Um Curso de Cálculo, Volume 4
11.4 Equações diferenciais lineares, não homogêneas, com coeficientes constantes
Uma partícula de massa m = 1 é abandonada na posição (1, 1), com velocidade nula.
a) Olhando apenas para o campo , tente descrever a trajetória
descrita pela partícula.
b) Determine a posição da partícula no instante t. Qual é a trajetória
descrita pela partícula?
11.4. EQUAÇÕES DIFERENCIAIS LINEARES, NÃO
HOMOGÊNEAS, COM COEFICIENTES
CONSTANTES
Consideremos a equação linear, de 2.a ordem, com coeficientes constantes
onde f é suposta definida e contínua num intervalo I. Se f não for identicamente nula em I, diremos que é não homogênea. Diremos, ainda, que
é a equação homogênea associada a .
Mostraremos, a seguir, que se x = x (t), t ∈ I, for uma solução p p particular de , então a solução geral de será
x = x + x , h p
onde x é a solução geral da homogênea associada a . De fato, sendo h
x = x (t),t ∈ I p p
solução de , para todo t ∈ I,
Supondo que x = x (t), t ∈ I, seja outra solução qualquer de , resulta que
x(t) − x (t) p
é solução da homogênea , pois, para todo t ∈ I,
Por outro lado, se x = x (t), t ∈ I, for tal que x (t) − x (t) é solução da p homogênea, então x = x (t) será solução de (verifique). Segue que a solução geral de é
x = x + x , h p
onde x é a solução geral da homogênea e x uma solução particular de h p
.
Conclusão
A solução geral de
é
x = x + x , h p
onde x é uma solução particular da equação dada e x , a solução p h geral da homogênea associada.
Observamos que este resultado já foi provado na Seção 5.5 do Vol. 2. (Reveja tal seção.) De forma análoga, prova-se que o resultado acima é válido para qualquer equação linear.
Determinar a solução geral da homogênea associada já sabemos. O problema, agora, é como determinar uma solução particular. Os exemplos que apresentaremos a seguir mostram como determinar, em alguns casos, uma tal solução.
EXEMPLO 1. Determine a solução geral de
Solução
A homogênea associada é
Logo, x −2 −1 = Ae + Be (verifique). Vamos, agora, procurar uma solução t
h
particular da equação dada. Observamos, inicialmente, que se x for um p polinômio do 2.° grau, então
será, também, um polinômio do 2.° grau (verifique). É razoável, então, tentar uma solução particular do tipo
x 2 = m + nt + qt,
p
onde m, n e q são coeficientes a determinar. O que precisamos fazer, agora, é substituir esta função na equação e determinar m, n e q para que se tenha uma identidade.
(m + nt + qt2 2 2 2 )″ + 3 (m + nt + qt )′ + 2 (m + nt + qt ) = t,
ou seja,
2m + 3n + 2q + (6q + 2n)t + 2qt2 2 = t.
Devemos ter então
Logo,
Deste modo,
é uma solução particular da equação. A solução geral será
EXEMPLO 2. Determine a solução geral de
Solução
A solução geral da homogênea associada é x −3 = A + Be (verifique). Se t
h
x for um polinômio do grau 3, então p
será do grau 2 (verifique). Vamos, então, tentar uma solução particular do tipo
x 2 3. = mt + nt + qt
p
Omitimos o termo independente em virtude de ele desaparecer na derivação. (Veja, também, observação abaixo.) Vamos, agora, substituir na equação e determinar m, n e q de modo a ter uma identidade.
(mt + nt2 3 2 3 2 + qt )″ + 3 (mt + nt + qt )′ = t,
ou seja,
3m + 2n + (6n + 6q) t + 9qt 2 2 = t.
Devemos ter, então,
Logo,
Assim,
é uma solução particular. A solução geral da equação dada é
Observação. Consideremos a equação linear de 2.a ordem, não homogênea,
Suponhamos que x = x (t) + x (t) seja uma solução desta equação. 1 2 Deixamos a seu cargo verificar que se x (t) for solução da homogênea 1 associada, então x (t) será solução da equação acima. Como no exemplo 2
anterior a função constante é uma solução da homogênea associada, resulta, do que dissemos acima, que se
x = A + mt + nt2 3 + qt
for solução, então
x 2 3 = mt + nt + qt
p
também será, que é mais uma razão para termos omitido o termo independente naquele exemplo.
EXEMPLO 3. Resolva a equação
Solução
A homogênea associada é
λ = 0 (raiz dupla) é a única raiz da equação característica λ2 = 0. Segue que a solução geral da homogênea associada é
x 0 0 = Ae + Bte t t
h
ou seja,
x = A + Bt. h
Se x for do grau 4, então será do grau 2. Tendo em vista a observação p p
anterior e a solução geral da homogênea associada, basta procurar uma solução particular do tipo
x 2 3 4 = mt + nt + qt.
p
Deixamos a seu cargo verificar que
Assim,
é a solução geral da equação dada. É claro que poderíamos ter chegado a este resultado integrando diretamente a equação dada:
EXEMPLO 4. Determine uma solução particular de
Solução
É de verificação imediata que
é uma solução particular
■
EXEMPLO 5. Considere a equação
Determine a solução geral
Solução
As raízes da equação característica (λ3 + λ = 0) da homogênea associada são: 0, ±i. Logo, a solução geral da homogênea associada é
x = A + B cos + t + C sen t. h
Se x for um polinômio do grau 1, p
será constante. Como toda função constante é solução da homogênea associada, a equação terá uma solução particular da forma
x = mt. p
Fica a cargo do leitor verificar que
x = 3t. p
Poderíamos ter chegado a este resultado olhando diretamente para a equação. Concorda? A solução geral da equação dada é
O próximo exemplo sugere-nos a forma de uma solução particular quando o 2.° membro é do tipo P (t) eαt, onde P (t) é um polinômio e α uma constante não nula.
EXEMPLO 6. Sejam b, c e α reais dados. Seja Q (t) um polinômio. Considere a equação
Prove:
a) Se α não for raiz de e se
x = Q(t)e α , t
então
onde P (t) é um polinômio de mesmo grau que Q (t).
b) Se α for raiz simples de , n ≥ 1 o grau de Q (t) e
x = Q(t)eαt,
então
sendo P (t) um polinômio de grau n − 1.
c) Se α for raiz dupla de , n ≥ 2 o grau de Q (t) e
x = Q(t)eαt,
então
onde P (t) é um polinômio de grau n − 2.
Solução
Assim,
onde
P(t) = Qn 2 (t) + (b + 2α) Q′(t) + (α + bα + c) Q (t),
que é um polinômio de mesmo grau que Q, pois α2 + bα + c ≠ 0.
b) Procedendo como no item a, obtemos
P(t) = Qn 2 (t) + (b + 2α) Q′(t) + (α + bα + c) Q (t).
Como α é a raiz simples da equação
λ2 + bλ + c = 0,
temos Δ = b 2 − 4c > 0 e
Logo, 2α + b ≠ 0. Sendo, então, α 2 + bα + c = 0, b + 2α ≠ 0 e Q′(t) de grau n − 1, resulta P (t) de grau n − 1.
c) Fica a seu cargo.
■
EXEMPLO 7. Resolva a equação
Solução
λ2 − 4 = 0
é a equação característica da homogênea associada. Assim,
x 2 −2 = Ae + Be t t
h é a solução geral da homogênea associada. Como α = 2 é uma raiz simples desta equação, segue do item b do exemplo anterior que devemos tentar uma solução particular do tipo
x 2 = Q(t)e , t
p
onde Q(t) é um polinômio de grau 3. Como Ae 2 é solução da homogênea t
associada, podemos omitir o termo independente de Q (t). Vamos procurar, então, uma solução particular do tipo
x 2 3 2 = (mt + nt + qt ) e . t
p
(Veja observação que vem logo depois do Exemplo 2 desta seção.) Temos:
Substituindo x e na equação dada e fazendo algumas simplificações, p p
obtemos:
4m + 2n + (8n + 6q)t + 12 qt2 2 = 1 + t + t.
Segue que . Assim,
é uma solução particular. A solução geral será, então, EXEMPLO 8. Determine a solução geral de
Solução
A solução geral da homogênea associada é
x = A cos 2t + B sen 2t. h
Como α = 2 não é raiz da equação característica λ2 + 4 = 0, o item a do Exemplo 6 sugere-nos uma solução particular do tipo
x 2 = me . t
p
Fica a seu cargo verificar que
A solução geral é, então,
EXEMPLO 9. Resolva a equação
Solução
A solução geral da homogênea associada é
α = 2 é uma raiz dupla da equação característica λ 2 − 4λ + 4 = 0. O item c do Exemplo 6 sugere-nos uma solução particular do tipo
x 2 = Q(t)e ,
p t
onde Q (t) é um polinômio do grau 2. Tendo em vista a solução geral da homogênea associada, devemos procurar uma solução particular do tipo
x 2 2 = mt e .
p t
Temos:
e
Substituindo na equação dada e fazendo algumas simplificações, obtemos
2m = 1.
Assim,
é uma solução particular. A geral é
Consideremos a equação
e suponhamos que o segundo membro seja da forma
onde α , β , M e N são constantes dadas. Deixamos a seu cargo verificar que 1 1
se α + iβ não for raiz da equação característica 1 1
então admitirá uma solução particular da forma
x α = e [m cos β t + n sen β t]
p t 1 1 1
com m e n constantes; se α + iβ for raiz de , admitirá uma solução 1 1 particular da forma
x α = e [m cos β t]. t + nt sen β
p 1 1 1t
Observação. Para verificar as afirmações acima você irá precisar da seguinte propriedade:
α + iβ 11
é raiz de se, e somente se,
EXEMPLO 10. Resolva a equação
Solução
As raízes da equação característica
são i e − i. Assim, a solução geral da homogênea associada é
x = A cos t + B sen t. h
Como 1 + i(α = 1 e β = 1) não é raiz de , resulta do que vimos 1 1
anteriormente que a equação dada admite uma solução particular da forma
x t = e [m cos t + n sen t],
p
onde m e n são constantes a determinar. Substituindo na equação dada e fazendo algumas contas, obtemos
Logo, a solução geral da equação dada é
EXEMPLO 11. Resolva a equação
+ x = cos t.
Solução
O 2.° membro é da forma
eα [M cos β t + N sen β t], 1t
1 1
onde α = 0, β = 1, M = 1 e N = 0. Como α + iβ = i é raiz da equação 1 1 1 1 característica
λ2 + 1 = 0,
a equação admite uma solução particular da forma
x = mt cos t + nt sen t. p
Temos:
p = (m + nt) cos t + (n − mt) sen t
e
p = (2n − mt) cos t + (−2m − nt) sen t.
Substituindo na equação dada e fazendo algumas simplificações, obtemos:
2n cos t − 2m sen t = cos t.
Logo, A solução geral da equação dada é
Vamos, agora, apresentar num quadro os resultados obtidos anteriormente sobre escolha de solução particular nos casos: f (t) = P(t), onde P é um polinômio; f (t) = P (t) eα α t t 1 ou f(t) = e [M cos β t + N sen β t],
1 1
onde α, α , β , M e N são constantes. No quadro a seguir P é um polinômio 1 1 1 de mesmo grau que P.
f(t) solução particular
P 1. Se c ≠ 0, x = P (t) ( t ) p 1
2. Se c = 0 e b ≠ 0, x = tP (t) p 1
P 1. Se α não for raiz da equação característica, x ( t ) e α tp
= αt P ( t ) e.
1
2. α Se α for raiz simples, x = tP = ( t ) e . t
p 1
3. Se α for raiz dupla, x = t2P (t) eαt. p 1
1. Se α + iβ não for raiz da equação 1 1
e t [M cos β t + N sen β t] 1 1 1 α x α característica,
p = e t [m cos β t + n sen β t]. 1 1 1
2. Se α + iβ não for raiz da equação 1 1
característica,
x α = e [mt cos β t + nt sen β t].
p 1 1 1 t
Fica a cargo do leitor pensar num quadro semelhante para equações lineares, com coeficientes constantes, de ordens 3 e 4.
EXEMPLO 12. (Oscilação forçada sem amortecimento.) Uma partícula de massa m desloca-se sobre o eixo Ox sob a ação da força elástica
e de uma força externa periódica são
constantes não nulas. Determine a posição da partícula no instante t.
Solução
A equação do movimento é
ou seja,
Fazendo temos
onde
1.° Caso. w ≠ w . 0
Como iw 2 2 não é raiz da equação característica λ + w = 0 (as raízes
0
desta equação são ±iw), segue que a equação admite uma solução particular da forma
x = m cos w t + n sen w t. p 1 0 1 0
Temos
e
Substituindo em , vem
e, portanto, . Logo,
é uma solução particular. A solução geral de é
Observe que a amplitude da solução particular x é tanto maior, p
em módulo, quanto mais próximo w estiver de w. Quando w = w , tem-se o 0 0 fenômeno conhecido por ressonância. Veremos, a seguir, que neste caso a amplitude do movimento tende a +∞ quando t tende a +∞.
2.° Caso. w = w. 0
Agora, iw 2 2 é uma raiz da equação característica λ + w = 0. A equação
0
admite, então, uma solução particular do tipo
x = m t cos w t + n t sen w t. p 1 0 1 0
Temos:
Substituindo x e em , obtemos p
Logo, n = 0 e Assim, 1
é uma solução particular. Lembrando que segue que a
solução geral é
Observe que a partícula descreve um movimento oscilatório em torno da origem e que a amplitude do movimento tende a + ∞ quando t → + ∞. A figura abaixo é um esboço do gráfico da solução particular , no caso F > 0 e w > 0. Temos
ou seja, para todo t ≥ 0,
O gráfico de x está compreendido entre as retas p
toca estas retas nos pontos em que cos wt = ± 1.
EXEMPLO 13. (Oscilação forçada com amortecimento.) Uma partícula de massa m desloca-se sobre o eixo Ox sob a ação de uma força elástica −kx (k > 0), de uma força de amortecimento proporcional à velocidade dada por
e de uma força externa periódica dada por (F sen w t) com F 0
e w 2 constantes não nulas. Suponha c − 4mk < 0. Determine a posição da
0
partícula no instante t. (Ficam a seu cargo os casos c 2 − 4 mk ≥ 0.)
Solução
ou
é a equação do movimento. Fazendo
resulta
As raízes da equação característica
são − γ + iw e − γ − iw , onde 1 1
(Observe que
logo, as raízes são complexas.) A solução geral da homogênea associada é
Como iw não é raiz da equação característica, a equação admite uma 0
solução particular do tipo
Derivando e substituindo em , obtemos:
Resolvendo sistema
resultam
e
A solução particular pode ser colocada na forma
onde tg Tendo em vista os valores de m e n resulta 1 1
A solução geral é então
Temos:
pois γ > 0. Assim, após um intervalo de tempo suficientemente grande esta parte da solução torna-se desprezível: por essa razão ela é chamada transiente. Após um intervalo de tempo suficientemente grande o movimento se comporta como um movimento harmônico simples de
amplitude . É comum referir-se a x como a solução p
de estado permanente.
■
Para finalizar, vamos resolver uma equação linear de 1.ª ordem com o método desta seção.
EXEMPLO 14. Resolva a equação
+ 2x = e t t cos .
Solução Exercícios 11.4
A equação característica da homogênea associada é
λ + 2 = 0.
Logo, a solução da homogênea associada é
x −2 = Ae . t
h
Como 1 + i não é raiz da equação característica, a equação dada admite uma solução particular do tipo
x t = e [m cos t + n sen t].
p
Derivando e substituindo na equação dada, obtemos
(3m + n) cos t + (3n − m) sen t = cos t
e, portanto,
Logo, A solução geral é, então,
(Sugerimos ao leitor resolver a equação dada utilizando a fórmula da Seção 11.1. Compare.)
■
1. Determine a solução geral.
2. Considere a equação
Prove que se g (t) for solução particular de 1
solução particular de então g (t) g (t) será solução 1 2 particular de . (Este resultado é conhecido como princípio da
superposição.)
3. Resolva a equação dada.
4. 1 Determine uma função x = x (t), t ∈ , de classe C tal que x (0) = 0,
(0) = 1 e
5. 1 Determine uma função x = x (t), t ∈ , de classe C tal que x (0) = 0,
(0) = 1 e
6. Considere um circuito LC em série com um gerador de corrente
alternada de força eletromotriz E (t) = E sen w t, onde E e w são 0 0 0 0 constantes não nulas. Sabe-se da física que a carga q = q (t) no capacitor é governada pela equação
onde L é a indutância, C a capacitância, sendo L e C supostas
constantes positivas. Resolva a equação. Qual o valor de w para o 0 sistema estar em ressonância?
(Sugestão: Faça
7. Considere um circuito LCR em série com um gerador de corrente
alternada de força eletromotriz E (t) = E sen w t, com E e w 0 0 0 constantes não nulas. Sabe-se da física que a carga q = q (t) no capacitor é governada pela equação
onde L é a indutância, R a resistência e C a capacitância, sendo L, R e C supostas constantes positivas. Determine a solução de estado