Um Curso de Cálculo, Volume 4
12.3 Método prático para resolução de um sistema homogêneo, com duas equações diferenciais lineares de 1.ª ordem e com coeficientes constantes
12.3. MÉTODO PRÁTICO PARA RESOLUÇÃO DE UM
SISTEMA HOMOGÊNEO, COM DUAS
EQUAÇÕES DIFERENCIAIS L ª INEARES DE 1.
ORDEM E COM COEFICIENTES CONSTANTES
Consideremos o sistema
e sejam λ e λ as raízes da equação característica 1 2
isto é, λ e λ são os autovalores da matriz A do sistema . Do que 1 2
aprendemos nas duas seções anteriores, resulta o seguinte método prático
para se determinar a solução geral de no caso em que λ e λ são reais. O 1 2 caso em que λ e λ são complexos será visto mais adiante. 1 2
1.º Caso: a = a = 0. O sistema se reduz a 12 21
e a solução geral é
onde λ = a e λ = a . 1 11 2 22
2.º Caso: a ≠ 0 ou a ≠ 0 e λ ≠ λ . A solução geral é 12 21 1 2
onde são autovetores associados, respectivamente, a λ1
e λ . 2
3.º Caso: a ≠ 0 ou a ≠ 0 e λ = λ . A solução geral é 12 21 1 2
onde é autovetor associado a λ e 1
EXEMPLO 1. Resolva
Solução
= 2x 2 ⇔ x = k et
1
e
= −3y −3 ⇔ y = k e . t
2
A solução geral é
EXEMPLO 2. Resolva
Solução
A equação característica é
Os autovalores são: λ = 1 e λ = 3. Vamos, agora, determinar os autovetores 1 2
associados a estes autovalores. Primeiro, os autovetores associados a λ = 1. 1
este sistema é equivalente a (λ = 1) 1
2 m + 2 n = 0
e, portanto, m = − n. Os autovetores associados a λ = 1 são: 1
O autovalor λ = 1 fornece, então, a solução 1
Agora, os autovetores associados a λ = 3. 2
é equivalente a
e portanto, m = 0. Os autovetores associados a λ = 3 são 2
O autovalor λ = 3 fornece a solução 2
A solução geral é
Outro modo de resolver este sistema é o seguinte: da 1.ª equação = x
segue x = k et. Substituindo na 2.ª equação, vem 1
= 2k et + 3y, 1
cuja solução geral é
e, portanto,
y = k 3 . e − k e (Confira.) t t
2 1
A solução é, então,
Fazendo k = −c e k = c , resulta 1 1 2 2
que é a solução encontrada anteriormente.
■
EXEMPLO 3. Resolva
Solução
Os autovalores são: λ = −1 e λ = 2. Autovetores associados a λ = −1: 1 2 1
e como λ = −1, resulta 1
Logo, m = −2n e os autovetores associados a λ = −1 são: 1
Assim, o autovalor λ = −1 fornece a solução Determinemos, 1
agora, os autovetores de λ = 2. 2
é equivalente à equação
−m + n = 0
e, portanto, m = n. Os autovetores de λ = 2 são 2
Assim, o autovalor λ = 2 fornece a solução A solução geral é, então, 2
Outro modo de resolver o sistema dado é o seguinte. Da 1.ª equação, vem
= 2 .
Multiplicando a 2.ª equação por 2 e lembrando que 2y = , resulta
= 2x +
e, portanto,
− − 2x = 0.
Daí
x = k − 2 e + k e . (Confira.) t t
1 2
Segue que = −k − 2 e + 2k e . Substituindo na 1.ª equação do sistema dado, t t
1 2
obtemos
Fazendo k = −2c e k = c , resulta 1 1 2 2
que é a solução encontrada anteriormente.
■
EXEMPLO 4. Resolva
Solução
λ = 1 é o único autovalor. Determinemos os autovetores deste autovalor.
De λ = 1, resulta
−m + 2n = 0.
Os autovetores são:
O autovalor λ = 1 fornece então a solução Este autovalor fornece,
também, outra solução da forma
onde é uma solução do sistema
Este sistema é equivalente a (λ = 1)
que, por sua vez, é equivalente a
−m + 2n = 1.
Tomando-se m = 1, temos n = 1. Assim,
é outra solução fornecida pelo autovalor λ = 1. A solução geral é então
(Sugerimos ao leitor resolver o sistema dado pelo método do Exemplo 2 da Seção 12.1.)
■
O próximo exemplo facilitará as coisas no caso em que os autovalores são complexos. Observamos que, tendo em vista o Apêndice 1 do vol. 2, tudo o que aprendemos nas duas seções anteriores aplica-se se supusermos as funções definidas em e com valores em . Reveja tal apêndice!
EXEMPLO 5. Sejam x = x (t), y = y (t), x = x (t) e y = y (t) funções a 1 1 1 1 2 2 2 2 valores reais definidas em . Suponha que
(i é a unidade imaginária) seja solução do sistema . Prove que
são, também, soluções.
Solução
Sendo solução de , temos
e, portanto,
Logo, são soluções do sistema .
■
EXEMPLO 6. Resolva
Solução
Vamos, agora, determinar um autovetor associado ao autovalor λ = 1 + 2i.
De λ = 1 + 2i, resulta
Multiplicando a 2.ª equação por i, obtemos a 1.ª equação. Logo, o sistema acima é equivalente a
−im + n = 0.
Para m = 1, temos n = i. Assim,
é uma solução do sistema. Como
e(1 + 2 ) t =e (cos 2t + i sen 2t), i t
resulta
Pelo exemplo anterior,
são, também, soluções do sistema. O wronskiano, em t = 0, destas soluções é
Assim,
é a solução geral do sistema dado. Gostou?!
■
Exercícios 12.3
1. Resolva
2. Determine a solução que satisfaz as condições iniciais dadas.
Desenhe a trajetória da solução encontrada.
3. Uma partícula é abandonada na posição (1,0). Sabe-se que na posição
(x, y) sua velocidade é
Desenhe a trajetória descrita pela partícula.
4. Considere o sistema
a) Prove que se
for uma solução deste sistema, então será, também, solução da equação
2 dx − dy = 0.
Conclua que a trajetória desta solução está contida na reta y − 2x = k, para alguma constante k.
b) Determine a solução geral do sistema.
c) Seja c um real dado, desenhe a trajetória da solução que satisfaz
as condições iniciais x(0) = 0 e y(0) = c.
d) Seja c ≠ 0 um real dado. Desenhe a trajetória da solução que
satisfaz as condições iniciais x (0) = −c e y (0) = c.
5. Considere o sistema
Sejam λ e λ as raízes da equação característica 1 2
Seja
uma solução qualquer do sistema. Prove.
a) Se λ < 0 e λ < 0, então 1 2
b) Se λ = α + iβ e λ = α − iβ, com α < 0 e β ≠ 0, então 1 2
c) Se λ = iβ e λ = iβ, β ≠ 0, então a trajetória da solução que passa 1 2
pelo ponto (x , y ) ≠ (0, 0) é uma elipse. 0 0
d) Suponha λ > 0 ou λ > 0. Prove que existe uma solução 1 2
tal que
6. Considere o sistema
a) Determine a solução geral.
b) Desenhe a trajetória da solução γ(t) = (x(t), y(t)) que satisfaz a
condição inicial
c) Calcule onde γ(t) é a solução do item b.
7. Considere o sistema
Prove que a + a = 0 é uma condição necessária para que as 11 22
trajetórias das soluções sejam elipses. Tal condição é suficiente?
8. 1 2 Seja de classe C em tal que, para
todo (x, y) em 2, Prove que não existe curva γ: [a, b] →
2 1 de classe C, simples, fechada, orientada no sentido anti-horário
(ou horário) cuja imagem seja a fronteira de um compacto K, com interior não vazio, tal que, para todo t ∈ [a, b],
(Sugestão: Calcule diretamente e utilizando o teorema de
Green.)
9. Resolva o Exercício 8 utilizando o Exercício 7.
10. As trajetórias são elipses? Justifique.
11. Determine a para que as soluções do sistema
sejam periódicas. Qual o período?
12. Dois tanques 1 e 2, contendo soluções de água e sal, estão
interligados por dois tubos que permitem que a solução de um tanque
escoe para o outro e vice-versa. Sabe-se que as quantidades de sal S 1 = S (t) e S = S (t) nos tanques estão variando nas seguintes taxas 1 2 2
Sabe-se, ainda, que no instante t = 0 a quantidade de sal (em kg) no
tanque 1 era de S (0) = 15 e no tanque 2 de S (0) = 5. 1 2 a) Determine as quantidades de sal existentes nos tanques no instante t ≥ 0.
b) Calcule . Interprete.
13. Considere o sistema
a) Determine condições para que
b) Determine condições para que a solução (x(t), y(t)) tenda para a origem quando t → +∞, e em espiral.
14. Os lados x = x (t) e y = y (t) de um retângulo estão variando com o
tempo nas seguintes taxas
Sabe-se que, no instante t = 0, x (0) = 2 e y (0) 3. Determine o instante em que a área do retângulo é mínima.
15. Suponha que entre dois ambientes 1 e 2 haja troca de calor. Sejam T 1
= T (t) e T = T (t) as temperaturas, no instante t, nos ambientes 1 e 1 2 2
2, respectivamente. Admita que as temperaturas estejam variando nas seguintes taxas
Suponha que T (0) = 20 e T (0) = 20. (As temperaturas são dadas em 1 2 graus centígrados e o tempo em segundos.)
a) Mostre que as temperaturas estão variando periodicamente com o
tempo.
b) Determine T = T (t) e T = T (t). 1 1 2 2 c) Determine as temperaturas máxima e mínima no ambiente 2.
d) Desenhe a trajetória descrita pelo ponto (T (t), T (t)). 1 2
16. Sejam T = T (t) e T = T (t) as temperaturas, no instante t, nos 1 1 2 2
ambientes 1 e 2, respectivamente. Admita que as temperaturas estejam variando nas seguintes taxas
Suponha que T (0) = 20 e T (0) = 10. 1 2
a) Determine as temperaturas, no instante t, nos ambientes 1 e 2.
Esboce os gráficos de T = T (t), t ≥ 0 e T = T (t), t ≥ 0. 1 1 2 2
b) Interprete.
c) Desenhe a trajetória descrita pelo ponto (T (t), T (t)), t ≥ 0. 1 2
17. Suponha que x = x (t) e y = y(t), t ∈ , seja solução do sistema
Prove que o quadrado da distância do ponto (x (t), y (t)), t ∈ , à origem é constante. (Sugestão: Calcule a derivada, em relação a t, da função C(t) = [x (t)]2 2 + [ y (t)].) Interprete.
18. Suponha que x = x (t) e y = y (t), t ≥ 0, seja solução do sistema
Calcule a derivada da função dada por C(t) = [x (t)]2 2 + [y (t)], t ≥ 0. O que se pode concluir a respeito da distância do ponto (x (t), y (t)) à origem? Interprete.
19. Suponha que x = x (t) e y = y (t), t ≥ 0, seja solução do sistema
Calcule a derivada da função dada por C(t) = [x (t)]2 2 + [y (t)], t ≥ 0. O que se pode concluir a respeito da distância do ponto (x (t), y (t)), t ≥ 0, à origem? Interprete.