Um Curso de Cálculo, Volume 4
Apêndice 2 Sobre séries de Fourier
Apêndice
2
SOBRE SÉRIES DE FOURIER
A2.1. DEMONSTRAÇÃO DO LEMA DA SEÇÃO 9.3
Inicialmente, vamos destacar alguns resultados que nos serão úteis na demonstração do lema.
Por um polinômio trigonométrico entendemos uma expressão do tipo
P(x) = α + α cos x + β sen x + ... + α cos kx + β sen kx, 0 1 1 k k
onde k é um natural dado, α , α , ..., α e β , β , ..., β reais dados. 0 1 k 1 2 k
Observamos que, quaisquer que sejam os naturais n e m,
senn n x, cos x, sen nx cos mx,
sen nx sen mx e cos nx cos mx
são polinômios trigonométricos. De fato,
sen nx cos mx = [sen (n + m) x + sen (n − m) x];
logo, sen nx cos mx é um polinômio trigonométrico. Da mesma forma, conclui-se que
sen nx sen mx e cos nx cos mx
são polinômios trigonométricos. Temos, agora,
sen2 x = − cos2x;
sen3 x = sen x − sen x cos 2x.
Como sen x cos 2x é um polinômio trigonométrico, conclui-se que sen 3 x é, também, um polinômio trigonométrico. Fica a seu cargo concluir que senn x e cosn x são polinômios trigonométricos.
Seja f : → contínua e periódica de período 2π. Vamos mostrar, a seguir, que para todo t real,
Para isto é suficiente provar que, sendo
então
G' (t) 0 em .
Pelo teorema fundamental do cálculo,
G' (t) = f (π + t) − f (−π + t)
para todo t. Como
f (−π + t) = f (−π + t + 2π) = f (π + t),
resulta
G' (t) = 0 em .
Logo, a função
é constante. Como resulta que, para todo t,
(Fica a cargo do leitor interpretar geometricamente este resultado.)
Seja δ um real dado, com Observamos que
cos x − cos δ > 0 em ] − δ, δ[
e
| 1 + cos x − cos δ | ≤ 1 em [ −π, −δ] ⋃ [δ, π].
Seja, agora, x ∈ [ −π, π ] um real dado. Temos, então, 0
cos (x − x ) − cos δ > 0 para −δ < x − x < δ 0 0
e
Observe que
−δ < x − x < δ ⇔ x − δ < x < x + δ 0 0 0
e
−π ≤ x − x ≤ −δ ou δ ≤ x − x ≤ π 0 0
são equivalentes a
x ∈ [ −π + x , x − δ] ⋃ [ x + δ, π + x ]. 0 0 0 0 Para todo natural n ≥ 1, seja P o polinômio trigonométrico n
P n (x) = [1 + cos (x − x ) − cos δ].
n 0
(Os resultados destacados anteriormente garantem-nos que P é realmente n um polinômio trigonométrico. Confira.) Para x − δ < x < x + δ, 0 0
cos (x − x ) − cos δ > 0. 0
Segue, então, da desigualdade de Bernoulli que
para x − δ ≤ x ≤ x + δ. 0 0
Por outro lado, para todo n ≥ 1,
para −π + x ≤ x ≤ x − δ ou x + δ ≤ x ≤ π + x . 0 0 0 0
Lema. Sejam f e g definidas e contínuas em [−π, π], tais que
f (−π) = f (π) e g (−π) = g (π).
Se, para todo natural n,
e
então
f (x) = g (x) em [−π, π].
Demonstração
Seja
h (x) = f (x) − g (x) em [−π, π].
Segue da hipótese que h é contínua em [−π, π] e h (−π) = h (π). Seja H: →
periódica de período 2π dada por
H (x) = h (x) em [− π, π].
Precisamos provar que h (x) = 0 em [−π, π]. Suponhamos que exista x ∈ [− 0 π, π] tal que
h (x ) ≠ 0. 0
Para fixar o raciocínio suporemos h (x ) > 0. Como H (x ) = h (x ) > 0 e H é 0 0 0 contínua, pela conservação do sinal existe δ > 0, com 0 < δ < , tal que
H (x) > 0 em ]x − δ, x + δ[. 0 0
Segue da hipótese que, para todo natural n,
e
Então, para todo natural n,
onde P é o polinômio trigonométrico mencionado anteriormente. Segue n
que
para todo n ≥ 1. (Veja .)
Como H é contínua e periódica, existe M > 0 tal que
| H (x) | ≤ M em .
Segue que
para − π + x ≤ x ≤ x − δ ou x + δ ≤ x ≤ π + x . (Veja .) Por outro lado, 0 0 0 0
H (x) P (x) ≥ H (x) + nH (x) [cos (x − x ) − cos δ] n 0 em [x − δ, x + δ]. (Veja .) Daí 0 0
Como
H (x) [cos (x − x ) − cos δ] > 0 0
em ]x − δ, x + δ[, segue que 0 0
logo,
Tendo em vista , para todo n ≥ 1,
e
Segue que existe um natural n, tal que que contradiz . Logo, h (x) = 0 em [−π, π].