υ t
são vetorescolunas constantes, será solução do sistema acima se, e somente se, u e υ satisfizerem as condições
(A − λI) υ = u
e
(A − λI) u = 0.
Solução
x (t) = (υ + tu) eλ λ λ ⇒ (t) = ue + λ (υ + tu) e . t t t Supondo, então, que x (t) = (υ + tu) e λ é solução e substituindo no sistema t
= Ax, devemos ter, para todo t,
ue λ λ λ + λ (υ + tu) e = A [(υ + tu) e ] t t t
e, portanto,
(u + λυ) e λ λ λ λ + λu t e = e Aυ + t e Au. t t t t
Logo, devemos ter, para todo t real,
u + λυ + λut = Aυ + tAu.
Daí resultam
Aυ = u + λυ
e
Au = λu,
ou seja,
(A − λI) υ = u
e
(A − λI) u = 0.
Fica a seu cargo verificar que se estas duas últimas condições se cumprem, então x (t) = [υ + tu] e λ será solução. t
■
Quando estivermos trabalhando com um sistema com três equações
poderão ocorrer soluções do tipo
onde λ é um autovalor da matriz do sistema, ou seja, λ é uma raiz da equação característica
e u, υ e w são vetores-colunas constantes:
Deixamos a seu cargo provar que a função acima será solução de = Ax se, e somente se,
(A − λI) w = υ,
(A − λI) υ = u
e
(A − λI) u = o,
onde I é a matriz unitária de ordem 3. É claro que os Exemplos 2 e 3 aplicam-se, também, a sistemas com três ou mais equações.
Voltemos ao sistema de duas equações. Sejam λ e λ autovalores 1 2 reais e distintos da matriz A e sejam autovetores
associados, respectivamente, a λ λ λ e λ . Conforme vimos acima, u e e υ e
1 2 2 1 t t
são duas soluções de . O exemplo que apresentaremos a seguir mostra que o wronskiano, em t = 0, destas duas soluções é diferente de zero.
EXEMPLO 4. Sejam λ e λ autovalores reais e distintos da matriz A do 1 2
sistema , e sejam autovetores associados,
respectivamente, a λ λ e λ . Prove que o wronskiano das duas soluções u e
1 2
1t
e υ eλ2 t é diferente de zero, em t = 0, isto é,
Solução
Provar que o determinante acima é diferente de zero equivale a provar que a única solução do sistema homogêneo
é a solução trivial α = β = 0. Este sistema, na forma vetorial, se escreve
Precisamos provar, então, que
αu + βυ = 0 ⇒ α = β = 0.
Consideremos, então, a equação
αu + βυ = 0.
multiplicando os dois membros de pela matriz A, resulta
A (αu + βυ) = A0
e, portanto,
αAu + βAυ = 0.
Lembrando que u e υ são autovetores associados a λ e λ , respectivamente, 1 2 vem
αλ u + βλ υ = 0. 1 2
Multiplicando, agora, os dois membros de por − λ e somando com , 1 resulta
β(λ − λ ) υ = 0. 2 1
De λ ≠ λ e υ ≠ 0 resulta β = 0. Substituindo em , obtemos αu = 0 e, 2 1
portanto, α = 0. (O que acabamos de provar é que u e são linearmente independentes, conforme você aprendeu em vetores.)
■
No próximo exemplo, mostraremos que se é um autovetor
associado ao autovalor λ da matriz A e se é tal que (A − λ I) υ = u, 1 1 então
o que significa que o wronskiano, em t = 0, das soluções u eλ λ 1t t 1 e (υ + tu) e
é diferente de zero.
EXEMPLO 5. Suponha que é um autovetor associado ao
autovalor λ da matriz A do sistema e seja tal que (A − λ I) υ = 1 1 u. Mostre que
Solução
Precisamos mostrar que
αu + βυ = 0 ⇒ α = β = 0. Consideremos então a equação
αu + βυ = 0.
Multiplicando os dois membros pela matriz A − λ I, obtemos 1
α (A − λ I) u + β (A − λ I) υ = 0. 1 1
Segue da hipótese que
βu = 0
e, portanto, β = 0. (Lembre-se de que u ≠ 0, pois u é autovetor.) Substituindo em , obtemos αu = 0 e, portanto, α = 0.
■
Os próximos exemplos referem-se a um sistema com três equações diferenciais lineares de 1.ª ordem e com coeficientes constantes.
EXEMPLO 6. Sejam λ e λ dois autovalores reais e distintos da matriz 1 2
e sejam autovetores associados, respectivamente, a λ e λ . Mostre que, quaisquer 1 2 que sejam α e β reais, tem-se 1 1
α u + β υ = 0 ⇒ α = β = 0. 1 1 1 1
Solução
Fica para o leitor. (Sugestão: Proceda como no Exemplo 4.)
■
EXEMPLO 7. Sejam λ , λ e λ três autovalores reais e distintos da matriz 1 2 3
A do exemplo anterior. Sejam
autovetores associados, respectivamente, a λ , λ e λ . Prove que, quaiquer 1 2 3 que sejam, α, β e γ reais, tem-se
αu + βυ + γw = 0 ⇒ α = β = γ = 0.
Conclua que
Solução
Consideremos a equação
αu + βυ + γw = 0.
Multiplicando os dois membros de pela matriz A, obtemos
αλ u + βλ υ + γλ w = 0. (Confira.) 1 2 3
Multiplicando os dois membros de por − λ e somando com a equação 3 acima, resulta
α (λ − λ ) u + β (λ − λ ) υ = 0. 1 3 2 3
Pelo exemplo anterior,
α (λ − λ ) = 0 e β (λ − λ ) = 0. 1 3 2 3
De λ ≠ λ e λ ≠ , resulta α = β = 0. Substituindo em , temos γ = 0. Fica 1 3 2 3
provado, assim, que a única solução do sistema homogêneo
é a solução trivial α = β = γ = 0. Logo,
EXEMPLO 8. Sejam λ e λ autovalores reais e distintos de uma matriz A, 1 2
quadrada e de ordem 3, e sejam u e υ autovetores associados,
respectivamente, aos autovalores λ e λ . Seja w um terceiro vetor tal que (A 1 2 − λ I) w = υ. Prove que, quaisquer que sejam os reais α, β e γ tem-se 2
αu + βυ + γw = 0 ⇒ α = β = γ = 0.
Solução
Multiplicando os dois membros da equação
αu + βυ + γw = 0
pela matriz (A − λ I), obtemos 2
α (A − λ I) u + γυ = 0, 2
pois (A − λ I) υ = 0 e (A − λ I) w = υ. Como (A − λ I) u = Au − λ u = (λ − 2 2 2 2 1 λ ) u, substituindo em , obtemos 2
α (λ − λ ) u + γυ = 0. 1 2
Do Exemplo 6, resulta α = γ = 0. E, portanto, β = 0.
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EXEMPLO 9. Seja u um autovetor associado ao autovalor λ da matriz A. Sejam υ e w vetores tais que
(A −I) w = υ
e
(A − λI) υ = u.
Prove que, quaisquer que sejam os reais α, β e γ, tem-se
αu + βυ + γw = 0 ⇒ α = β = γ = 0.
Solução
Multiplicando os dois membros da equação
αu + βυ + γw = 0
pela matriz A − λI, resulta
βu + γυ = 0. (Confira.)
Multiplicando, agora, os dois membros desta equação por A − λI, resulta
γu = 0.
Daí, γ = β = α = 0.
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Estamos, agora, em condições de estabelecer o método prático para resolução de um sistema com duas ou três equações. O método se estende, sem problema algum, a sistemas com mais de três equações. (Pensando bem, poderá haver alguns pequenos problemas!)